TSDT ou a arte de brilhar atrás da cortina: uma homenagem a um leque de homens e mulheres de exceção que não têm o reconhecimento devido
TSDT são os Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica, a quem Duarte Gomes aproveita para agradecer por estarem na linha da frente a combater a covid-19
24.03.2020 às 16h15
Christopher Furlong
Partilhar
TSDT ou a arte de brilhar atrás da cortina.
Hoje não vou escrever sobre futebol nem contar-vos histórias mirabolantes dos meus tempos de árbitro. Tudo isso tem importância, mas cabe dentro das coisas menos importantes.
Hoje quero falar-vos sobre um assunto relacionado com o vírus que tanto nos perturba. O mesmo que, por estes dias, mudou o nosso quotidiano e posicionamento perante a vida.
Quero apresentar-vos um leque de homens e mulheres de exceção. Um conjunto alargado de profissionais valiosos, que não têm o reconhecimento que deviam e mereciam.
Refiro-me aos Técnicos Superiores de Diagnóstico e Terapêutica.
Os TSDT, como agora são conhecidos, fazem parte de uma carreira que agrega dezessete profissões relacionadas com a nossa saúde, com a área médica.
Mas já lá vamos.
Como sabem, por estes dias, vivemos uma nova realidade. Uma realidade que desconhecíamos e que, garantidamente, não prevíamos. Uma que nos deixa abatidos, receosos e vulneráveis.
A sensação que dá é que nos perdemos no tempo e no espaço. Assim, do nada. De repente.
Fomos surpreendidos por uma variável que não controlamos, por uma força maior que nos obriga a pensar fora da caixa, que nos obriga a priorizar. A priorizar o que é mais estruturante e impactante nas nossas vidas: a vida em si.
No meio deste turbilhão de emoções, mora uma verdade absoluta: a de que cada um de nós valoriza agora e mais do que nunca, o esforço, compromisso e dedicação de todos os "profissionais de saúde".
Quando pensamos neles - nesses novos super-heróis da atualidade - vêm-nos à cabeça médicos(as) e enfermeiros(as).
Fazemo-lo, quase instintivamente, por sabermos que são esses que estão na linha da frente deste combate injusto. Fazemo-lo quase convencidos que começa e termina neles todo o apoio e ajuda que precisamos para salvar o mais precioso dos bens: o da vida.
Essa presunção, justíssima e merecida, é verdadeira mas não totalmente verdadeira.
Não há a mínima dúvida que a nossa dívida de gratidão para com eles jamais será paga, mas a verdade é que - para além, atrás ou ao lado de cada um deles -, há outros profissionais de coração enorme que, de forma direta ou indireta, têm idêntico valor. Também se sacrificam, também se expõem e também correm riscos para o mesmíssimo fim.
Estou a falar dos tais TSDT, nomeadamente dos Técnicos de Análises Clínicas e de Saúde Pública e dos Técnicos de Anatomia Patológica, Citológica e Tanatológica, que se expõem agora a esta pandemia, realizando, a toda a hora, rastreios e diagnósticos laboratoriais; estou a falar dos Técnicos de Radiologia, responsáveis pela realização de milhares de exames (RX e CT, entre outros) que contribuem para o diagnóstico e avaliação da extensão da doença; estou a falar dos Técnicos de Saúde Ambiental, que atuam ao nível epidemiológico, sendo responsáveis pela elaboração de planos de limpeza, desinfeção e descontaminação dos espaços utilizados; estou também a falar dos "Fisioterapeutas", em particular daqueles que, nesta fase, estão adstritos aos Cuidados Intensivos, onde têm a responsabilidade de otimizar a oxigenação e ventilação de doentes com Covid-19.
Estas são funções fundamentais no nosso sistema de saúde e essenciais no ataque cerrado a este novo coronavírus.
Funções ocupadas por pessoas credenciadas e de alma pura, que trabalham horas a fio para garantir a melhor resposta a quem esteja (potencialmente) infetado.
Convém recordar que, para além desses, há outros TSDTs, profissionais de mão cheia, que continuam a trabalhar, a assegurar o tratamento de pacientes com patologias distintas, que precisam de exames, tratamentos e cuidados médicos. É o caso dos Técnicos de Medicina Nuclear e dos de Neurofisiologia de Farmácia e também dos de Prótese Dentária, de Cardiopneumologia e de Radioterapia. É ainda o caso dos Ortoptistas, Terapeutas da Fala, Terapeutas Ocupacionais e Audiologistas, entre outros.
Aos olhos de grande parte da imprensa, esses não são os "Bravos do Pelotão", mas acreditem... também o são.
Não há piloto que vença sem um mecânico de topo na retaguarda. Não há médico que brilhe sem uma equipa fantástica que lhe proporcione, com a mesma entrega e riscos, tudo o que ele precisa para fazer bem o seu trabalho.
Uma vida é sempre salva por muitas vidas.
Da minha parte, é muito simples: um abraço enorme a esses grandes profissionais, que tão bem trabalham na sombra para que a luz chegue a cada um de nós.
Chapeau.
Relacionados
-
Os jogos em que Duarte Gomes levou boladas na cara e carrinhos que o viraram ao contrário
Vida de árbitro não é nada fácil, como conta Duarte Gomes, nem mesmo quando tudo parece tranquilo em campo... De repente, uma bolada ou um tackle mal medido podem provocar mazelas. Esta é mais uma história (na verdade, são três mini histórias) da rubrica "Atrás da Cortina", com episódios sobre os bastidores da arbitragem
-
O dérbi que mudou a vida de Duarte Gomes: o meu carro ficou sem pneus, com portas e capô riscados. Fui cuspido várias vezes na rua
A 15 de dezembro de 2001, o ex-árbitro Duarte Gomes apitou um Benfica-Sporting que iria atormentá-lo nos meses seguintes: "Todos queriam bater-me"
-
O amigável mais oficial que Duarte Gomes arbitrou: a inauguração do novo Estádio de Alvalade, quando um jovem chamado Ronaldo partiu tudo
O ex-árbitro Duarte Gomes recorda a noite de 6 de agosto de 2003: Sporting-Manchester United, jogo de inauguração do novo Estádio de Alvalade, quando Cristiano Ronaldo se apresentou ao mundo
-
Antes de apitar o jogo que decidiu o título, Duarte Gomes estava no banco, a trabalhar. Saiu mais cedo para fazer 300 km e ir ter ao estádio
No dia 18 de maio de 2001, Duarte Gomes foi apitar o Boavista-Aves. Mas o dia não correu de feição: teve de ir trabalhar, sair mais cedo e fazer a viagem de Lisboa para o Porto de carro, já em cima da hora: "Não jantámos, não descansámos, não tivemos tempo para conversar, para preparar o nosso trabalho. Alias, não houve tempo para nada. Apenas para chegar, cumprimentar, equipar, aquecer e começar"
-
O dia em que Duarte Gomes só apitou um jogo durante 20 minutos
Rio Maior, agosto de 2002. Depois de uma longa lesão, Duarte Gomes voltou aos relvados... por 20 minutos. O que se seguiu não foi bonito, mas acabou por valer a pena, recorda o ex-árbitro
-
Lumiar, setembro de 1993: o dia em que Duarte Gomes levou um soco em cheio no nariz
Hoje a viagem no tempo foi maior. A carreira foi longa e muitas das aventuras que vivi não aconteceram apenas no futebol profissional. A que agora vos trago, bem recuada no tempo, é disso prova cabal. “Atrás da Cortina” é a nova rubrica de Duarte Gomes, na Tribuna Expresso. São histórias e experiências de jogos que foram apitados ao longo de uma longa carreira, umas boas, outras nem tanto, mas sempre curiosas. Segunda paragem: Lumiar, setembro de 1993
-
FC Shreriff - Bate Borisov. Aconteceu na distópica Transnístria: homens armados, um hotel luxuoso, um majestoso pombal (por Duarte Gomes)
“Atrás da Cortina” é a nova rubrica de Duarte Gomes, que arranca, este domingo, na Tribuna Expresso. São histórias e experiências de jogos que foram apitados ao longo de uma longa carreira, umas boas, outras nem tanto, mas sempre curiosas. Primeira paragem, Tiraspol, com controlos fronteiriços e coisas assim