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A final da Taça do 3-4-3

De repente, parece que só há 3-4-3 no futebol português: o Sporting de Rúben Amorim e o Sporting de Braga de Carlos Carvalhal já jogavam assim, o FC Porto de Sérgio Conceição e o Benfica de Jorge Jesus replicaram o sistema para defrontar os rivais. Porquê? A explicação envolve encaixes táticos (não se preocupe, isto está escrito em português e não em ‘tatiquês')

Mariana Cabral

Gualter Fatia

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Às tantas, algures no Sporting de Braga-Benfica, começámos a vê-lo na mão do treinador que estava privado da sempre preciosa assistência dos seus adjuntos: Jorge Jesus pegou num quadro tático (provavelmente desta empresa portuguesa que já os fornecia ao treinador quando ele ainda estava no que diz ser o melhor campeonato do mundo) e ia ajustando, íman a íman, presumivelmente, o que ia vendo em campo, já que o Benfica, ao contrário do que é habitual, jogou em 3-4-3 perante o Braga, que também joga em 3-4-3.

No dia anterior, na outra meia-final da Taça da Liga, o cenário tinha sido semelhante: perante o 3-4-3 habitual do Sporting de Rúben Amorim, Sérgio Conceição - também com ausências de peso no onze habitual, assim como o Benfica - decidiu responder na mesma moeda, ajustando o FC Porto também para um 3-4-3.

De repente, o 3-4-3 invade o futebol português em força. Para ficar? Nem por isso, profetizaria.

Pensemos assim: é uma ação mais simples esculpir uma estatueta ornamentada, cheia de detalhes entalhados até ao pormenor; ou pegar num martelo e dar-lhe uma marretada?

Na Liga portuguesa, a tendência dominante nos jogos de grande equilíbrio, como é o caso dos anteriores, não é tentar buscar (ou criar) buracos na estrutura do adversário para atacá-lo de forma mais ponderada e eficaz; ao invés, primeiramente, tenta-se impedir que esse mesmo adversário ataque com sucesso, anulando o espaço disponível para tal (e então depois, quando ele aparece, lá se tenta aproveitar).

E é aqui que entra o 3-4-3.

NurPhoto

Voltando ao início: é através do quadro tático que tudo começa, ainda que seja importante ressalvar que nem tudo se pode explicar por aí, porque o futebol é jogado por seres humanos e não por ímanes (ou bonecos, se quiser tentar pôr as suas ideias em prática aqui), e os humanos têm esta particularidade de terem emoções e de se cansarem, o que influencia fortemente o jogo jogado. Seja como for, a base está no quadro tático porque é nele que os treinadores antevêem onde está o espaço, quando há um sistema contra outro, a atacar e a defender, e percebem onde encaixa cada um dos jogadores.

Ora, para jogar contra um 3-4-3, primeiro há que saber que ele existe nesse formato enquanto as equipas atacam (ou seja, quando estão em organização ofensiva) e mesmo aí, como consequência das dinâmicas criadas, os números são sempre moldáveis: basta pensar que se os dois avançados/extremos da frente baixarem em apoio, podemos pormenorizar o sistema como 3-4-2-1, por exemplo, mas se for o avançado a fazê-lo, passamos a um 3-4-1-2, ou até mesmo um 3-5-2. Tudo depende daquilo que é observado como padrões de ação em cada uma das equipas, porque há, obviamente, dinâmicas que são muito mais frequentes do que outras.

Pegando nas meias-finais e no Sporting e no Braga como exemplos, já que ambos assumem o 3-4-3 desde o início da época (ainda que Carvalhal não goste muito de se guiar por sistemas) temos então mais atrás, além dos respetivos guarda-redes, Adán e Matheus, três defesas, que habitualmente são centrais de origem, mas que também podem ser laterais, como é o caso do canhoto Sequeira no Braga, que joga mais à esquerda, acompanhado por Carmo e Tormena; no Sporting, o canhoto Inácio jogou à direita, dada a ausência de Neto, acompanhado pelos habituais Coates e Feddal.

Fernando Veludo

No meio, dois médios, que tanto podem andar a par, como é mais prevalente no Braga, com Castro e Al Musrati, já que no Sporting, desde a incorporação de João Mário, há mais tendência para o 1+1, ou seja, Palhinha normalmente mais atrás e João Mário mais solto, sendo certo que há quase sempre um preocupado com o equilíbrio ofensivo (ou seja, quando a equipa está a atacar já no meio-campo adversário, mantém-se atrás da linha da bola, como cobertura). Nos corredores, dois alas, que personificam um híbrido de lateral com extremo, uma vez que tanto aparecem na área para assistir os colegas e finalizar ao segundo poste, como fecham lá atrás no setor defensivo, junto aos centrais - Porro e Antunes no Sporting (Nuno Mendes é o titular habitual no corredor esquerdo), Ricardo Esgaio e Galeno (um ex-extremo, que também já jogou integrado nos três da frente) no Braga. É essencial ressalvar que, neste 3-4-3, ao contrário do que acontecia no 3-4-3 de Johan Cruyff no Barcelona, por exemplo (ou ao contrário do que às vezes monta Pep Guardiola no City), os alas não são médios, no sentido em que não se intrometem no corredor central: tanto no Sporting como no Braga, são jogadores de corredor lateral, que dão amplitude e profundidade à equipa, precisando obviamente de muito andamento para fazê-lo, assim como de aptidão para entrar em situações de 1x1, dada a frequência com que recebem a bola de forma mais isolada, após as rápidas variações de corredor lateral para corredor lateral.

Mais à frente, três avançados - ou um avançado e dois extremos, como se preferir designar - buscando espaço onde ele existir: ou atrás do setor defensivo adversário, caso esteja alto no campo (ou seja, mais próximo da linha do meio-campo), ou entre linhas, caso o setor defensivo esteja mais baixo no campo e afastado do intermediário (sendo importante notar que as tentativas de desmarcação de rutura efetuadas pelos avançados, mesmo quando a bola não se dirige a elas, são essenciais para provocar a defensiva adversária a baixar e, por consequência, criar espaço em apoio) - e aqui temos Pedro Gonçalves, Tiago Tomás e Nuno Santos no lado do Sporting e Ricardo Horta, Ruiz (o habitual titular é Paulinho, que mescla com grande sucesso os apoios frontais com as desmarcações de rutura) e Fransérgio (ou Iuri, dependendo dos adversários).

Depois, a defender, a estrutura adotada normalmente é outra bem diferente, porque são muito raras as equipas que arriscam deixar apenas três elementos na linha mais recuada, já que isso pode permitir igualdade numérica ao adversário: por exemplo, ao jogar contra um 4-3-3. Assim sendo, o sistema habitualmente adotado aquando do primeiro momento de pressão (ou seja, quando a equipa adversária sai a jogar) é o 5-2-3, já que permite ter três jogadores na frente a dificultar a construção adversária, ao mesmo tempo que tem os alas a recuar para a linha defensiva, deixando apenas os médios no setor intermédio.

O encaixe inicial de um 3-4-3 perante um 5-2-3

O encaixe inicial de um 3-4-3 perante um 5-2-3

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Isto bloqueia de forma muito eficaz a largura do campo numa zona mais defensiva, dificultando aí as entradas do adversário em criação de ataques, mas também tem o seu revés, ao permitir mais espaço do que seria desejável na zona intermediária, nas laterais dos médios - é por isso que, o Braga, quando vê a sua primeira pressão ultrapassada, habitualmente reagrupa em 4-4-2, mas o Sporting, quando é necessário fechar o bloco de forma mais contundente, em zonas mais baixas, passa a um 5-4-1, com os dois extremos a descerem para a linha dos médios.

A mudança de Sérgio Conceição e Jorge Jesus

A explicação para a mudança de sistema de FC Porto e Benfica, para os respectivos jogos, é fácil de explicar: encaixes táticos. Com ambas as equipas a terem várias baixas nos onzes, os treinadores pareceram optar por priorizar o impedimento do adversário, ao invés de ressalvar a própria criação, mimetizando assim o espaço ocupado por outrem.

Concretizando a explicação: perante uma equipa que constrói com três defesas atrás, uma equipa que pressione com dois avançados à frente - supondo que estaríamos a pensar no 4-4-2 de portistas e benfiquistas - estaria sempre em inferioridade numérica, o que poderia dar mais conforto à primeira fase de construção do adversário e mitigar os riscos de tal saída de bola.

O possível encaixe inicial entre 3-4-3 e 4-4-2

O possível encaixe inicial entre 3-4-3 e 4-4-2

Ora, havendo um 3-4-3 contra um 5-2-3, verificamos que a disputa da linha mais recuada da primeira equipa com a linha mais adiantada da segunda equipa passa a formar-se em igualdade numérica: 3x3 (nota adicional para o facto da presença do guarda-redes permitir constantemente superioridade numérica; mas a maioria das equipas não gosta muito de arriscar ao integrá-lo nessa construção; e também é certo que quem pressiona muitas vezes não salta ao guarda-redes, para manter o emparelhamento inicial e impedir a progressão limpa). Assim sendo, está criado o primeiro pressuposto para fechar o espaço de construção ao adversário.

A pergunta que se poderia seguir é esta: mas o 4-3-3 não vai dar ao mesmo, tendo também três jogadores na frente? Olhando para o quadro tático, percebemos onde está a diferença: sim, haveria igualdade numérica nesse confronto, mas o problema poderia surgir no setor defensivo. Com apenas quatro elementos atrás, a equipa que defende poderia ter mais dificuldades em suportar as infiltrações na sua linha, dado que quem ataca em 3-4-3 não só tem três jogadores à frente - hipoteticamente, um avançado entre os dois centrais; e ambos os extremos no espaço entre centrais e laterais - como ainda tem os alas a tentar irromper pelos corredores laterais, alargando o campo à sua amplitude máxima e formando, em teoria, um 5x4.

O encaixe inicial de um 3-4-3 vs 4-3-3

O encaixe inicial de um 3-4-3 vs 4-3-3

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Ora, montar um 5-2-3 contra um 3-4-3 faz com que os problemas previamente enunciados simplesmente desapareçam, porque, por natureza, ambos encaixam perfeitamente um no outro, com cada jogador a ter um adversário direto exatamente no mesmo espaço que ocupa. Assim sendo, os duelos passam a prevalecer nas várias zonas do campo e, evidentemente, dificultam a vida a quem prefere jogar de trás para a frente, ligando todos os setores e subindo a equipa em bloco.

Foi isso que se viu nos jogos já enunciados e é isso que se vai ver, novamente, no Sporting-Sporting de Braga, encaixe que também já foi comprovado no início de janeiro, quando a equipa de Amorim recebeu a equipa de Carvalhal em Alvalade. Nessa altura, o Sporting venceu por 2-0, num jogo que foi tão equilibrado como se esperava e que deve servir de exemplo para o que teremos na final da Taça da Liga.

Com duas equipas tão perfeitamente encaixadas uma na outra, há três formas de desencaixá-las.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

A primeira, mais fácil de explicar, é a sorte (que Rúben Amorim tão bem admitiu na sua antevisão): às vezes, o equilíbrio desfaz-se apenas porque um jogador escorregou, ou uma bola embateu no poste e outra não, ou, por outro lado, porque há uma distração momentânea (a estagnação do experiente Pepe aquando do alívio de Mbemba no segundo golo do Sporting parece comprová-lo).

A segunda, mais difícil de quantificar, é a qualidade individual de cada jogador: havendo mais duelos, estes podem ser conquistados pelo físico (nas bolas aéreas, os sportinguistas raramente se superiorizavam aos portistas), ou pela criatividade dos artistas que tiram coelhos da cartola. Sendo que esta não se define somente pela capacidade de drible, mas por outros pormenores essenciais em jogos com tão pouco espaço, como a capacidade de receber bolas com souplesse invejável no meio de vários adversários, como acontece nos casos de Ricardo Horta e Pote, habituados a baixar para tentar receber de forma orientada para a baliza adversária - o que nos leva à terceira forma.

Pegando no exemplo anterior, havendo Pote ou Ricardo Horta a receber entre linhas, em frente ao setor defensivo adversário e enquadrados para a baliza adversária, é tão certo como um mais um ser dois que os colegas do ataque vão iniciar desmarcações de rutura para as costas dos defesas adversários, e é igualmente certo que os defesas adversários vão rapidamente tentar retirar esse espaço na profundidade, baixando o seu posicionamento. Isto são dinâmicas coletivas, ofensivas e defensivas, que são trabalhadas diariamente pelas equipas e que são o que lhes permite terem comportamentos facilmente identificáveis pelos colegas, quando há determinados estímulos a ocorrer no jogo.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

E será também o grau de predominância destas dinâmicas coletivas no jogo a definir quem se irá superiorizar ao adversário. Para encontrar espaço e desposicionar as defesas adversárias, terá de haver variabilidade de movimentos ofensivos, particularmente dos avançados, tanto em apoio como em rutura, assim como rápidas variações do centro do jogo, à largura e à profundidade, para obrigar quem defende a fechar mais de um lado, ou mais dentro, e depois quem ataca pode aproveitar para entrar mais pelo outro lado, ou por fora.

Mais ainda, se se procurar desfazer o emparelhamento de 3x3 na primeira disputa, seja através da presença mais evidente do guarda-redes, ou através do recuo de um ala, por exemplo (se não trouxer adversário com ele, recebe só e de frente para o jogo; se trouxer pressão com ele, abre espaço mais à frente para os avançados), a construção poderá ser beneficiada e favorecer quem a tenta, ao invés de serem repetidas frequentemente as bolas longas em direção ao corredor lateral, à procura do avançado.

Ainda assim, estes movimentos podem ser contrariados por uma equipa competente defensivamente, como foi o caso do Sporting no jogo contra o Braga em Alvalade, coordenado e bem posicionado. Os bracarenses, a dada altura, pareceram bem mais dominadores e próximos de concretizar as situações de finalização, mas a competência defensiva do Sporting (aliada a uma exibição certeira de Adán) acabou por impedir os visitantes de marcar.

Este sábado, uma coisa é certa: é o 3-4-3 a sair vitorioso na Taça da Liga.