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Atrás da Cortina

FC Shreriff - Bate Borisov. Aconteceu na distópica Transnístria: homens armados, um hotel luxuoso, um majestoso pombal (por Duarte Gomes)

“Atrás da Cortina” é a nova rubrica de Duarte Gomes, que arranca, este domingo, na Tribuna Expresso. São histórias e experiências de jogos que foram apitados ao longo de uma longa carreira, umas boas, outras nem tanto, mas sempre curiosas. Primeira paragem, Tiraspol, com controlos fronteiriços e coisas assim

Duarte Gomes

Stephen Pond - EMPICS

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Os tempos que vivemos são de exceção. São tempos de mudança e de aprendizagem.

O desafio que temos pela frente (o maior que a nossa geração alguma vez enfrentou) exige uma resposta consciente, responsável e assertiva. Isso só é possível se remarmos todos para o mesmo lado. Se atuarmos como equipa. Como uma equipa que, neste jogo da vida, não tem nem cor nem clube.

A ideia desta rubrica passa um pouco por aí: por reforçar esse sentimento de crença e de otimismo. A ideia passa por recordá-lo(a) que, depois da tempestade, vem sempre a bonança. E vem. Na verdade, vem.

Agora, a história.

Tiraspol. Uma experiência inesquecível

Em 2010, a UEFA nomeou-me para um jogo na Moldávia entre FC Sheriff e Bate Borisov. na fase de grupos da Liga Europa).

O encontro foi disputado em Tiraspol, capital da Transnístria, uma auto-proclamada república socialista independente, mas dentro daquele território nacional. Ou seja, a viagem foi à Moldávia, mas quem jogou "em casa" foi uma equipa que não a reconhece como pátria.

Sabíamos ao que íamos (a burocracia anterior à saída disse quase tudo) e, confesso, não estávamos nada confortáveis. O prazer imenso de mais uma aventura europeia foi substituído, a espaços, pela sensação de falta de segurança que a viagem transmitia.

Éramos experientes, mas nenhum tinha estado em cenário cujo contexto político fosse, digamos, diferenciado.

É engraçado como, em momentos assim, damos por nós a dizer piadas sem piada. A fazer pequenos disparates.

O mais importante, no meio daquilo tudo, foi sentirmos que, caso a coisa complicasse (e nos víssemos, subitamente, no olho de um furacão), não estaríamos sós. Tínhamos a força maior do nosso lado: a presença e apoio uns dos outros. E isso foi suficiente para nos fazer seguir.

A viagem Chisinau/Tiraspol não foi longa, mas foi feita numa carrinha antiga, sem ar condicionado. Sentimos logo ali aquele peso de uma região que ressacava, aos poucos, das mãos da "Mãe" União Soviética.

Cada sinal na estrada, cada zona que passávamos, cada pessoa com quem nos cruzávamos, tinha um ar meio apocalíptico. Pesado. Deprimido.

À medida que nos aproximávamos do posto fronteiriço, víamos mais e mais militares, armados até aos dentes. Parecia que estavam à espera que o nosso jovem motorista fizesse uma asneira qualquer para dispararem a torto e a direito (bom, se calhar não foi nada disso, mas a sensação de insegurança insistia em dizer-nos que sim).

Depois de revistados dos pés à cabeça e da cabeça aos pés - nós, a carrinha e o miúdo que a conduzia - lá nos deixaram passar, mas sempre com aquele ar desconfiado de quem acha que "aqueles quatro rapazitos de fato e gravata, com ar de gozão que os ocidentais têm" estavam ali para enganá-los. Para conspirar contra eles e contra a sua pátria.

Em Tiraspol, nada de visitas turísticas nem passeios sociais. Fomos diretos ao hotel, equipámos e de lá seguimos para o treino. No meio de muitas mensagens ideológicas (propaganda política) espalhadas por praças e avenidas, surgiu no horizonte o Complexo Desportivo do FC Sheriff. Uma infraestrutura imperial, que destoava de tudo o que encontrámos no meio de ruas e mais ruas, empobrecidas e envelhecidas.

O nosso interlocutor, um moldavo local que falava romeno e russo, mas muito pouco de inglês, disse-nos que o clube era o orgulho local. Tinha crescido vertiginosamente fruto do investimento milionário de alguém muito poderoso, que até contratara estrangeiros de qualidade para a equipa. Esses dormiam, comiam e viviam todos lá. Raramente saíam... e ficou, no ar, a ideia que não deviam.

Aquilo era enorme: hotel, piscina, pavilhão, vários campos relvados (um deles, de Futebol de 11, completamente coberto) e um majestoso pombal. Sim, um pombal! Coisas de magnatas com gostos distintos.

O jogo decorreu sem problemas mas, no ar, pairou sempre aquela sensação de: "Isto pode derrapar a qualquer hora". Imaginação fértil? Receio injustificado? Se calhar, sim. Se calhar não. E, se calhar, falou o apelo inconsciente do mais básico instinto do ser humano, num contexto atípico, acinzentado, pouco usual.

A experiência terminou sem grandes sobressaltos, mas foi algo claustrofóbica. Recordou-nos de como é valioso o direito à liberdade e à possibilidade física de o exercer.

Hoje muitos se sentirão assim, como nós nos sentimos em Tiraspol: livres mas pouco. Amedrontados também, sem saber bem o que nos vem a seguir.

A parte boa de tudo isto? A mesma que sentimos lá: a certeza de que não estamos sós. Temos-nos uns aos outros. Temos a força de sermos muitos a lutar contra um inimigo invisível mas nem por isso invencível.

Esse é o seu pior handicap e o nosso maior trunfo. Exatamente o mesmo que nos trouxe a casa sãos e salvos, com a memória distante de uma história para contar.

Nota: O jogo aconteceu em outubro de 2010. O FC Sheriff perdeu (0-1) com o Bate Borisov, acabou a fase de grupos em último. Nessa época, o FC Porto conquistou a Liga Europa, batendo o Braga na final.