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Atrás da Cortina

O dia em que Duarte Gomes deixou de ser o árbitro internacional de Lisboa e passou a ser, apenas, o lampião

O "Atrás da Cortina" desta segunda-feira conta-nos um episódio que transformou a carreira do cronista, quando respondeu honestamente a um miúdo que lhe perguntou qual era, afinal, o seu clube

Duarte Gomes

David Davies - PA Images

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Quando comecei a minha carreira, tinha dezoito anos.

Penso não estar a dizer nenhum disparate ao afirmar que qualquer jovem dessa idade tem opinião formada sobre o mundo que o rodeia.

Aos dezoito (ou até antes disso), todos sabemos perfeitamente se gostamos mais de carne ou de peixe, de letras ou de ciências, de preto ou de branco.

Aos dezoito (ou até antes disso), todos sabemos se somos crentes ou ateus, racionais ou emocionais, introvertidos ou extrovertidos.

E aos dezoito (ou até antes disso), também sabemos de que clube gostamos. Com que equipa nos identificamos. Qual a nossa simpatia clubística.

Essa máxima aplica-se a (quase) todas as pessoas que gostam de futebol. Diz-se, aliás, que 95% dos portugueses são adeptos de um dos "três clubes grandes".

Se repararem bem, esta coisa das preferências pessoais, que geralmente herdamos por influência familiar ou pelo contexto em que estamos inseridos, é abrangente. Estende-se a quase todas as áreas de atividade.

Veja-se o caso do poder político, por exemplo:

- O nosso Primeiro Ministro é líder de um partido político, mas neste momento é o Chefe do Governo de todos os portugueses.

- O Presidente da República tem "cor política" assumida, mas é hoje o representante máximo de todo o país.

Alguém ousaria pensar que estes dois homens exercem a sua função com o objetivo direcionado de beneficiar apenas simpatizantes do PS ou do PSD?

As pessoas sérias, que por princípio são todas, nunca permitem que as suas preferências pessoais afetem a sua ética profissional. Nunca permitem que os seus gostos privados condicionem as suas opções laborais.

Aquilo que gostam não define nem belisca aquilo que fazem. É tão simples quanto isso.

Se levarmos esta lógica, de integridade e honestidade, para o futebol, a conclusão é exatamente a mesma:
- A maioria dos jogadores que alinham num clube já jogaram contra o clube do seu coração; vários treinadores já dirigiram equipas contra aquela do qual são adeptos e sócios; alguns dirigentes desportivos já trabalharam noutras equipas. Em muitas que não aquela do qual são "torcedores".

Alguém achará mesmo que qualquer um deles não faz o seu melhor, em nome do emblema que representa? Passará pela cabeça de alguém que eles tentem perder de propósito ou, digamos, facilitar só um bocadinho?

Repito. É preciso que todos partamos, até prova em contrário, do mesmo princípio: as pessoas são honestas.

Enquanto árbitro, por exemplo, sempre assumi a minha preferência clubista. Não publicamente, por não ser relevante, mas entre colegas e amigos, vizinhos e familiares. Enquanto homem, enquanto pessoa, não sou diferente, em nada, de qualquer atleta, técnico ou dirigente. Não sou diferente, em nada, de si.

Em Outubro de 2012, participei no Encontro Nacional de Jovens Árbitros, em Mira. Entre várias questões que os miúdos colocaram-me, uma era exatamente essa: "Qual é o seu clube?".

A primeira resposta foi óbvia: "Sou do clube dos árbitros. Adepto da arbitragem". Mas, perante a insistência do rapazito, fui sincero, disse a verdade. Obviamente.

Um jornalista presente na sala tratou de colocar a notícia cá fora e, em poucos minutos, toda a gente sabia qual o clube da simpatia do Duarte Gomes.

De um momento para outro, vinte anos de carreira, quinze de I Liga e dez como árbitro internacional, passaram a segundo plano. O juiz lisboeta passou a ter um carimbo diferente: passou a ser um árbitro lampião.

Muitos dos que o sublinharam e ainda o usam como arma de arremesso (mas só quando dá jeito), são exatamente os mesmos que cumprem funções num determinado clube, sendo adeptos assumidos de outro.

É... engraçado.

A conclusão a que cheguei há muito é clara: nesta matéria, a maioria das pessoas prefere ser enganada.

Há quem lide melhor com a mentira e hipocrisia do que com a sinceridade e verdade. Há quem não tenha assimilado ainda que as pessoas podem ser íntegras no que fazem, sem se influenciar pelo que quer que seja. Por quem quer que seja.

Esses passam a vida a torcer o nariz e a inventar teorias de conspiração, ou porque lhes dá jeito ou porque, na verdade, veem todos os outros à sua imagem.

Estamos a anos-luz do arejamento mental que se quer e deseja, mas o caminho é só um: dar a cara, dormir descansado e deixar para os outros os filmes que quiserem protagonizar, produzir e realizar.

NOTA - Pode ser que este período difícil ajude muitas dessas pessoas a evoluir e a priorizar. Temos muito para crescer, em termos de cultura desportiva, educação e confiança uns nos outros. Este é o momento certo.