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Blessing Lumueno

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Treinador de futebol

“Aprendi tudo com o AC Milan de Arrigo Sacchi”: uma história pessoal sobre uma ideia

Arrigo Sacchi, ex-treinador de um super AC Milan que ficou na história do futebol e conquistou duas Ligas dos Campeões, completa esta quarta-feira 74 anos. O técnico Blessing Lumueno explica-nos como foi influenciado por Sacchi e como é que o italiano marcou o jogo

Blessing Lumueno

Arrigo Sacchi foi treinador nas décadas de 80 e 90, notabilizando-se essencialmente no Parma, no AC Milan e na seleção italiana

Luciano Viti

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Arrigo Sacchi.

Para a esmagadora maioria do público que segue o futebol, Sacchi é apenas um treinador daqueles que venceu muitos jogos, ganhou títulos, e é por isso reconhecido. Para mim, o génio italiano é o pai do 1x4x4x2 moderno. Do ponto de vista tático, são muitas as equipas que, hoje, se organizam para defender desta forma – em Portugal, não estarei muito longe da verdade se disser que a maior parte das equipas defende-se com as linhas organizadas desta forma.

Mas o primeiro treinador a elevar este sistema, dotando-o de um nível de detalhe absurdo, foi um italiano que como jogador nunca fez grande carreira e quando foi criticado por isso (num tempo em que apenas os ex-jogadores dominavam os bancos de suplentes) ele defendeu-se de forma segura: “para ser jóquei não é preciso nascer cavalo”.

Naquela altura, Sacchi começava e esbofetear um estigma que ainda existe, mas em menor escala, que é o de os ex-jogadores de alto nível terem uma vantagem significativa para terem sucesso como treinadores de alto rendimento.

O meu primeiro impacto com Arrigo Sacchi foi: “WOW”!

O AC Milan de Arrigo Sacchi venceu a Liga dos Campeões em 1988/89 e 1989/90

O AC Milan de Arrigo Sacchi venceu a Liga dos Campeões em 1988/89 e 1989/90

Peter Robinson - EMPICS

Estes comportamentos da linha defensiva, esta articulação com a linha média, esta disponibilidade dos avançados… Todos estes movimentos me parecem tão lógicos que é difícil imaginar que se jogue bem de outra forma. Sacchi imaginou o futebol do futuro. Teve sempre bem presente que este era um jogo cerebral, e que o seu grande objectivo era transportar para dentro de campo uma ideia que beneficiasse os seus jogadores. Para tal, pensou em reduzir os espaços entre os seus jogadores a atacar e a defender. Afinal, é mais fácil executar um passe de dez metros do que um de cinquenta, como também se torna mais fácil defender menos espaço, e por isso há menos cansaço.

Como ele nos disse, o Milan não tinha muitos jogadores capazes de driblar, mas, como estavam perto uns dos outros, criavam sinergias coletivas e o mais importante era que pensassem rápido, e tivessem referências de posicionamento dos colegas em função da situação de jogo. A sua ideia era envolver os onze jogadores, e fazer com que se movessem em conjunto, em função uns dos outros – criar um fio (in)visível que ligasse todos.

A forma mais simples de perceber a influência que Arrigo teve no futebol é olhar para o ano de 1986, em que o seu Parma já mostrava o início da organização coletiva que teve como expoente máximo o Milan de 1989, e ver que naquela altura a esmagadora maioria das equipas jogava para atacar e defender com referências individuais – hoje em dia uma equipa com referências individuais é considerada uma aberração.

Grazia Neri

É também o ex-treinador italiano a dizer que as equipas de Michels nos anos 70 foram o início de um futebol menos individual e mais coletivo, mas olhando para as equipas de agora percebemos que estão mais perto que nunca da “Sacchização”.

Penso que não é exagerado dizer que foi o primeiro modelo de jogo imaginado e pensado com tanto pormenor e com tanta ligação e articulação entre os momentos ofensivos e defensivos. Era um modelo de jogo tão bom e foi tão bem executado que a FIFA teve de mudar as regras do jogo, a regra do fora de jogo, depois da forma incrível como o seu AC Milan se exibiu em 1989. A armadilha de fora de jogo era executada na perfeição pela linha defensiva consoante as regras da altura, e é a forma da sua equipa defender que catalisa a mudança (em 1990) para uma regra mais próxima da que conhecemos agora. Basicamente, Sacchi descobriu e montou uma forma de “fazer batota”.

Para quem não está familiarizado com a mudança, anteriormente (de 1925 até 1990) não existia o conceito de estar em linha. Isto é, para estarem em jogo, os atacantes tinham de estar obrigatoriamente atrás dos dois últimos jogadores da equipa que defendia.

A organização e a sistematização do jogo chegaram a Portugal de forma contundente com Mourinho, mas é Jorge Jesus quem melhor personaliza, evolui, e se transforma no expoente máximo do Sacchismo. Os movimentos de contenção e cobertura, a bola coberta e descoberta e a pressão pelo lado cego são exemplos de conceitos que podemos ver em jogos das equipas de Arrigo Sacchi, que faz questão de os explicar em vídeos como o que podem ver de seguida.

Contam-se pelos dedos de uma mão os treinadores de quem se pode dizer o que Jürgen Klopp diz de Sacchi; treinadores que foram verdadeiramente marcantes e que conseguiram levar a sua ideologia a superar fronteiras. Imaginem o orgulho daquele homem quando ainda em vida percebe que as suas ideias inspiram os melhores treinadores do mundo. Por isso, o seu legado tático incomparável perdurará enquanto houver futebol como o conhecemos hoje.

Para terminar, deixo aquela que para mim é a mensagem mais assinalável de um treinador absolutamente genial, por quem ainda hoje me sinto apaixonado: “In Italia si pensa sempre che il calcio parte dai piedi dei giocatori, ma invece parte dalla mente.

Trocando por miúdos: no futebol, a cabeça é que joga, os pés apenas ajudam.