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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

O dia em que Duarte Gomes só apitou um jogo durante 20 minutos

Rio Maior, agosto de 2002. Depois de uma longa lesão, Duarte Gomes voltou aos relvados... por 20 minutos. O que se seguiu não foi bonito, mas acabou por valer a pena, recorda o ex-árbitro

Duarte Gomes

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A história que hoje que vos trago, a terceira de dez, transporta-me para um dos momentos mais difíceis da carreira. Mas, como em tudo na vida, há sempre lições positivas a retirar de situações menos boas.

Rio Maior, agosto de 2002.

Tinha acabado uma recuperação interminável a uma cirurgia ao tendão de Aquiles do pé esquerdo. Foram meses e meses de recuperação, com muita fisioterapia, paciência e revolta interior pelo meio.

Quem se lesiona a fazer aquilo que mais gosta, geralmente sente-se assim: impotente. A situação foge-nos das mãos, deixa de depender de nós, escapa à nossa esfera de ação, ao nosso controlo.

Isso é frustrante mas também desafiante, porque testa-nos, coloca-nos à prova, força-nos ao autoconhecimento: percebemos aí que somos bem mais fortes e resilientes do que imaginávamos.

Naquela tarde, porém, era "dia de festa" para mim. Aquele jogo amigável, de Sub-19, marcava o regresso ao ativo depois de muito tempo de paragem forçada.

Como devem imaginar, estava muito feliz.

Andava há poucos anos na 1ª Categoria e tinha aquilo a que chamamos de "fome de bola". Sonhei com aquele momento vezes sem conta.

O jogo - entre a seleção portuguesa e uma outra (lamento, não me recordo qual) -, era o pretexto perfeito para voltar a calçar as botas e sentir, mais uma vez, o cheiro da relva, o som do apito.

Parecia um estagiário a fazer a primeira arbitragem da sua carreira. É incrível como, às vezes, precisamos perder algumas coisas para lhes darmos o devido valor.

Quis, no entanto, o destino que essa felicidade não durasse muito tempo.

Carlos Rodrigues

Decorridos vinte minutos e ao efetuar o sinal indicativo de lançamento lateral (levantei o braço, na diagonal, para a esquerda), senti uma dor forte na zona do peito. Foi algo que nunca tinha sentido antes: apanhava-me o braço esquerdo, as costas, todo o lado esquerdo.

Por momentos, acho que deixei de ver e de raciocinar. Senti medo, temi o pior. Lembro-me de me ter agachado devagarinho e levado o apito à boca. Queria interromper o jogo o quanto antes.

As equipas médicas perceberam e entraram em campo rapidamente.

Houve ali alguma confusão momentânea, devido aos sintomas atípicos: seria coração? Ombro deslocado? Algo diferente?

Certo, certo é que o encontro acabou ali, na hora. Pouco depois de começar. O sonho de meses desvanecia-se em segundos.

Segui para o hospital mais próximo onde fiquei horas a fazer uma bateria de exames. Fiz ecos e Raio-X, análises de sangue, eletrocardiogramas, provas respiratórias, tudo.

Fazia, repetia e voltava para a maca, à espera de notícias, mas ninguém tinha notícias para dar.

Nessa altura, as dores estavam num ponto quase insuportável. O braço ficou dormente, parecia que dava descargas elétricas. Confesso-vos, estava mesmo preocupado. Doía tudo e não havia medicação que travasse aqueles sintomas.

Sentia dificuldade crescente em respirar e, pior, percebia que os médicos estavam baralhados, sem forma de me ajudar.

Fui para Lisboa e, já noutro hospital (e a altas horas da madrugada), alguém finalmente decidiu reencaminhar-me para o Serviço de Neurologia.

Os exames à cervical, realizados apenas no dia seguinte, confirmaram o diagnóstico entretanto avançado: tinha um "disco completamente esfrangalhado" (citação do especialista). Hérnia discal com indicação de cirurgia imediata.

E assim foi.

Perante as evidências depois confirmadas em RM, o meu amigo (Dr) Manuel Passarinho meteu mãos à obra e tratou-me da coisa, com a qualidade, competência e profissionalismo que todos lhe reconhecem.

Foram muitos e muitos meses de paragem, a somar aos anteriores.

Pelo menos, tive o gostinho de arbitrar um jogo de futebol, ainda que durante... vinte minutos. Podia ser pior. Pode sempre ser pior, ainda que na altura nunca pareça.

Ao longo da carreira, acabei por ser operado quatro vezes. Pelo meio, tive lesões menores, que me obrigaram a paragens, umas mais longas, outras de apenas meia dúzia de dias.

Sabem o que vos digo? Valeu a pena!

Valeu a pena cada segundo, cada minuto, cada hora. O preço foi pequeno quando comparado com a possibilidade de fazer o que mais gostava, vezes sem conta.

A vida exige sacrifícios para depois oferecer grandes benefícios. Faz parte.

Da nossa parte, o importante é perceber que, depois do cabo das Tormentas, vem sempre, sempre o paraíso que desejávamos.