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Análise

Sérgio Conceição vs Vítor Pereira: o FC Porto é “defensivo”?

Vítor Pereira disse que Sérgio Conceição valorizava muito "os aspetos defensivos" e Conceição não gostou e respondeu à letra, mas a justificação que apresentou, de certa forma, acabou por corroborar o que o colega disse, já que o FC Porto aposta muito na pressão defensiva para avançar para o ataque

Mariana Cabral

Gualter Fatia

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Primeiro, a clarificação que se impõe. O primeiro-ministro António Costa disse recentemente que, quando uma mensagem é passada e o recetor não a entende, então a culpa deve ser do emissor, que não passou a dita mensagem de forma efetiva. Podendo concordar, em tese, com essa argumentação, também não podemos esquecer que faz parte das responsabilidades do recetor a interpretação da mensagem que é emitida, e essa interpretação é, por defeito, sempre enviesada pelas vivências do recetor.

Isto tudo serve de preâmbulo para a leitura das palavras de Vítor Pereira, em entrevista à RTP. Questionado sobre a liderança de Sérgio Conceição no FC Porto, o ex-treinador portista respondeu assim:

“Nós só conseguimos entusiasmar se estivermos entusiasmados. Essa exigência que se cria, um discurso emocional e agressivo, é característico do ADN do clube. Tem características que são o ADN do FC Porto. O Sérgio valoriza muito os aspetos defensivos e não há dúvida nenhuma que para se conseguir títulos é preciso defender bem.”

Ora, para Sérgio Conceição, Vítor Pereira terá dito que o FC Porto é uma equipa defensiva. Eis o que respondeu na conferência de imprensa de antevisão do BSAD-FC Porto:

“A importância de não sofrer golos é grande, é a base para se ganharem jogos, sermos sólidos em termos defensivos. É um desporto simples: é marcar e não sofrer. O não sofrer é tão importante como marcar. Até treinadores que passaram por esta casa, como o Vítor Pereira, em entrevista à RTP, a dizer que eu tenho um ADN do FC Porto, mas sou um treinador defensivo... É tão básico e fica-lhe tão mal dizer isto. Estou a dizer aqui porque não tive oportunidade de estar com ele, senão dizia-lhe na cara que não gosto.”

Entre o que disse um e o que percebeu o outro, perdeu-se - ou ganhou-se - alguma coisa na interpretação, mas será que o que Sérgio Conceição acrescentou logo de seguida não confirma precisamente o que disse Vítor Pereira?

“Fomos a equipa nestes três anos que fez mais golos no campeonato, exceto no segundo ano. Apelidaram-nos de rolo compressor no primeiro ano. Uma boa organização defensiva é a base para termos sucesso em termos ofensivos, onde se defende, como se defende, se mais alto ou mais baixo. Contra o Rio Ave viram-nos a pressionar de forma um bocadinho diferente, porque sabíamos como o Miguel Cardoso gosta de sair a jogar, sabíamos que o Aderllan Santos tem dificuldades em construção e roubámos a bola ali. Isto é trabalho e essa boa consistência defensiva permitiu roubar bolas e criar oportunidades de golo. Somos a equipa em Portugal nos últimos três anos que a maior parte das bolas que rouba é no meio-campo ofensivo. Isso não é ser defensivo, é trabalhar bem defensivamente, que é diferente."

O posicionamento mais habitual do FC Porto no primeiro momento de pressão

O posicionamento mais habitual do FC Porto no primeiro momento de pressão

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Antes de avançarmos, é necessário que distingamos claramente os cinco momentos em que o jogo se divide (sendo que todos estão interligados e todos se influenciam constantemente, mas adiante). Utilizando o FC Porto como exemplo, simplificando, podemos dizer que quando os portistas têm a posse da bola, estão em organização ofensiva. No momento imediatamente seguinte a perderem a bola, estão em transição defensiva. Se voltam a ganhar a bola, nesse momento estão em transição ofensiva, sendo que, preferindo mantê-la na sua posse, voltam a entrar em organização ofensiva. Sempre que há um pontapé de saída, um livre, um lançamento ou um canto, existem esquemas táticos (não confundir com sistema tático, já que isso é o posicionamento coletivo da equipa e nada tem a ver com bolas paradas).

Enumerados os cinco momentos, que são praticamente unânimes no mundo do futebol, há também que dizer que cada um deles tem sub-momentos, em que, aí sim, podem divergir as nomenclaturas ou entendimentos. Indo apenas ao que nos interessa para a questão, podemos dizer que o primeiro sub-momento da organização defensiva é o primeiro momento de pressão, ou seja, a forma como a equipa se organiza inicialmente para pressionar o adversário na sua saída de bola - sendo que esta organização é sempre muito mais facilitada quando falamos de um pontapé de baliza, por exemplo, uma vez que a bola está parada e isso permite a reorganização da equipa para se posicionar para a pressão; durante o jogo, com a intermitência entre os vários momentos, isso não é tão simples de organizar, daí que a maioria das equipas tenham posicionamentos diferentes no segundo momento de pressão, quando a primeira linha de jogadores é ultrapassada ou a equipa já está mais baixa no campo.

Se o FC Porto sabe “trabalhar bem defensivamente”, nas palavras de Sérgio Conceição, isso muito se deve ao primeiro momento de pressão portista, indiscutivelmente uma das maiores, senão mesmo a maior, mais-valia do FC Porto. Habitualmente, a equipa fica muito alta no campo, ou para impedir o adversário de sair de forma curta, ou até para permitir que saia, mas apenas para logo de seguida iniciar uma pressão agressiva. A equipa assume uma espécie de 4-4-2 losango (imagem mais acima), com os dois avançados a condicionarem os dois centrais adversários, o médio mais alto no corredor central a condicionar o médio adversário mais baixo, e os médios alas a fecharem por dentro, mas prontos para sair à pressão nos corredores, aos laterais adversários, caso a bola seja endereçada para lá.

Se isto aconteceu frente ao Rio Ave sempre que a saída era iniciada apenas pelos centrais Aderllan e Borevkovic, houve uma outra forma de pressão, de que falava Sérgio Conceição, que também decorre daquilo que Miguel Cardoso pensou para a equipa neste jogo. Quando o Rio Ave estava em organização ofensiva, iniciando (o primeiro sub-momento) a primeira fase de construção, o médio Pelé procurava baixar para o espaço entre os dois centrais, formando assim uma linha de três jogadores para tentar ganhar superioridade e conforto na saída.

Com a construção a ser iniciada por esses três jogadores, o FC Porto de Sérgio Conceição optou por também colocar, sempre que possível, três jogadores na pressão: os dois avançados Taremi e Marega, que habitualmente pressionaram Pelé e Aderllan, e o médio ala Luis Díaz, que subia pela esquerda para condicionar Borevkovic.

O posicionamento que o FC Porto adotou perante a saída a três do Rio Ave

O posicionamento que o FC Porto adotou perante a saída a três do Rio Ave

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Uma vez que Miguel Cardoso - que deixou marca na sua última passagem pelo Rio Ave pelas imensas soluções que a equipa apresentava na altura da construção -, ainda só tinha tido dois treinos com a equipa após a sua chegada, dificilmente veríamos os jogadores muito confiantes e confortáveis nesta saída de bola (para tal acontecer, há que haver um misto de qualidade individual com habituação em treino, com dinâmicas coletivas para criar linhas de passe e espaço), pelo que acabaram por optar várias vezes pelo passe longo para o trio da frente, com o próprio guarda-redes Kieszek a solicitar amiúde o avançado Ronan.

A justificação para tal foi a forte pressão, em igualdade numérica (há o guarda-redes para criar superioridade, mas é um acrescento que necessita de muito treino), criada pelo FC Porto, algo que os portistas utilizam frequentemente para, como bem disse Sérgio Conceição, ganhar bolas no meio-campo adversário: neste jogo, foram 29 as bolas perdidas pelo Rio Ave no seu próprio meio-campo, de acordo com dados do Instat.

Mais: de acordo com dados da Goalpoint, a certa altura da época passada era o FC Porto a equipa na Europa com melhor PPDA (passes per defensive action), indicador que mede o número de passes permitidos ao adversário até que haja uma ação defensiva por parte da outra equipa. Esta época, a mesma Goalpoint acrescenta que “mais de metade das acções defensivas do Porto (53%)” acontecem “no terço mais avançado do terreno”, o que confirma o que já tínhamos adiantado: a pressão é uma das mais-valias do FC Porto, particularmente dentro de portas, uma vez que na Champions a conversa é diferente.

Reuters Staff

Ora, assim sendo, podemos dizer, afinal, que Vítor Pereira tem razão? Na verdade, têm ambos. Porque Sérgio Conceição “valoriza muito os aspetos defensivos”, sim, e a pressão faz parte da organização defensiva, mesmo que possamos advogar que uma pressão feita à entrada da área adversária pode até não ser tão defensiva como uma pressão feita apenas à entrada do próprio meio-campo, ou perto da própria área - e as bolas que são conquistadas perto da baliza adversária têm como objetivo acelerar rapidamente para golo.

Mas a valorização dos aspetos defensivos também é isto: nos jogos mais equilibrados, contra adversários de maior valor, preferir adotar um sistema igual ao do adversário, por exemplo, para promover duelos individuais, ou focar a estratégia do jogo em anular o adversário, através da organização defensiva, ao invés de procurar promover mais soluções, em organização ofensiva, coletivas e individuais, para as dificuldades que o adversário coloca através da sua pressão.

No fundo, é tudo uma questão de calcular o risco e o proveito. Há quem prefira assumir menos riscos, mesmo que isso possa baixar o proveito, do que avançar para mais riscos, podendo assim ter mais proveito. Como disse Sérgio Conceição: “É um desporto simples: é marcar e não sofrer”. Isso é, obviamente, o ideal, mas há quem prefira não sofrer primeiro e só depois marcar. Como, aliás, Sérgio Conceição, que disse também que “o não sofrer é tão importante como marcar”. Na verdade, não é, porque sem marcar ninguém ganha jogos, mas, como disse Vítor Pereira, "não há dúvida nenhuma que para se conseguir títulos é preciso defender bem".