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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Campeão incompetente: o vencedor da Liga 2019/2020 será o menos mau

"O que se tem notado de ano para ano, de forma evidente, é uma queda abrupta da qualidade de jogo" na Liga portuguesa, defende o treinador Blessing Lumueno, que não vê nem o Benfica de Bruno Lage (que joga hoje em Portimão, às 19h15) nem o FC Porto de Sérgio Conceição (que recebe hoje o Marítimo, às 21h30) como merecedores do título nacional

Blessing Lumueno

SOPA Images

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A suposta mudança de paradigma para a “Era da Estratégia” assinala que já não é o modelo de jogo o factor diferenciador entre as grandes equipas e o traço fundamental que as distingue de outras de menor dimensão. Não deixando o modelo de ser importante, diz-se que a capacidade de adaptação ao adversário, o anular dos seus pontos fortes e a exploração dos seus pontos frágeis é o ex-líbris do futebol destes tempos. Tal ideário advoga ainda que quem não estiver ADAPTADO às novas circunstâncias ficará para trás e não resistirá à velocidade de mudança deste novo futebol.

O campeonato em Portugal diz-se muito estratégico. Estratégia é aliás a palavra adoptada quando não há mais nada para elogiar no jogo. Quando não há futebol, quando não há competências coletivas ou individuais em clara evidência, os analistas e os treinadores recorrem a algo que mais ninguém conseguiu perceber no jogo (a tal estratégia) para se distinguirem, e para explicarem o resultado. Aceito que a era da estratégia tenha, finalmente, chegado à Portugal. Mas o que se tem notado de ano para ano, de forma evidente, é uma queda abrupta da qualidade de jogo. A bola tem sido maltratada na maior parte do tempo e, mais do que uma solução para resolver os problemas do jogo, a bola é agora um problema. Se há coisa que essa febre estratégica trouxe foi a incompetência para se jogar um jogo que a todos apaixonou pelo contacto com a bola, evitando-se agora o seu bom tratamento.

A título de exemplo, não me lembro de, na última década, um coro tão unânime de adeptos dos clubes que disputam o título. Muitos deles, apesar da celebração do título ser uma possibilidade bem real, não se conseguem rever nos comportamentos em campo das suas equipas a atacar e/ou a defender. Acompanhar os jogos dos que defendem as suas cores é um sofrimento imenso muitas vezes não proporcionado pelo resultado. A capacidade de sofrimento, tão falada por tantos treinadores em Portugal, é hoje o principal atributo para se ser adepto das equipas que ocupam os primeiros lugares. É um contrassenso ganhar sem se sentir superior, sem sentir que a equipa tenha feito o que pode para conseguir a vitória. Ao fim de cada noventa minutos, e mesmo com os três pontos no bolso, a sensação é de profunda frustração porque o futebol é paupérrimo. Tendo em conta os muito melhores argumentos que têm, as exibições das equipas tornam-se insuportáveis.

HUGO DELGADO

No FC Porto, Sérgio Conceição continua a querer arrombar as defesas adversárias. A sua opção por jogadores com uma compleição física imponente não permite que a equipa jogue um futebol de acordo com a qualidade dos intérpretes tecnicamente dotados, que se ofuscam por não falarem a mesma linguagem dos fortes e agressivos. De arrombamento em arrombamento, a equipa vai somando vitórias mais ou menos confortáveis, mas quando encontra quem queira retirar os duelos do jogo a dificuldade é evidente.

Há quem diga que não há opções para jogar de outra forma, que não há soluções para furar os blocos baixos que se amontoam em frente à área quando enfrentam as equipas “grandes”. Poderíamos estar a falar de uma equipa sem opções, e sem qualidade individual para jogar de outra forma; mas vemos que Fábio Silva, o melhor avançado do clube, só tem lugar na bancada; Fábio Vieira, que poderia acrescentar o virtuosismo e a capacidade para individualmente desembrulhar o jogo em espaços reduzidos não salta do banco; com Corona como lateral direito, e sem Alex Telles, não há espaço para Tomás Esteves usar a sua qualidade ofensiva para ajudar a equipa a atacar melhor; não há Diogo Costa que há muito justifica a aposta na baliza; não há Vítor Ferreira para fazer a bola entrar chegar em melhores condições às zonas de criação; Nakajima, inclusivamente, quer fugir do Dragão, tão má é a sua relação com o jogo proposto pelo seu treinador; as acções de Luis Díaz não são o suficiente para desembrulhar todos os jogos, em todos os momentos. É preciso que também ele se ligue com outros que o permitam ser melhor.

Com tudo isto, ignora-se o funcionamento do mercado em nome da entrada direta na Liga dos Campeões. Esquece-se, porém, que vender um Fábio Silva com vinte jogos na primeira divisão e alguns golos, com esta idade, poderia valer duas entradas na prova, deixando o clube de estar refém da classificação final para conseguir um extraordinário retorno financeiro. Fábio Vieira poderia perfeitamente ser vendido ao nível dos mesmos valores de Trincão, e se calhar até mais altos, tendo em conta o nome do clube que representa. Etc, etc, etc.

Repare que as grandes competências por todos reconhecidas da equipa de Sérgio Conceição são a compleição física, e a competência nas bolas paradas ofensivas. Sendo que a primeira não tem nada a ver com o trabalho tático do treinador, a segunda é uma característica boa, mas não das que fazem ansiar por ir ao estádio, ou ligar a televisão para ver a equipa jogar. Nenhuma grande equipa da história de Portugal é conhecida e reconhecida por algo tão pobre quanto a força das bolas paradas.

Relembre quais os intérpretes do melhor golo que a equipa marcou no decorrer desta época, e note que as capacidades físicas que utilizaram para fazer este golo foram a força técnica, e a velocidade de decisão: Luis Díaz, Uribe, Otávio, Nakajima, Corona, e outra vez Otávio.

No Benfica, vive-se um estado de dúvida permanente. Como a equipa quer ser estratégica acima de tudo, os jogadores não se conhecem e não se reconhecem. Não sentem os mesmos movimentos nos mesmos espaços, e não percebem nos mesmos timings os padrões de situações semelhantes.

Sendo que Bruno Lage venceu de forma arrebatadora a jogar em contra-ataque, a jogar com espaço, fiou-se ser esse o caminho certo para o seu Benfica e esqueceu do grande problema que isso lhe traria quando lhe retirassem o espaço. Não trabalhou a sua equipa para ser forte com bola, para ser forte a criar espaços, daí a pouca admiração pelo que Weigl pode dar ao jogo.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Por isso, intuímos o pouco trabalho para juntar jogadores que possam criar mini sociedades, e que coletivamente (pelo seu bom entendimento individual) consigam penetrar nas bem apetrechadas defesas contrárias de forma a criar mais situações de finalização simples. Pense na forma como Grimaldo está pouco acompanhado, com poucas linhas de passe, ou estando acompanhado, os posicionamentos não são os melhores para que ele possa beneficiar a equipa tirando partido da sua extraordinária qualidade. Também não se entende, numa equipa que anseia por criatividade, a ausência de Tiago Dantas das convocatórias. Não se compreende, numa equipa que precisa de jogadores que desembrulhem o jogo e que consigam desmontar um adversário para que a equipa possa jogar com menos oposição, a falta de oportunidades de Zivkovic - é que ele com um olho vê melhor do que os outros com dois, mas não tem uma real oportunidade para o demonstrar.

A equipa de Bruno Lage é fortíssima com espaço, sendo que coletiva e individualmente está bem montada para o aproveitar. O problema é que o mais importante é a bola. Não é difícil perceber que o Benfica entra em curto circuito quando não tem espaço. E a equipa até se poderia distinguir, também, pela excelência do momento defensivo; mas nesse momento do jogo, não demonstra predicados que nos convençam que aquele é o melhor caminho para evitar sofrer golos. A equipa tem dificuldade em defender os espaços entre linhas, e mesmo a defesa da baliza não se mostra de grande nível. Quando os adversários têm a intenção de trocar mais do que quatro passes consecutivos, os jogadores perdem as referências de pressão.

A hegemonia do FC Porto e do Benfica na luta pelo título é indissociável da qualidade dos seus jogadores. Portanto, de modo algum podemos dizer que a luta pelo título traduz a excelência coletiva de ambas e o trabalho diferenciador dos seus treinadores. As competições de regularidade costumam distinguir competências colectivas extraordinárias, e trabalhos de fundo dos treinadores que tatuam as suas ideias no corpo dos seus jogadores.

Mas em Portugal, na Liga NOS, essa relação não existe.

A qualidade de jogo não é proporcional ao número de vitórias (a uma percentagem esmagadora sobre derrotas e empates), nem tão pouco à classificação. O título não invalida que o melhor futebol tenha sido praticado por equipas que estiveram longe dessa disputa, e decerto não coroará o melhor treinador da Liga. Assim é este jogo onde as regras ditam que deverá existir um vencedor. E quem tem o melhor conjunto de jogadores, com uma diferença abismal para a concorrência, acaba por estar mais próximo de vencer, ainda que o treinador não se distinga dos seus pares pela destreza do jogo que a sua equipa pratica.

“O futebol não se ensina, aprende-se” (ou a responsabilidade de um treinador: ser o 25 de Abril de cada um dos seus jogadores)

"Assim como a Revolução dos Cravos foi o início de uma sociedade que levou muitos anos a organizar-se para chegar onde está hoje, cada treinador tem a responsabilidade, ou, se quiserem, a possibilidade de ser o 25 de Abril de cada um dos seus jogadores", escreve o treinador Blessing Lumueno, depois de questionar a forma como se ensina o jogo de futebol na formação