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Vamos mostrar a tua cara e morres

Foi o que fizeram pessoas apanhadas no meio de um escândalo maciço do futebol no Gana ao jornalista responsável pela história

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No ano passado, um documentário intitulado "Número 12: Quando a Ganância e a Corrupção se Tornam a Norma", sobre corrupção no mundo do futebol no Gana, mostrou dezenas de árbitros e funcionários a receber dinheiro para viciar jogos. O impacto foi imediato, levando à demissão do presidente da associação de futebol nacional, Kwesi Nyantakyi, a quem a FIFA baniu do futebol para toda a vida, e ainda à extinção da própria associação nacional por decisão do presidente do país, Nana Akufo-Addo.

Na altura, vários dos intervenientes apanhados criticaram os métodos utilizados na investigação. O grupo que realizou o documentário, Tiger Eye P.I, é conhecido pela utilização de filmagens ocultas e - dizem as suas vítimas - de armadilhas ilegítimas. Nyantakyi foi atraído ao Dubai para ter uma conversa com um homem que dizia estar interessado em investir no Gana e que lhe entregou dezenas de milhares de dólares para ele ajudar a facilitar os seus negócios.

Na sequência do escândalo, um deputado e homem de negócios chamado Kenneth Agyapong (de quem se diz ser o primeiro ganês a ter um Rolls Royce de oito milhões de cedi, ou 1.347.569 euros) utilizou um canal de televisão que lhe pertence para revelar a identidade do principal jornalista envolvido na investigação: Ahmed Hussein-Suale, um homem de 31 anos.

Mostrando o rosto ampliado do jornalista, dirigiu-lhe invetivas e apelou ao público que "se ele aparecer, batam-lhe". Acrescentou que "alguém devia lidar com ele", oferecendo-se para pagar a quem o fizesse.

Na altura, Hussein-Suale foi aconselhado a afastar-se de Accra por motivos de segurança e ele assim fez durante algum tempo. Mas acabou por regressar a Madina, o subúrbio da capital onde vivia com a sua família. Achava que estava mais seguro entre eles.

Ele sabia que, para pessoas como ele, não haveria segurança absoluta em lado nenhum. "Desde que a minha imagem foi publicada e o público foi incitado contra mim, muita gente tentou atacar-me", explicava. "Esses criminosos são pessoas associadas com os poderosos do Gana e podem fazer tudo o que quiserem sem consequências".

A 16 de janeiro, ele ia visitar um sobrinho. Estava ao volante do seu carro, próximo de casa, quando dois homens em motocicletas se aproximaram. Deram-lhe um primeiro tiro no pesçoco. O carro foi contra um loja, e um dos homens disparou-lhe mais duas vezes no peito. Segundo a descrição da BBC, a seguir virou-se para a multidão e sorriu, ponto um dedo nos lábios.

Organizações de jornalistas protestaram

Não é o tipo de evento que normalmente se espera no Gana, um país pacífico da África Ocidental que ocupa o lugar 23 num 'ranking' internacional de liberdade de imprensa. O crime emocionou o país e gerou protestos por parte de organizações de jornalistas em todo o mundo, tornando-se um dos casos relativamente raros (o assassinato de Jamal Khashoggi na Turquia foi outro) em que esse tipo de evento indigna o mundo.

Enquanto o presidente Akufo-Addo afirmava que tudo se ia fazer para descobrir rapidamente os criminosos, perguntaram a Agyapong se se arrependia de ter mostrado Hussein-Suale na televisão e incitado a que o atacassem. Ele respondeu que não, pois o que o grupo dele fazia era maligno. Não é a primeira vez que se diz isso da Tiger Eye.

Em 2015, quando o grupo mostrou dezenas de juízes e funcionários judiciais a receber subornos, houve advogados a deplorar que os criminosos fossem punidos mas não quem os tinha provocado a cometer o crime. Essa história era de Hussein-Suale, tal como outras que lidaram com temas tão ou mais polémicos: feiticeiros envenenadores de crianças, traficantes de orgãos humanos...

O homem de quem Hussein-Suale era o braço direito, o líder da Tiger Eye, é uma figura já lendária do jornalismo africano: Anas Aremeyaw Anas, um homem que andará na casa dos quarenta e tem no seu cadastro investigações sobre temas que envolvem corrupção e exploração do Estado ou de pessoas especialmente vulneráveis, e feitas sob os mais variados disfarces, incluindo o de mulher.

O rosto e a reputação

O rosto de Anas permanece desconhecido de grande parte do mundo (e no seu próprio país), mas não a sua reputação. Num editorial publicado esta sexta-feira no diário americano "The Washington Post", o jornalista conta: "À medida que se aproximava a data de publicar o que descobrimos, Nyantakyi e os seus aliados lançaram uma campanha viciosa de intimidação. Nyatakyi telefonou a Ahmed e ameaçou: se fizeres isto a gente como nós, podes facilmente perder a tua vida".

"Foram tomadas precauções sérias, mas sete meses depois Ahmed foi morto. Pelo mundo fora, jornalistas são mortos e perseguidos. A maioria desaparece anonimamente. Só alguns casos se tornam notórios, como o assassinato e desmembramento de Jamal Khashoggi, (colunista) do próprio Post". A seguir nota como é importante o papel da América na defesa da liberdade de imprensa, e como esse papel está atualmente posto em causa ao mais alto nível.

Anas lembra como rejeitou os serviços do jovem estudante de ciência política que um dia o tinha abordado, depois de ele falhar na primeira oportunidade que lhe deu. Hussein-Suale enviou-lhe uma carta a pedir uma segunda oportunidade e acabou por recebê-la. Desde esse dia foi brilhante em todas as investigações, garante Anas.

Nesta sexta-feira, Hussein-Suale foi homenageado no centro internacional de imprensa no Gana. Seis homens entretanto detidos por suspeita de terem tido um papel na sua morte foram libertados sob fiança. O mistério permanece.