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Tiago Teixeira

Tiago Teixeira

Analista de futebol

Liga Europa: uma final inédita entre o 3-5-2 de Conte e o 4-1-4-1 de Lopetegui

O Inter de Milão e o Sevilha disputam esta sexta-feira (20h, SIC) a final da Liga Europa, num duelo inédito, que deverá ficar marcado pelo equilíbrio, antevê o analista Tiago Teixeira

Tiago Teixeira

Soccrates Images

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Para garantir um lugar na final da Liga Europa, o Inter de Antonio Conte deixou pelo caminho, na fase a eliminar, Ludogorets, Getafe, Bayer Leverkusen e, por fim, Shakhtar Donetsk, num jogo onde as recuperações de bola em zonas altas e a solidez defensiva, quando se posicionaram num bloco baixo, foram decisivas.

O Sevilha de Julen Lopetegui ultrapassou Cluj, Roma, Wolves e Manchester United, tendo, no jogo das meias-finais, contado com uma exibição inspiradíssima do seu guarda-redes, Yassine Bono, para travar o ataque inglês, e com as já habituais e muito perigosas investidas pelos corredores laterais (foi assim que nasceram os dois golos).

CONFRONTO

Tendo em conta os percursos até à final, e, mais importante, as ideias de jogo e respetivos modelos de Conte e Lopetegui, é de esperar um jogo equilibrado, com o Sevilha a superiorizar-se no que diz respeito à posse de bola, e a procurar o jogo exterior para criar situações de finalização, e um Inter, organizado defensivamente, seja em bloco baixo ou quando pressiona mais alto, e muito vertical quando tiver a bola, recorrendo muito aos apoios frontais para progredir.

INTER

Não haverá nenhuma surpresa tática por parte de Antonio Conte, adepto incondicional do 3x5x2. É neste sistema que o Inter se apresentará frente ao Sevilha, e a partir do qual procurará construir, para chegar com a bola controlada ao último terço.

Numa primeira fase, veremos os três centrais (Godin, de Vrij e Bastoni) bem abertos, com a proximidade de dois médios (Brozovic e Gagliardini), procurando, acima de tudo, atrair os avançados e médios do Sevilha, para que Lukaku e Lautaro consigam receber a bola no espaço entre linhas, e servir os médios (principalmente Barella) que aparecem de frente para o jogo, ou eles próprios rodarem e saírem em condução.

No quinto golo frente ao Shakhtar é possível ver esse padrão. Quando a bola entrou em Lukaku, Barella já se movimentava para receber de frente, mas o avançado belga conseguiu rodar e sair em condução.

Já no meio-campo ofensivo, em momentos onde o Sevilha se encontre num bloco mais baixo, veremos o Inter a procurar desequilibrar pelos corredores laterais (os alas Young e D’Ambrosio são muito importantes), bem como a usar o poderio físico de Lukaku – recebe de costas como se fosse um pivot de futsal – para entrar na área com a bola controlada.

Defensivamente, o Inter alternará entre uma pressão mais alta – pontapés de baliza, com referências individuais e muita agressividade para não deixar enquadrar (repare-se no vídeo seguinte, como os médios do Shakhtar estavam pressionados pelos médios do Inter), e um posicionamento mais baixo, com oito jogadores (os cinco defesas mais os três médios) posicionados nas imediações da grande área.

Para travar o Sevilha, há dois princípios fundamentais. O primeiro é evitar a inferioridade numérica nos corredores laterais, dado que é o caminho que a formação espanhola mais utiliza para servir as zonas de finalização. O segundo tem a ver com o controlo de cruzamentos. O Sevilha usa e abusa dos cruzamentos para fazer a bola chegar à grande área, por isso, é fundamental uma boa proteção do espaço à frente da baliza de Handanovic.

SEVILHA

Por parte de Lopetegui também não são esperadas nenhumas alterações táticas. O Sevilha deverá manter o seu habitual 4x3x3 e demonstrará intenção de construir apoiado desde trás, usando muitas vezes uma linha de três, com Fernando (médio defensivo) a baixar para o meio dos centrais, Koundé e Diego Carlos - será importante para criar superioridade numérica perante Lukaku e Lautaro, quando o Inter se posicionar num bloco médio.

No meio-campo ofensivo, Banega será fundamental para, em zonas mais recuadas e descaído para o lado esquerdo, ligar a fase de construção com a de criação através do passe, e também para atrair a marcação um dos médios interiores do Inter.

Suso (extremo-direito) terá liberdade para aparecer várias vezes entre linhas, mas é pelos corredores laterais que o Sevilha mais procurará desequilibrar. Quase todo o objetivo da posse passa por chegar aos corredores, para aí acelerar em direção ao último terço, e servir as zonas de finalização através do cruzamento ou passe atrasado.

Reguilón e Navas são fundamentais neste momento do jogo, pela profundidade que conseguem oferecer, como ficou bem demonstrado nos dois golos frente ao Manchester United.

Defensivamente, o Sevilha organizar-se-á no habitual 4x1x4x1, com os extremos, Suso e Ocampos, a baixarem para a linha dos dois médios interiores. Muito do sucesso defensivo do Sevilha passará por, em primeiro lugar, evitar que a bola entre em Lukaku e Lautaro – importante os médios não serem arrastados para os corredores laterais (Barella movimenta-se para fora com esse objetivo) e abrirem espaço no meio, e em segundo, pela maneira como os centrais, Diego Carlos e Koundé, irão abordar os avançados do Inter (principalmente Lukaku), quando estes baixarem para servir de apoio frontal.

No jogo dos quartos-de-final, Tapsoba (central do Leverkusen e ex Vitória) optou sempre por encostar em Lukaku e as coisas não lhe correram nada bem.

OS JOGADORES QUE PODEM DESEQUILIBRAR

Lukaku

Lars Baron/Getty

Além de todos os golos que marcou na caminhada do Inter até à final da Liga Europa (6 no total), Lukaku tem contribuído muito na fase de construção, ao servir de apoio frontal no espaço entre os médios e os defesas adversários. Recebe a bola, usa o seu poderio físico para a manter controlada, e depois, ou toca nos médios que aparecem de frente para o jogo, ou então procura rodar para sair em condução ou servir os movimentos de ataque à profundidade por parte de Lautaro.

Lautaro Martínez

Não esteve ao seu melhor nível durante toda a época, mas mesmo assim já soma 21 golos e 7 assistências, o que diz bem da sua qualidade no último terço e em zonas de finalização. Completa bem os movimentos de Lukaku, e oferece qualidade nos apoios frontais e nos movimentos de rutura para explorar a profundidade. Foi o melhor em campo na meia-final contra o Shakhtar, tendo contribuído, entre outras coisas, com dois golos e uma assistência.

Jesús Navas

É um dos principais desequilibradores do Sevilha no último terço, apesar de jogar como lateral-direito. Oferece muita largura e profundidade, e tem como principal função ofensiva servir as zonas de finalização através do cruzamento, levando já 9 assistências esta época. Numa equipa tão dependente do jogo exterior para criar situações de perigo, é fundamental que Navas esteja ao seu melhor nível para que o Sevilha consiga furar a organização defensiva italiana.

Éver Banega

É o cérebro da organização ofensiva do Sevilha. Pauta o ritmo do jogo, oferece critério e qualidade técnica na ligação entre a construção e criação, sendo também muito importante a servir as zonas de finalização, somando já 10 assistências esta época. Jogará como médio-interior, e será fundamental, entre outras coisas, na variação do centro de jogo, para que os laterais e extremos possam desequilibrar pelos corredores laterais.