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Análise
João Almeida Rosa

João Almeida Rosa

Treinador de futebol

O balanço de uma 1.ª volta própria de 2020: os melhores, as surpresas, as desilusões… e o que esperar daqui em diante

Num ano atípico como 2020, a 1.ª volta desta Liga NOS não desiludiu. Houve grandes surpresas, ainda maiores desilusões, mas muita imprevisibilidade e emoção. O super Sporting CP conseguirá aguentar-se? O Benfica de Jorge Jesus reergue-se ou afunda-se definitivamente? E o campeão FC Porto?

João Almeida Rosa

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A pandemia que se vive há já um ano teve um impacto profundo em toda a sociedade e o futebol não foi exceção: ainda na época passada, a Liga NOS parou, foi retomada e desde então realiza-se sem público. Os calendários da presente temporada foram reajustados e, por isso, é comum a sensação de que estamos numa fase mais adiantada do que efetivamente estamos. Apesar de já em fevereiro, só agora terminou a 1.ª volta do campeonato.

É, portanto, hora para um balanço intermédio daquilo que tem sido a Liga NOS 2020/21.

Começando pelo topo, a liderança do Sporting CP tem tanto de inesperada como de justa. A composição do plantel foi certeira – o belíssimo mercado de verão juntou a ambição e irreverência dos jovens da formação (Nuno Mendes, Tiago Tomás, Gonçalo Inácio, Eduardo Quaresma, Matheus Nunes, Daniel Bragança, além dos um pouco mais experientes Luís Maximiano ou Jovane Cabral) com reforços chegados de uma época de sucesso (Pedro Gonçalves, Nuno Santos, Tabata e João Palhinha em Portugal, Pedro Porro em Espanha) e outros mais experientes (Adán, Feddal, João Mário e Antunes), formando uma mescla que funcionou na perfeição –, mas o papel de Rúben Amorim é central e incontornável.

O técnico mostrou uma convicção incomum nas suas ideias e métodos, não abdicando por um momento do seu modelo e sistema de jogo, e aliou a essa capacidade tática uma liderança impactante que se nota a partir de dentro, pela união do plantel, e de fora, pela forma como tem conseguido unir um clube que parecia irreversivelmente dividido. Aqui e ali houve alguma sorte, a tal estrelinha já admitida pelo próprio treinador, mas o percurso é demasiado bom para que o acaso seja fator de relevo: terminada a 1.ª volta, há 6 pontos de vantagem para o FC Porto, já 11 para o SL Benfica e ainda ninguém venceu os leões. Além de uma Taça da Liga já conquistada.

O Sporting CP trata-se de uma equipa irrepreensível no ataque à profundidade, sendo o melhor exemplo de que uma coisa é apostar num futebol aqui e ali mais direto, outra é bater na frente sem critério como tantas vezes se vê, e a boa coordenação da última linha defensiva é notória. Poderia considerar os leões a surpresa, mas prefiro considerá-los os melhores desta 1.ª volta. A questão é: conseguirão manter-se no topo? Neste momento, considero a equipa de Rúben Amorim favorita na luta pelo título, embora por pouco, porque o FC Porto promete dar luta.

Gualter Fatia

A equipa de Sérgio Conceição, neste momento o maior rival dos verdes e brancos na luta pelo título, tem sido igual a si própria: competitiva, um osso duro de roer para todos os seus adversários, mas pouco criativa quando enfrenta equipas mais recuadas e bem organizadas, como na última partida frente à BSAD. Pela negativa, notaram-se, sobretudo no início do campeonato, algumas dificuldades defensivas que não eram comuns até aqui.

Sempre fortes no momento da pressão à 1.ª fase de construção oposta, os dragões cometeram erros na linha defensiva que vinham sido pouco vistos, talvez pelas muitas mudanças forçadas que houve no setor. Ainda assim, adivinha-se uma luta até final com (pelo menos) o Sporting CP. O próximo jogo, com o SC Braga, será importante para não deixar que a distância se alargue ainda mais.

Já o SL Benfica é, inquestionavelmente, a maior desilusão desta 1.ª volta. A chegada de Jorge Jesus após um sucesso em toda a linha no Flamengo, acompanhada pelo investimento gigante que existiu pela direção encarnada, fez subir as expetativas e o próprio afirmou, à sua imagem, que “a equipa ia jogar o triplo”.

Gualter Fatia

Não só isso não aconteceu como é legítimo sequer questionarmo-nos sobre se a equipa está melhor do que antes. Na Champions, o PAOK de Abel eliminou as águias; na Supertaça foi o FC Porto a bater o SL Benfica e na Taça da Liga a derrota surgiu aos pés do SC Braga. O pior, contudo, é mesmo a situação na Liga NOS, o principal objetivo dos encarnados, que se encontram a 11 pontos de uma equipa que, à partida, parecia incomparavelmente inferior quando comparada ao plantel milionário de Jorge Jesus.

Coletivamente, a equipa é ainda muito limitada no seu ataque posicional, não conseguindo apresentar a qualidade necessária para superar adversários bem organizados. Ainda mais surpreendente é ver que sem bola o SL Benfica é descoordenado, dá espaço entre setores e não mostra capacidade para defender longe da sua baliza – qualidade que Jorge Jesus valoriza e que sempre conseguiu incutir nas suas equipas. Não está completamente posto de parte um cenário em que o título ainda é possível, mas o mais realista parece ser lutar com o SC Braga pelo 3.º lugar que na próxima época garante o acesso ao play-off da Liga dos Campeões.

Com os mesmos pontos das águias está a surpresa desta 1.ª volta: o Paços de Ferreira de Pepa.

MIGUEL A. LOPES

Em 2019/20, os pacenses somaram 39 pontos e ficaram apenas com mais 5 do que o Vitória de Setúbal, que desceu, ou 6 do que o Portimonense, que acabou em posição de descida. Nesta metade de campeonato, os castores já fizeram quase o mesmo número de pontos: 34.

A equipa é muito organizada sem bola, mas não abdica de tentar atacar, contando com a potência de Douglas Tanque e a capacidade de organização de Eustáquio. A estrela, contudo, é mesmo o treinador: Pepa mostra-se acima da média na preparação dos jogos e coerente de partida para partida. Tem o extra de comunicar como poucos.

Longe da luta pela Europa estão o Rio Ave e o Famalicão FC, muitos furos abaixo do que fizeram na época passada, ainda que por motivos diferentes: à medida que os vila condenses parecem ter errado na escolha do técnico (Mário Silva já saiu e Miguel Cardoso tem a tarefa de elevar o nível), os famalicenses deram uma volta de 180 graus ao plantel e a coisa não correu bem – entretanto os reforços de inverno foram muitos e poderão afastar, com Silas no comando, a equipa da luta pela manutenção.

Por outro lado, os principais candidatos a terem de suar até final para se manter nesta Liga NOS são o Farense – que contratou agora Jorge Costa para se salvar –, o Boavista, o Portimonense, o BSAD, o Gil Vicente e mesmo o Marítimo e o Tondela. Deixei fora da lista o Rio Ave e o Famalicão FC que têm equipa e novos treinadores capazes de subir o nível na 2.ª volta.

NurPhoto

Individualmente, o sportinguista Pedro Gonçalves contabiliza o dobro dos golos dos segundos melhores marcadores, ou seja, Seferovic, Taremi, Sérgio Oliveira, Thiago Santana e Rodrigo Pinho, e é o destaque maior da Liga NOS.

Numa posição diferente daquela em que se evidenciou nos famalicenses, tem ajudado com golos, mas não só, assumindo-se na equipa leonina como o substituto de Bruno Fernandes… que parecia impossível de substituir.