Tribuna Expresso

Perfil

Atualidade

A história de Cássio, César e dos alegados €250 mil para perder com o Benfica

Este é o passado de Cássio e de César Boaventura, uma história que o Expresso publicou no passado sábado

JOSE COELHO/ Lusa

Partilhar

Numa análise a um jogo de futebol cabem muitos pontos de vista, mas nenhum deles é tão celebrado como a estatística — exceto, bom, o escrutínio ao árbitro. Porque números são matemática e a matemática é exata, não há, aparentemente, como falhar. O problema é que há. E quem olhar apenas para os dados do Feirense-Rio Ave de 6 de fevereiro de 2017 não entenderá o resultado final: o Rio Ave perdeu por 2-1, apesar de ter rematado mais (11-7), passado mais (525 contra 210 passes), somado mais cantos (11-2) e tido mais, muito mais tempo a bola nos pés (72%-28%). O que aconteceu, então? Aconteceu que Platiny, logo ao minuto 6, fez um golo espetacular, trocando as voltas à estratégia dos vila-condenses, e que Karamanos fez um chapéu tão notável como inesperado ao minuto 74. São os tais imponderáveis da bola que não se discutem; a questão com o Feirense-Rio Ave era outra.

Antes, a meio daquela tarde de segunda-feira, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa decidiu cancelar todas as apostas do jogo que gere, o “Placard”, por suspeitas de viciação — havia um “afluxo anormal de apostas provenientes da China, na ordem dos 100 mil euros”, noticiou-se. É aqui que a verdadeira história começa.
Alertados por este facto, as autoridades portuguesas mapearam a origem das apostas e chegaram à comunidade chinesa de Vila do Conde.

Daí, concluíram o seguinte: se alguém quiser comprar um jogo, o mais natural é tentar aliciar o guarda-redes e os defesas. O passo seguinte foi pôr sob escuta Cássio, guardião brasileiro, Marcelo e Roderick, centrais, Rafa Soares, lateral-esquerdo, e Nadjack, lateral-direito. O resultado de uma destas escutas produziu o seguinte resultado, antes de um Rio Ave-Benfica de 2017:
— Cássio, estás sozinho? Precisava de te dar uma palavrinha, mas pessoalmente, porque os telemóveis nascem com ouvidos.
— Se isto é de Lisboa, nem vale a pena conversar. Não quero saber.
— Sim, por acaso uma parte é, a outra não.

Fim.

Um dos interlocutores era um agente português que, para o caso, fingiu um sotaque brasileiro para se aproximar de Cássio. E Cássio terá afugentado o empresário; a seguir, confessou a um amigo, por telefone, o que se passara.
— Lembra aquilo que você me perguntou? Teve aqui um gajo que me tentou fazer o mesmo outra vez.
— É o mesmo da outra vez? Lá de Paços de Ferreira?
— Não, este é outro.

Segundo fonte judicial, “o mesmo da outra vez” é César Boaventura, empresário natural de Viana do Castelo [ver perfil ao lado] que esta semana se viu envolvido noutro caso: a Tribuna Expresso escreveu, na quinta-feira, que Lionn, jogador do Chaves, testemunhou contra Boaventura numa audiência de julgamento no tribunal de Esposende. “César Boaventura tentou comprar-me antes do jogo contra o Benfica. A mim, ao Cássio e ao Marcelo também”, disse Lionn, sob juramento, num processo por difamação que opõe Cássio a Boaventura; o agente insinuou nas redes sociais, onde é muito ativo, que o guarda-redes teria entregado o resultado numa vitória do FC Porto por 5-0 contra o Rio Ave, em fevereiro de 2018.

O episódio relatado por Lionn terá ocorrido em 2016, ainda este brasileiro era futebolista dos vila-condenses. Boaventura nega: “Ele que prove, vou processar o Lionn. Isto é uma invenção de alguns jogadores, com algumas pessoas do FC Porto e com o ex-presidente do Sporting, Bruno de Carvalho.” Lionn, sabe o Expresso, já antes prestara depoimento semelhante na Polícia Judiciária de Vila Real.

De acordo com informações recolhidas pelo Expresso junto de fontes do processo, o agente de futebolistas ter-se-á apresentado como “mandatado por Luís Filipe Vieira”, oferecendo a Cássio cerca de 250 mil euros para facilitar no jogo contra o Benfica.

O guarda-redes terá, depois, alertado alguns responsáveis do Rio Ave, e estes decidiram manter o incidente em segredo; Pedro Martins, o treinador de então, manteve a confiança no guarda-redes e pô-lo a jogar contra o Benfica, que venceu por 1-0. Agora, Cássio vai testemunhar em tribunal contra César Boaventura, e o Expresso sabe que está disposto a voltar à Polícia Judiciária para revelar que foi aliciado pelo empresário. “Então o Cássio é mais um que tem de provar que foi aliciado por mim”, afirma César Boaventura ao Expresso. “Já denunciei os três jogadores [Cássio, Marcelo e Lionn] e os três estão feitos com a coligação [FC Porto e Bruno de Carvalho].”

No início desta semana, o empresário tinha já reagido no Facebook às acusações feitas pelos jogadores no tribunal de Esposende: “O futebol está podre, e o meu advogado já pediu cópia da gravação dos depoimentos para processar quem de direito, por crime de difamação. Difamação essa que foi publicitada em todos os meios de comunicação e televisões, tendo atingido milhões e milhões de pessoas.”

O Expresso contactou oficialmente o Rio Ave, que preferiu não comentar. No tribunal de Esposende, Marco Aurélio Carvalho, diretor de comunicação do clube vila-condense, disse apenas conhecer César Boaventura “de nome”. Esteve lá como testemunha.

Escutas e WhatsApp

Não são apenas Cássio e Lionn que acusam César Boaventura de, alegadamente, os tentar corromper. Numa das escutas intercetadas pela polícia, Nelson Monte, futebolista nascido em Vila do Conde, formado no Benfica e agora jogador do Rio Ave, também testemunhou contra o agente de Viana do Castelo, dizendo isto: em finais de março de 2016, Boaventura foi visto nas instalações do clube e terá tentado aliciar o central Marcelo para o jogo contra o Benfica. Posteriormente, Marcelo foi transferido para o Sporting, disputou apenas dois jogos oficiais e acabou vendido, em dezembro passado, aos Chicago Fire, da liga norte-americana de futebol (MLS). Segundo fonte judicial, há mensagens WhatsApp trocadas entre César Boaventura e Marcelo.

— Está aqui um gajo do Porto a dizer que eu te aliciei para a viciação de resultados. Diz que te queixaste.
— Nunca comentei com ninguém. Os únicos que sabem são o Cássio e o Lionn.
— Apaga as mensagens, amigo. Apaga todas.

Marcelo não apagou e, sabe o Expresso, ‘colaborou’ com as autoridades portuguesas.