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O futebol português é um jogo para adultos jogado por crianças

Já vão perceber porque é Bonucci a ilustrar este artigo. É sobre comportamentos e perceções

Pedro Candeias

Bonucci (defesa/Itália)

Marco Luzzani

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Bonucci saiu da Juventus porque queria legitimamente experimentar outras coisas na vida. Disse que estava desmotivado e disse sobretudo que a relação com Massimo Allegri tinha arrefecido e já não se sentia tão importante assim no clube; enfim, coisas inofensivas que se dizem quando se quer sair a bem, deixando avisadamente a porta entreaberta não vá a ideia borregar.

E Bonucci seguiu para o AC Milan.

Reparem: Bonucci deixou a Juventus e não foi, por exemplo, para o estrangeiro. Foi para o AC Milan onde até fizeram dele capitão e símbolo do AC Milan que - o plano era esse - iria voltar a ser o AC Milan que nós aprendemos a gostar nos anos 90 e também durante um par de anos neste século. A Juventus e AC Milan são os dois maiores clubes de Itália e por isso rivais jurados, como cá são Benfica, FC Porto e Sporting; apesar de tudo, esta troca aconteceu no ano passado.

Um ano depois, o que aconteceu? Como previsto, o plano do AC Milan fracassou, Bonucci não se deu bem, quis voltar para Juventus, voltou para a Juventus e disse algo espantoso no regresso: “Turim e a Juventus são a minha casa”.

[Bonucci nasceu a 65 quilómetros de Roma, jogou no Inter (2005 a 2009) e no Bari (2009-10); esteve em Turim entre 2010 e 2017.]

Bom, mas o caso Bonucci tem mais que se lhe diga, pois implica Higuaín e Caldara, que fizeram o caminho inverso num acordo que, detalhado, é mais ou menos isto: Higuaín está emprestado por 18 milhões de euros e o Milan tem opção de compra por 36 milhões de euros; Caldara está vendido por 35 milhões de euros a pagar em dois anos e Bonucci saiu por 35 milhões de euros que também serão saldados em dois anos.

Este era um negócio que podia ter falhado espetacularmente: três jogadores, vários contratos e duas empresas ideologicamente tão diferentes como Dom Quixote de Jay Gatsby são variáveis suficientes para afundar um tratado de paz. Mas acabou tudo bem.

Os clubes falaram, os jogadores falaram, os treinadores falaram, os jornalistas falaram; toda a gente falou, alto e às claras, e ninguém desfraldou a bandeira populista da traição ou da teoria da conspiração que agiliza os nós dos dedos de heróis das redes sociais.

Foi limpo e foi adulto.

Agora, imaginem que Luisão, num daqueles achaques que lhe foram dando no verão, tivesse decidido sair para o FC Porto que pagaria caro a sua transferência e o seu ordenado, e lhe punha em cima disto a braçadeira de capitão e outras garantias (progressão salarial por defeito, bifes Kobe a granel para churrasco, sei lá que mais). E, agora, imaginem que um ano depois Luisão voltava para a Luz porque, afinal, o FC Porto não era bem aquilo que ele estava à espera, lar-doce-lar, não é verdade que não se volta à casa onde se foi feliz, etcetera.

Impossível.

Porque aqui os presidentes dos grandes desprezam-se publicamente, quando não se insultam, e isso tem um efeito de contágio corrosivo e perverso. Porque aqui promovem-se cláusulas estúpidas, ilusórias e, provavelmente, ilegais, como não ir para um clube rival ou não se falar de um clube de onde se é corrido. Porque aqui os adeptos que trocam de emprego e de empresas levam a peito quando o jogador X muda de cor, o que é isso, podes trocar de tudo menos de clube, és um ingrato e – esta é a minha preferida – nós é que te fizemos, sem nós eras nada. Porque aqui somos invejosos e inseguros e ficamos a pensar:

– Terei feito a melhor escolha? E se o gajo for melhor lá e nós ficarmos piores cá? O que é que a malta vai dizer?

O futebol português é um jogo adulto jogado por crianças.