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“Sou crente em Jesus, porque sou cristão, mas sou um total descrente em Jorge Jesus”

Numa longa entrevista à TVI, Bruno de Carvalho teve tempo para falar de quase tudo. Disse que Jorge Jesus lhe exigiu a renovação do contrato quinze minutos antes de um jogo importante na corrida ao título, que só muito depois teve noção da dimensão do ataque à academia de Alcochete e que errou na declaração que fez depois do ataque

Expresso

Pedro Nunes

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Bruno de Carvalho, ex-presidente do Sporting com 450 títulos menos o principal campeonato de futebol, vítima de chantagem, homem que não é de ferro e alguém que equipara o fazer-se justiça no caso de Alcochete a ele deixar de estar envolvido no processo. É mais ou menos assim que Bruno de Carvalho, “a marca apetecível”, assim ele mesmo se descreveu na entrevista que deu esta sexta-feira à TVI, se está a apresentar nas rondas pela comunicação social para promover o seu livro “Sem Filtro- As Histórias dos Bastidores da Minha Presidência”.

Os temas principais, umas vezes porque o jornalista voltou a eles, outras porque o próprio Bruno de Carvalho os quis reforçar, foram os que se esperava: o seu trabalho no Sporting, as críticas ao seu trabalho no Sporting, Jorge Jesus e as suas críticas a Jorge Jesus e Alcochete, esse tema que “já teve demasiado tempo de antena”. “Todos os dias quero que se faça justiça, o mais cedo possível e o fazer-se justiça é eu deixar de estar implicado neste acontecimento que foi um crime hediondo que já se passou no Vitória de Guimarães e mesmo em jogos da formação, de pais contra pais”, disse sobre o tema, acrescentando ainda que estar arrependido das suas declarações que se deviam ter ficado pela frase: "Foi um crime hediondo". Naquele momento, "Bruno de Carvalho, o homem, estava arrasado", justificou.

Voltar à presidência do Sporting não está nos seus planos, até porque admitiu não ter saudades nenhumas do mundo do futebol, mas ainda há espinhos do passado no coração de Bruno de Carvalho. O maior parece ser todo o processo que envolveu a saída de Jorge Jesus, a relação do treinador com o plantel e um certo episódio que em tudo se assemelha à definição de “chantagem”.

“Quinze minutos antes do jogo com o Sporting de Braga, Jorge Jesus veio falar comigo que tinha de renovar. Estávamos a lutar pelo título. Não o consegui demover, fiz-lhe o contrato. Quinze minutos antes do jogo, disse-me: ou renova ou vou-me embora para o FC Porto. Nessa altura ainda não tinhamos contactos com o FC Porto, e era pena, mas não valia a pena perguntar se era verdade ou não", referiu Bruno de Carvalho. O Sporting venceu o Braga mas perderia o título para o Benfica nesse ano.

“Foi alvo de chantagem?”, perguntou o jornalista. Silêncio. “As pessoas podem tirar as ilações do que significa um pedido destes, quinze minutos antes de irmos jogar um jogo que podia valer o título. Não é agradável, como devem perceber.” A partir daí a confiança esteve sempre a cair: “Sou crente em Jesus, porque sou cristão, mas sou muito descrente em Jorge Jesus”, disse na entrevista.

A relação com Jorge Jesus, disse ainda, era muito desigual: “Tentava gerir o mal-estar em relação a Jorge Jesus conversando várias vezes, sendo o mais honesto e frontal possível, mas percebi que estava a viver uma relação que só tinha emissor, não tinha recetor. Jorge Jesus era um bom treinador, mas nas relações humanas falhava.”

E porque é que não o despediu? Porque me custou nove milhões de euros. “Só por isso?”, “Sim”.

Mais à frente na entrevista, Bruno de Carvalho falou dos seus últimos momentos à frente do Sporting e disse que as rescisões a conta-gotas foram "um plano político" para o derrotar e a "machadada final" no seu mandato.