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Caso dos e-mails: indemnização de 17,7 milhões euros peca por escassa, diz diretor financeiro do Benfica

Em mais uma sessão no processo que o Benfica moveu contra o FC Porto por divulgação de informação privada, Miguel Moreira garante que avaliação da KPMG, através da qual se chegou ao valor da indemnização pedida, fica aquém do real valor da SAD encarnada

Isabel Paulo

NurPhoto/Getty

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Miguel Moreira assegura que o valor de mercado da SAD encarnada poderá chegar aos 880 milhões de euros, quatro vezes superior ao cálculo base estimado num relatório da KPMJ; ora, isto significa que, para o Benfica, a indemnização de 17,7 milhões pedida pelo Benfica na ação cível contra o FC Porto - e à qual se chegou determinando os 5% do valor inicialmente calculado pela consultora (340 milhões de euros) - peca por escassa.

Embora afirme não conhecer o método de análise e indicadores utilizados pela referida empresa de consultoria, o diretor financeiro do Benfica defendeu, esta quinta feira no Tribunal Central Cível do Porto, que o real valor comercial do clube “é muito superior”.

De acordo com Miguel Moreira, na época “histórica do tetra” o clube teve receitas de cerca de 220 milhões de euros, defendendo que, para aferir o valor da sociedade, deve ser aplicado um múltiplo de venda de três ou quatro vezes. Ou seja, num hipotética venda da SAD a terceiros a mesma poderia valer entre 660 a 880 milhões de euros.

Para o responsável financeiro, a lógica no ano seguinte à do ‘tetra’ era a do crescimento dos resultados financeiros, que alega não sucederam devido aos danos provocados pela divulgação dos emails internos do clube, no Porto Canal, que afetaram a reputação do clube. “Houve danos devido aos ataques repetidos ao Benfica, que fez decrescer os resultados operacionais por fatores externos”, afiança o diretor da Luz.

Na análise da KPMJ, relativa a 2017/18, o Benfica desvalorizou para os €285 milhões, “quando a expetativa era voltar a aumentar”.

Apesar de não precisar qual foi o impacto financeiro a divulgação dos emails, Miguel Moreira garante não ter dúvidas que isso prejudicou o Benfica. Porque, lá está, “numa sociedade desportiva o segredo é a alma do negócio”. Mas questionado que segredos relativos aos planos de treino ou jogos foram divulgados e beneficiaram os adversários, o responsável financeiro também não soube dizer.

Em relação a cotação das ações após os programas da polémica do Porto Canal, Moreira avançou perdas de 2,6 por cento no mercado bolsista.

O lado FCP

Jorge Cernadas, advogado do FC Porto, questionou a testemunha do Benfica sobre se a queda de proveitos financeiros em 2017/18 não estaria relacionada com a prestação desportiva na Champions, em que a equipa de Rui Vitória foi afastada no último lugar da Liga dos Campeões.

Apesar de não responder diretamente, Miguel Moreira acabou por admitir que o clube deixou de encaixar €20 milhões na prova e que os lucros nesse ano baixaram de €44 milhões para €20 milhões. Quanto a uma eventual desvalorização de mercado influenciada pelas buscas a que Polícia Judiciária fez às instalações do clube, Miguel Moreira também adiantou não ter uma estimativa de danos, como também não se recorda ainda se as ações desceram a seguir em bolsa.

Esta manhã foi ainda ouvido no Palácio da Justiça do Porto Paulo Alves, gestor financeiro da Luz, que avançou que o Benfica teve despesas acrescidas com o acesso ao seu sistema informático no valor de 440 mil euros. Paulo Alves referiu que houve um reforço de pessoal na área do marketing, informática, comunicação e departamento jurídico após a divulgação dos emails, num total de 18 novos colaboradores. Na Luz, adiantou, o sistema informático migrou de operador, o que custou 2 milhões de euros.

O gestor não se recorda que segredos do negócio foram revelados pelo Porto Canal, mas especificou que foram tornados públicos, embora não saiba onde, os contratos de Ferreira e Castilho. De acordo com o gestor contabilístico, as repercussões são graves, dado o futebol ser um sector em que existem diferenças contratuais, consoante as condições em que foram adquiridos, isto é, se são jogadores livres ou não. "As diferenças salariais não dependem só do valor desportivo do jogador, e o conhecimento dos contratos pode perturbar a equipa e o plantel", sustenta.

Paulo Alves não soube precisar qua a massa salarial total do Benfica, mas referiu ser de 5 milhões de euros por ano os custos de pessoal, sem os encargos dos atletas.