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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Antes de apitar o jogo que decidiu o título, Duarte Gomes estava no banco, a trabalhar. Saiu mais cedo para fazer 300 km e ir ter ao estádio

No dia 18 de maio de 2001, Duarte Gomes foi apitar o Boavista-Aves. Mas o dia não correu de feição: teve de ir trabalhar, sair mais cedo e fazer a viagem de Lisboa para o Porto de carro, já em cima da hora: "Não jantámos, não descansámos, não tivemos tempo para conversar, para preparar o nosso trabalho. Alias, não houve tempo para nada. Apenas para chegar, cumprimentar, equipar, aquecer e começar"

Duarte Gomes

Matthew Ashton - EMPICS

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Fui o árbitro do jogo que definiu o Boavista campeão. A partida com o D. Aves, disputada no antigo Estádio do Bessa, teve direito a casa cheia. Naturalmente.

Porto, 18 de Maio de 2001.

Soube da nomeação dois dias antes. Como compreendem, fiquei feliz. Ficámos todos. Tal como qualquer jogador ou treinador, também os árbitros gostam de fazer parte de momentos que podem ser especiais: clássicos e dérbis, jogos de promoção e despromoção, play-offs, apuramento de campeão, finais... são sempre especiais.

Naquele dia, o Boavista precisava de vencer o D. Aves para fazer história.

Apesar de grandes melhorias nas suas condições de trabalho, na altura os árbitros ainda não trabalhavam em regime de (quase) exclusividade.

Todos tinham outras atividades profissionais. Por isso, a gestão de treinos, de estágios e até de jogos era uma valente dor de cabeça. Quem trabalhava por conta própria, conseguia gerir a situação com relativa facilidade; quem tinha "patrão na loja" precisava de apelar ao seu bom senso e compreensão ou, simplesmente, queimar dias de férias. As trocas com colegas, essas, eram uma constante também.

Nessa altura, ainda era empregado bancário. Apesar da compreensão que sempre tive dos meus diretores e companheiros de trabalho, essa gestão foi sempre um autêntico pesadelo.

Naquela sexta-feira, dia de jogo, consegui sair mais cedo. Sim, sair... mais cedo.

Enquanto jogadores e técnicos estagiavam num hotel - preparando o jogo com a maior tranquilidade e profissionalismo - nós, equipa de arbitragem, estávamos longe e a começar mais um (longo) dia de trabalho.

Estes "pormenores" afetam e muito o "rendimento desportivo" de qualquer atleta. No caso dos árbitros, todo aquele stress, aquela angústia para cumprir dos dois lados, aquela correria doida, condiciona claramente a concentração, a serenidade e a vontade.

Organizámo-nos e conseguimos sair de Lisboa por volta das 15h30. Estávamos a 310kms do estádio onde, horas mais tarde, poderia decidir-se o novo campeão nacional.

Confesso, pedimos a todos os santinhos para que estivessem do nosso lado: não nos podíamos dar ao luxo de ter um furo no pneu ou de apanhar um qualquer acidente na estrada.

Até à entrada no Porto, tudo correu bem. Sem atrasos, sem imprevistos, sem perdas de tempo. À entrada para a Ponte da Arrábida, o trânsito tramou-nos. Era expectável. Fim do dia, fim de semana, jogo importante.

Faltavam duas horas para o início do encontro. Nesse momento comecei a ceder. O suor escorria pela cara abaixo. Tentei manter-me calmo e sorridente. Queria ser, para os meus colegas, o exemplo da serenidade e tranquilidade, mas não era.

Depois de uma chamadas in extremis, conseguimos o apoio de alguns batedores da PSP.

Chegámos ao Bessa a tempo, mas não com o tempo que desejávamos. Não com o estado de espírito que queríamos e merecíamos. Não jantámos, não descansámos, não tivemos tempo para conversar, para preparar o nosso trabalho. Alias, não houve tempo para nada. Apenas para chegar, cumprimentar, equipar, aquecer e começar.

Whelliton marcou um dos golos do Boavista frente ao Aves (3-0), a 18 de maio de 2001

Whelliton marcou um dos golos do Boavista frente ao Aves (3-0), a 18 de maio de 2001

Getty Images

Estávamos tristes, ansiosos, irritadiços.

Ligámos o "modo jogo" dentro do possível. O ambiente estava fantástico, as pessoas felizes e expectantes, o espírito puxava à superação.

Mal apitei para o início, comecei a sentir os reflexos da impreparação e da falta de descanso. Estava pouco concentrado, demasiado inerte e reativo, como se estivesse numa realidade paralela. Esforcei-me para elevar a energia positiva ao máximo, mas não foi fácil. Errei inúmeras vezes. Errei que me fartei.

O Boavista venceu e venceu bem, mas um dos golos que marcou não devia ter valido. Não vi, ninguém viu em campo, aquela mão marota que empurrou a bola para o fundo da baliza do D. Aves.

No fim do jogo, havia muita euforia e gente feliz, mas eu estava infeliz. Estávamos todos. A profissão em si já é difícil e sujeita ao erro, mas naquelas condições os equívocos são maiores.

Foi pena. O jogo tinha tudo para ser uma excelente memória, mas não foi.

De então para cá e no que diz respeito ao profissionalismo na arbitragem, muito mudou e melhorou. Felizmente.