Tribuna Expresso

Perfil

Atrás da Cortina

Galatasaray - Juventus: Um jogo da Champions dividido em dois dias, com neve e Pedro Proença e Duarte Gomes pelo meio

A minha proposta de hoje é que viagem comigo até Instambul, Turquia. O jogo que vos quero falar já aconteceu há uns anos, mas as suas memórias permanecem bem vivas. É sempre assim, quando algo de especial acontece. E algo de especial aconteceu

Duarte Gomes

BULENT KILIC

Partilhar

Istambul, 10 de Dezembro de 2013

A equipa de arbitragem era liderada pelo Pedro Proença. Eu e o Jorge Sousa fomos designados, como habitualmente, para seus Árbitros Assistentes Adicionais (vulgo árbitros de baliza).

O jogo era do mais empolgante que podia haver: um sempre apetecível Galatasaray - Juventus, a contar para a última jornada da Fase de Grupos da Champions League.

A capital turca - cidade única e de encantos mil, que só pode amar quem por lá passou - pode ser um verdadeiro forno no verão, como um autêntico congelador no inverno.

A viagem até Istambul foi longa, mas correu bem. À chegada, muito, muito frio e o habitual trânsito do aeroporto até ao hotel onde ficámos hospedados, no centro da cidade. Foram quase duas horas na estrada, depois de tantas outras entre aeroportos e voos.

Mal tivemos tempo para fazer o check-in. Fomos fazer o habitual treino de "descompressão" no estádio, o famoso Ali Sami Yen Spor Kompleksi.

Quando viajávamos, a temperatura do local de destino era sempre um fator a ter em conta. Pesava na preparação das malas, na escolha da indumentária e na seleção dos equipamentos de jogo. Pesava também naquilo que comíamos e bebíamos e na forma como antecipávamos os diferentes cenários: um terreno pesado e escorregadio exige um futebol mais direto, com passes longos, geralmente feitos pelo ar. Há, por isso, mais infrações cometidas com mãos e braços (cargas, empurrões, agarrões e cotoveladas) e, no solo, aumenta a possibilidade de existirem entradas mais duras, porque... "o terreno estava escorregadio".

Todo o cuidado é pouco, por isso "don't be lucky, be ready".

No dia do grande jogo, a previsão meteorológica era assustadora (temperaturas negativas, vento forte e queda de neve), mas a coisa aguentou-se relativamente bem até ao início da partida.

O estádio estava tão perfeito como o imaginávamos: casa cheia, bancadas coloridas, cânticos fervorosos (os turcos são um caso à parte, é mesmo verdade), alegria, música, enfim... estava tudo lá, prontinho para um espetáculo grandioso em campo.

Para compor a festa, nem faltaram no relvado atores de nível superior, que todos conhecemos e reconhecemos. Um espetáculo!

A primeira meia hora correu bem. Um frio de rachar (e como sofrem os "árbitro de baliza" nesses momentos), mas nada que afetasse a concentração da equipa, mais do que habituada àquele tipo de cenários.

E, de repente, do nada... eis que surgiu a neve.

Primeiro miudinha, ao de leve, quase impercetível. Depois em pequenos flocos brancos, simpáticos, ternurentos, que contrastavam com a dureza e rispidez de cada entrada à bola, a que turcos e italianos nos habituaram.

Um, dois minutos mais tarde, o nevão. O nevão a sério, forte e feio, daqueles que muda tudo num ápice.

O relvado, até então verde, ficou totalmente impraticável. A bola, que entretanto já era vermelha, deixou de rolar no solo, porque o solo não permitia que nada rolasse. Os pés de jogadores e árbitros enterravam no manto branco.

O Pedro foi obrigado a interromper a partida e mandar toda a gente para os balneários. Durante algum tempo, foram várias as tentativas de limpeza do terreno e de reforço das linhas, mas o mau tempo não deu tréguas. Tinha vindo para ficar e ficou.

Para as equipas e para a organização (UEFA), o adiamento de um jogo daquela dimensão é um enorme constrangimento, mas naquele caso não parecia restar outra alternativa.

Depois de muitas tentativas falhadas e incapazes de contrariar a mão poderosa da natureza, a conclusão a que todos chegaram foi inevitável: suspender o jogo em definitivo.

Voltámos ao balneário, tomámos um duche bem quente, comemos qualquer coisa e regressámos aos nossos quartos no hotel, cientes que nada de diferente podia ser feito.

O encontro acabou por ser concluído no dia seguinte, com um estádio de bancadas fria e bem mais despidas.

O relvado estava desgastado, como se tivesse sido varrido por um ciclone. Parecia, na verdade, um terreno baldio, com mau cheiro, superfície duríssima e repleta de falhas. Jogaram-se os minutos em falta nas condições possíveis. O Galatasaray marcou, acabando por vencer a partida por 1-0.

Um encontro da Champions League dividido em duas parte, em dois dias, com neve pelo meio. Essa nunca me tinha acontecido.

Congelámos, aquecemos, recuperámos, terminámos e voltámos para casa, para junto dos nossos. Há experiências fantásticas, mas nenhuma supera a de regressar ao conforto do quem amamos.