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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

Bayern Munique vence uma final à antiga (a análise ao "concurso de talentos" que foi a Liga dos Campeões)

O treinador Blessing Lumueno analisa em pormenor a final da Liga dos Campeões conquistada pelo Bayern Munique, frente ao PSG, e conclui que os alemães foram "dos vencedores mais justos que esta prova já teve"

Blessing Lumueno

Julian Finney - UEFA

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Em Lisboa assistiu-se a uma final da Liga dos Campeões cheia de qualidade, em que os principais pontos de interesse, antes, durante, e no final voltaram a ser os jogadores. O jogo teve jogadores a demonstrar as suas habilidades como há muito não se via numa final da Champions, e a nota artística (citando o regressado Jorge Jesus) teve espaço em muitos dos principais momentos da partida. Houve dribles de Di Maria, receções extraordinárias de Lewandowski, arrancadas de Neymar, velocidade de Mbappé; definição de um renascido Ander Herrera, qualidade de passe de Marquinhos, criatividade de Thiago Alcantâra; inteligência de Muller, ginga de Coman, e ainda Alaba e Thiago Silva, que optavam por cortar em passe em vez de aliviar - um verdadeiro concurso de talentos.

Os dois treinadores apareceram como nos jogos anteriores, sem complexos no momento de pressionar com as linhas defensivas em cima da linha de meio-campo, e isso ajudou a que o espetáculo fosse mais rico. Quando os homens do leme não têm medo de destapar a manta atrás, o jogo torna-se bem mais interessante. Pressão alta, saídas rápidas para o contra-ataque, ataque posicional quando o adversário se organizava atrás, pressão forte pós perda. Bom, o confronto foi riquíssimo porque todos os intervenientes querem e podem jogar todos os momentos dinâmicos do jogo.

O PSG tentava condicionar a entrada da bola no corredor central, e mesmo quando Coman e Gnabry recebiam no corredor, as ordens eram para impedir penetrações frontais e dar de barato o cruzamento. Na área, Thiago Silva e Kimpembe aproximavam-se dos avançados para ninguém finalizar de forma limpa, e durante toda a primeira parte o Bayern não teve situações de golo tão boas quanto as que criou na segunda parte. O serviço para os avançados foi pobre, apenas em cruzamentos pouco trabalhados o Bayern tentava chegar, e Coman e Gnabry apenas conseguiram entrar uma vez dentro da área com a bola controlada nos primeiros 45 minutos.

As intenções do PSG eram fáceis de ler, e a primeira grande situação de golo surge disso. Como o Bayern entrou com a linha alta, como nos jogos anteriores, sem grandes preocupações com a profundidade, Tuchel preparou-se para explorar a velocidade de Mbappé, sobretudo nos primeiros momentos após a equipa recuperar a bola.

Eleven Sports

O primeiro lance de grande perigo surge de um desses momentos, onde a equipa do PSG tentou castigar o lado de Kimmich e Boateng, procurando no espaço que Mbappé estivesse ao seu nível na execução e na definição depois de receber em vantagem para atacar a baliza, ou apenas a linha defensiva bávara.

De notar, neste lance, a qualidade da segunda defesa de Neuer: acção monstruosa que rouba com os pés o golo a Di Maria. Infelizmente para os franceses, Mbappé não estava tão inspirado quanto o seu companheiro argentino que jogava como extremo do lado contrário, e os lances em que o PSG conseguiu colocar em dois passes (e por vezes até um) a bola no prodígio francês acabaram por não ter a eficácia que o seu treinador esperava.

Ainda assim, e apesar do PSG estar por cima na criação de situações de golo, o Bayern conseguiu por duas vezes ameaçar a baliza de Navas. Numa delas com um excelente trabalho de Lewandowski a responder a um cruzamento para a frente da linha defensiva quando esta recuava, que atira ao poste; e noutra onde o avançado polaco não consegue corrigir o cruzamento após desvio não intencional de Kimpembe para o seu espaço de finalização.

Eleven Sports

Os cruzamentos são uma forma de chegar a finalização que pela precisão que requer no gesto técnico de quem executa o passe, e de quem finaliza, não tem tanta eficácia como outras situações dentro da área. Contudo, há formas de preparar essa acção que permitem melhorar as condições de passe e de finalização. Na primeira parte, apenas por uma vez o Bayern conseguiu trabalhar a linha defensiva parisiense, obrigando-a a mover-se, retirando-lhe estabilidade, e depois fez o cruzamento de forma a apanhar os defesas em contramovimento. Assim se explica que Lewandowski tenha tido tempo para receber, rodar, e finalizar sem oposição dentro da área dos parisienses. Como Bernat recuava muito rápido pela possível ameaça à profundidade, não consegue vencer a inércia sem perder tempo precioso para o avançado polaco.

O PSG consegue responder, novamente em contra-ataque, num lance aparentemente bem elaborado, mas onde Mbappé esteve desastroso na forma como se desmarca. Num lance de superioridade numérica de 3x2+Gr, as ações estão nos livros: condução para o corredor central, linhas de passe a esquerda e a direita do portador da bola, atacar um jogador para provocar a superioridade ou ir em direcção à baliza caso os colegas estejam marcados. Neymar fez o melhor que pode com as condições que tinha, mas poderia e deveria ter gozado de outras condições para definir um lance que normalmente termina com uma finalização limpa contra o guarda-redes.

Eleven Sports

Depois do intervalo, Tuchel estava satisfeito e nada mudou, mas o seu compatriota Hansi Flick pediu aos seus jogadores para endurecerem os seus comportamentos quando a equipa perdia a bola, para não mais deixar o PSG sair rápido com tanta facilidade. A lesão de Boateng ajudou a estabilizar a linha defensiva numa primeira fase, mas a equipa alemã fez mais faltas duras nesse período e com isso não deu tantas possibilidades aos franceses de explorar o contra-ataque. Nesse período mais feio do jogo o Bayern coloca-se em vantagem, curiosamente, numa situação de cruzamento bem trabalhada.

Veja a análise ao golo de Coman, realizada por Blessing Lumueno (imagens cortesia Eleven Sports)

Se o cruzamento for preparado, retirando elementos à linha defensiva ou obrigando-os a moverem-se rápido e depois aproveitar esse movimento, o proveito dos cruzamentos é muito maior. O golo surge nesta situação, mas logo de seguida há outra bastante semelhante onde Coman não faz o segundo porque um defesa consegue o corte em cima da linha de baliza.

No final houve gestão, houve emoção e situações de golo para ambos os lados. A eficácia dos parienses, contudo, foi escassa. Importa, porém, realçar a forma como apesar da vantagem e de estar na iminência de vencer a maior prova de clubes europeus o Bayern nunca deixou de pressionar. É óbvio que os golos mudam os jogos, e que o estado anímico tem uma influência tremenda nos jogadores, mas percebeu-se que a pressão do Bayern não era apenas uma nuance estratégica e que faz parte do seu modelo de jogo pela forma como nunca deixarem de se entregar a esse trabalho. Estiveram quase até ao final do jogo dentro do meio-campo francês com e sem bola. Ainda que existam ajustes a fazer na forma como defende a profundidade, não deixa de ser notável o ideário agressivo, predominantemente ofensivo, da turma de Hansi Flick.

Michael Regan - UEFA

O Bayern é dos vencedores mais justos que esta prova já teve - foi em quase todos os períodos de quase todos os seus jogos a melhor equipa colectiva e individualmente, e é refrescante ver este Bayern campeão numa época em que a mediocridade de jogo reinou. Em quase todo o globo o nível de jogo foi paupérrimo, mas esta final veio dar muita luz aos dias sombrios por que o futebol passou na época 2019/2020.

No final ganharam os adultos

Não foi o melhor dos jogos destas duas semanas de Champions em Lisboa, mas a final da Liga dos Campeões foi, de certa maneira, paradigmática: uma equipa mais experiente, habituada a isto das finais, a ser mais inteligente, mais coesa, a quem bastou apenas uma jogada perfeita, e outra equipa a ceder ao momento, a tentar a magia quando a magia teimava em não aparecer. O Bayern venceu o PSG por 1-0, graças ao cérebro de Thiago, Kimmich e Muller e a um muro chamado Neuer. E os franceses vão seguramente aprender com a dor