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Análise

A estatística não defende o Sporting, mas o Sporting ataca para entrar na história. Como é que isto acontece? Assim

A equipa de Rúben Amorim lidera o campeonato, mas não é a que tem mais bola, faz posses mais prolongadas ou acumula entradas no último terço adversário ou chegadas à área. Com a ajuda do treinador Blessing Lumueno, tentamos explicar os porquês, que têm a ver com a forma como o Sporting quer jogar - e, sobretudo, atacar a última linha dos outros

Diogo Pombo e Carlos Esteves

Octavio Passos/Getty

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Ter a bola é um meio caminho para se chegar a umas quantas lapalissadas, porque se a nossa equipa a tem então o adversário incapaz é de marcar um golo por iniciativa própria, mas ter a bola não é um fim.

Se o fosse, a equipa com mais jogos ganhos e pontos conquistados na Liga NOS seria também a que, entre os quatro primeiros classificados - as equipas com maior qualidade individual -, teria as melhores médias, por jogo, de jogadas feitas na metade do campo do adversário (54,3), de chegadas ao último terço dos outros (40) e de duração de cada posse de bola (14,56 segundos) ou de entradas na área onde está a baliza na qual tem de marcar golos (16,1).

Mas não. O Sporting está à frente de toda a gente no campeonato, porém, ao fim de 21 jornadas e nestes parâmetros, segundo dados da InStat recolhidos pela Tribuna Expresso, fica atrás de FC Porto e Benfica e, em alguns, do Sp. Braga.

A primeira conclusão, mais clara e evidente, é que a equipa de Rúben Amorim tem a eficácia como amiga do peito. É, igualmente, a que tem menos remates tentados e na baliza (dados do site “WhoScored”) do que os rivais que o perseguem mais de perto no campeonato. “O Sporting dificilmente falha oportunidades. Marca muito mais do que a qualidade de situações de remate que tem, ou seja, marca muitas vezes em situações que não era tão expectável marcar”, começa por analisar à Tribuna Expresso Blessing Lumueno, treinador dos juniores do Estoril Praia.

Ter a bola garante, de facto, que os outros nada fazem com ela nos seus pés. Tudo o resto vem depois, através do que a bola realmente é - um meio para a forma de jogar que se escolhe. E ter menos entradas no meio-campo, no último terço e na área dos adversários vem, também, desta escolha.

A do Sporting assenta no sistema com três centrais, dois alas, um par de médios, dois jogadores a partirem como extremos e um avançado (3-4-3) que, no momento ofensivo, faz toda a gente ter muito olho para o espaço que existe nas costas da linha defensiva do adversário. A equipa de Rúben Amorim sacia com essa procura pela profundidade e jogo sim, jogo sim, são notórias as movimentações individuais e coletivas que mostram essa pegada.

É frequente verem-se permutas entre os três jogadores da frente, em que um recua uns metros no campo, baixa a sua posição e outro, ou até os outros dois, partem em desmarcações de rutura para atacar o buraco de espaço deixado pelo defesa que seguiu esse isco de marcação. Mesmo que não morda o engodo, será normal que pelo menos uma coisa seja conseguida: a dúvida.

Criá-la, de modo constante, na linha defensiva do adversário é ao que o Sporting joga. Nessa constância de ataque ao último reduto de jogadores está a prioridade - daí que várias equipas optem, estrategicamente, por montarem um bloco baixo, mais próximo da sua área, para reduzirem o espaço disponível para ser atacado e a ter que ser coberto pela sua linha defensiva.

Gualter Fatia/Getty

Essa vontade faz o Sporting ser uma equipa direta, sem problemas em colocar bolas à distância para explorar o espaço nas costas dos defesas e obrigar os jogadores dessa última linha a ajustarem posicionamentos e apoios dos pés e a virarem a cabeça à procura dos adversários. “O Sporting é passe de profundidade, de rutura, para pôr os seus jogadores a correrem e, consequentemente, os adversários a correrem também, o que faz com que as linhas defensivas fiquem mais carregadas quando jogam contra o Sporting”, explica Blessing Lumueno.

Por norma, a equipa de Rúben Amorim usa muito a bola assim, o que a faz ser uma equipa mais direta do que FC Porto e Benfica, prossegue o treinador. É comum, por exemplo, vermos Gonçalo Inácio (sobretudo ele, nas semanas mais recentes, pelo pé e pela capacidade que tem), Coates ou Feddal a colocarem passes que isolam os três da frente: “É consequência do que o Rúben Amorim quer, que é estar sempre a carregar sobre a linha defensiva do adversário. Tem os timings dos movimentos de ataque à profundidade e do momento para meter a bola perfeitamente identificados, por vários estímulos e caminhos”.

O facto de FC Porto (59) e Benfica (49, o menor número do campeonato), optarem menos por passes longos, em média, do que o Sporting (64), tem a ver com as dinâmicas, em posse, de cada um: os primeiros variam a bola entre os corredores de forma mais curta, sem pularem logo da esquerda para a direita, por exemplo, “vão mais passe a passe”; o último “não tem problemas em saltar linhas e pôr a bola diretamente dos defesas para os avançados”.

Ou seja, contrastam com essa vertigem e o estilo mais vertical do Sporting. Um pouco também como acontece em relação ao Sp. Braga (73), muito apto a “variações diretas” de corredor, embora “mais na diagonal”, lembra Blessing Lumueno, não verbalizando mas intuindo o papel do médio Al Musrati nesta capacidade dos minhotos em retirarem a bola com critério, de forma longa, dos sítios onde estão a ser pressionados.

Gualter Fatia/Getty

Tanto a equipa de Carlos Carvalhal como a de Rúben Amorim têm “jogadores muito bons para aproveitar o tipo de passe longo que mais fazem”.

No Sporting, as projeções de Nuno Santos pela esquerda e os constantes arranques em rutura de Tiago Tomás - e até, por vezes, de Pedro Gonçalves, embora seja mais atraído para jogar entre linhas, perto dos médios - fazem com que “as linhas defensivas dos adversários tenham sempre muitas situações para resolver” e fiquem “mais sobrecarregadas" em comparação com FC Porto e Benfica - quando o fazem, "é para saltar linhas, é normalmente para disputar a bola no ar, para segurar e depois construir a partir da segunda bola".

De entre os quatro da frente do campeonato, o Sporting é a equipa cujas posses de bola, em média, duram menos tempo (14,56 segundos), outro reflexo da forma preferencial com que costuma atacar a baliza dos outros.

Rúben Amorim, após alguns jogos, chegou a referir que faltou à equipa gerir melhor os ritmos dos jogos com bola, especialmente quando o resultado a favorecia. Será uma consequência, resume Blessing Lumueno, de "estar sempre a carregar sobre a última linha adversária", mais do que um problema, pois isso "desgasta os adversários, deixa-os em piores condições, ficam desconfortáveis, menos estáveis e têm de estar sempre em alerta".

Porque, tendo o Sporting a bola, a qualquer momento pode entrar uma bola no espaço.