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Foi assim o dia 2 do julgamento de Alcochete: a suposta prisão ilegal, quem assinou o quê e em que data

A segunda sessão do mediático julgamento de Alcochete, em que 44 arguidos são acusados por mais de quatro mil crimes, entre os quais o de terrorismo, prosseguiu esta terça-feira. Bruno de Carvalho, antigo presidente do Sporting, é a figura central deste processo, acusado pelo Ministério Público da autoria moral da invasão à Academia do Sporting, a 15 maio de 2018, mas não esteve presente nesta segunda sessão, em que surgiu o primeiro incidente processual: a defesa põe em causa validade do auto de notícia da GNR

Rui Gustavo, Mariana Cabral, Lídia Paralta Gomes (texto) e Tiago Miranda (fotografia)

TIAGO MIRANDA

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O resumo

Afonso Ferreira esteve um ano em prisão preventiva e é um adepto anónimo. Confessou que esteve na academia mas nega ter batido em qualquer jogador. Esta terça-feira, o advogado que o representa apresentou um requerimento para anular o auto de noticia elaborado pela GNR. Em causa está o facto de o documento ter sido assinado pelo comandante do posto da GNR de Alcochete que reconheceu esta tarde em tribunal não ter tido conhecimento direto de toda a informação que lá consta.

Márcio Alves diz que fez parte do documento e que o resto da informação foi recolhida por Fábio Castro da investigação criminal. Os dois assinaram o documento.

Em causa está também o facto de o auto ter sido feito a 15 de maio e só ter sido enviado para o MP e assinado a 16 ou 17 de junho. Miguel Matias já tinha alegado durante a manhã que os 23 primeiros arguidos a serem detidos estiverem presos ilegalmente porque houve uma ordem para os libertar que não foi cumprida. O requerimento vai ser apreciado pela juíza Sílvia Rosa Pires, que não mostrou grande abertura a estes argumentos.

Esta terça-feira foram ouvidos três elementos da GNR e estava previsto serem ouvidos seis. O julgamento prossegue quinta-feira

18h09: O julgamento termina por hoje.

18h06: Miguel A. Fonseca, advogado de Bruno de Carvalho, tenta voltar ao tema do auto de notícia e porque é que foi assinado numa data diferente daquela em que foi elaborado mas a juíza corta as perguntas. "A testemunha já respondeu", diz. Sílvia Rosa Pires parece pouco disposta a alimentar esta questão. Márcio Alves terá começado a elaborar o auto no dia 15, quando se deu a invasão, mas só o enviou a 16, com mais informação recolhida por outro sargento, Fábio Castro, da investigação criminal.

17h58: Miguel A. Fonseca pergunta porque é que as imagens presentes no processo não mostram Bruno de Carvalho na Academia. O sargento confirma que viu o ex-presidente do Sporting no local, já depois das 18h. Mas que não foi ele a selecionar que imagens fazem parte do processo.

17h38: A defesa dos arguidos volta à carga com o auto de notícia elaborado pela GNR a propósito da invasão de Alcochete. A questão é que o documento não tem a hora exata em que o responsável da GNR foi avisado da invasão por Ricardo Gonçalves. "Porque é que escreveu 17h06 mais ou menos?". Márcio Alves não foi capaz de esclarecer.

17h27: O responsável da GNR confirma que aquela foi a primeira vez que foram chamados a Alcochete por cause de problemas com claques. Em ocasiões anteriores, elementos da Juventude Leonina foram à Academia mas a GNR não foi chamada, diz Márcio Alves.

17h16: Outro dos advogados de defesa insiste no mesmo argumento e alega que o comandante distrital da GNR de Setúbal dirigiu as operações no terreno e no entanto o seu nome não consta do auto de notícia que serve de prova em tribunal.

17h11: Miguel Matias, advogado de um dos primeiros 23 arguidos a serem detidos, Afonso Ferreira, pergunta a Márcio Alves quando é que assinou o auto de notícia sobre os acontecimentos na Academia de Alcochete. O sargento diz que foi no dia 16 ou 17. Dois dias depois da invasão. O advogado argumenta que o auto tem informações que foram transmitidas por um terceiro elemento e que portanto há uma desconformidade porque o sargento não teve conhecimento direto da informação que consta do documento. Por isso apresenta um requerimento em que invoca a nulidade do documento.

16h48: O julgamento é retomado. O sargento Márcio Alves diz que entrou no balneário onde os jogadores foram agredidos e diz que se preocupou em 'preservar o local do crime' para permitir a recolha de prova. Espreitou lá para dentro mas "não-se recorda" das condições em que o espaço se encontrava.

16h26: A juíza suspende o julgamento por cinco minutos por "razões excecionais"

16h23: O comandante do posto revela que foi avisado por Ricardo Gonçalves, diretor de segurança da Academia de Alcochete de que "100 indivíduos estavam no local para falar com os jogadores e equipa técnica". O responsável diz que avisou imediatamente uma patrulha e que poucos minutos depois, Ricardo Gonçalves voltou a ligar lhe a dizer que já estavam a ocorrer agressões. "Dirigi-me imediatamente para o local", diz Márcio Alves.

16h17: Acabou o interrogatório a André Medinas. Vai ser ouvido o comandante do posto de Alcochete, Márcio Alves.

16h05: Miguel A. Fonseca tenta pôr em causa as afirmações do militar da GNR que conduzia o primeiro carro a chegar ao local: 'Algum jogador lhe pediu para ir embora? Alguém foi impedido de sair? Não? Então como é que que pode dizer que havia jogadores a querer sair ou a ir para o hospital?'.

Andre Medinas não consegue precisar um jogador em concreto e o advogado de Bruno de Carvalho continua a tentar por em causa a tese de que o ataque provocou pânico entre os jogadores. "É capaz de dizer se Rui Patrício estava calmo ou muito calmo?". A Juíza corta mais uma vez a palavra ao advogado: "Factos, senhor doutor, fique se pelos factos".

O advogado refere a existência de imagens que demonstram um ambiente de calma que se seguiu ao ataque e que terão desaparecido. "Estou à espera de cópias, já as pedi", diz a juíza Sílvia Rosa Pires. As imagens que estão cortadas mostrarão, segundo a defesa de Bruno de Carvalho, que o ex-presidente terá ido a Alcochete já depois do ataque.

15h15: O interrogatório está a ser conduzido pela procuradora do Ministério Público que quer saber ao detalhe como é que a primeira equipa da GNR que chegou ao local fez para deter os primeiros suspeitos. "Na altura não tivemos logo noção do que estava a acontecer", admite André Medinas. O militar confirma que foram alvo de uma tentativa de abalroamento e que os primeiros suspeitos a serem detidos "não ofereceram resistência", disse.

"Já depois do ataque voltámos à Academia e falámos com os jogadores. Uns só queriam ir à hora, outros queriam ir para o hospital. O Rui Patrício disse que tinha sido agredido. E o Mathieu era dos mais serenos". André Medinas conta como é que encontrou os jogadores vítimas do ataque.

14h50: O julgamento recomeça com a inquirição de André Medinas, o condutor do carro patrulha da GNR que foi o primeiro a chegar ao local do crime. "Lembro-me perfeitamente de um BMW que nos tentou abalroar quando cortámos a estrada. Tive de travar fortemente para não bater".

O militar do posto da GNR de Alcochete conta que quando chegaram viu "mais de 50 suspeitos, uns encapuçados e outros não" a fugir do local. O guarda conta que três carros conseguiram fugir e que fizeram imediatamente algumas detenções de indivíduos "que não ofereceram qualquer resistência".

O militar diz que já ia depressa quando foram informados da invasão e que ainda acelerou "mais quando soube que já se tinham registado agressões ".

Detenção ilegal?

Presos duas vezes? Durante a inquirição a Tiago Mateus, o advogado Miguel Matias perguntou ao militar da GNR, o primeiro a chegar ao local do crime, se os primeiros 23 arguidos chegaram a ser libertados.

A pergunta intrigou a Juíza Sílvia Rosa Pires, mas o advogado, que representa um desses 23 arguidos, diz que constam do processo ordens de libertação dos 23 arguidos e que "nunca chegaram a ser executadas". Ou seja, "estiveram quatro horas presos ilegalmente" até que foram detidos novamente.

Pausa para almoço

12h39: Duas horas e vinte minutos depois, acabou a inquirição a Tiago Mateus, o chefe da patrulha da GNR que foi o primeiro a chegar a Alcochete depois da invasão da Academia. O militar contou que viu 50 pessoas a fugir, que tentou cortar a estrada que dá acesso à EN 4 e que teve de mandar o colega travar para não serem abalroados por um BMW X3 em fuga. Os GNR não quiseram bater no carro para "não se meterem em trabalhos" e serem obrigados a pagar a despesa do arranjo.

Tiago Mateus contou que viu sangue no chão do balneário mas que não viu nenhum jogador ferido. Foi ele que fez as primeiras detenções. Estava previsto ouvir três militares da parte da manhã e outros três à tarde, mas se o ritmo se mantiver, o julgamento já se está a atrasar.

12h25: Tiago Mateus, da GNR, foi interrogado durante duas horas. O julgamento vai agora ser suspenso para almoço.

12h15: Miguel A. Fonseca, advogado de Bruno de Carvalho, pede para inquirir a testemunha e começa por dizer que se fosse ele a conduzir o BMW X3 e se quisesse bater no carro policial... Mas é imediatamente interrompido pela Juíza: "Deixe-se de apartes e faça perguntas". O advogado tenta interrogar o militar fazendo uma introdução e é novamente cortado: "Isto não é o telejornal. Faça as perguntas."

O advogado insiste em perguntar sobre o nível de desarrumação do balneário de Alcochete depois do ataque e se era muito diferente dos dias de jogo ou de treino. Tiago Mateus, que já tinha estado em Alcochete como socorrista do INEM, diz que desta vez havia coisas danificadas, como um vidro de uma porta rachado. Miguel A. Fonseca não se dá por satisfeito: "É por sito que queremos uma reconstituição".

12h: Tiago Mateus está a ser inquirido pelos advogados de defesa e revela que no momento em que cortou a estrada que liga a Academia à estrada nacional 4 houve "dois ou três suspeitos que ficaram no parque de estacionamento e nem tentaram fugir", um deles, que se identificou como Emanuel Calças, "disse que era jornalista, que não tinha nada a ver com aquilo", mas as duas afirmações serão falsas. Emanuel Calças, que é um dos acusados, não é jornalista e foi detido num dos carros que fugiu do parque.

11h: "O meu colega perguntou: bato com o carro ou não?" E eu respondi: "Não batas que ainda nos metemos numa embrulhada e temos de pagar." Tiago Mateus diz que o colega teve de travar a fundo para evitar a colisão com o BMW X3 que fugiu do parque de estacionamento junto à Academia de Alcochete, apesar de a primeira patrulha da GNR que chegou ao local ter tentado cortar a estrada. "O carro não cortava a estrada toda e tínhamos de chegar à frente ou atrás para evitar a fuga. Se o colega não tem travado, o BMW tinha-nos batido". Os ocupantes deste carro seriam detidos pouco depois por reforços que entretanto chegaram ao local.

10h55: "Havia sangue no chão", descreve Tiago Mateus, que entrou no balneário uma hora depois do ataque. "Mas jogadores feridos não vi. O balneário estava todo revirado", acrescenta. Um dos advogados de defesa quer saber como é que o GNR sabia que as manchas no chão eram de sangue. "Eram manchas vermelhas", reitera Tiago Mateus.

10h50: Ainda de acordo com o depoimento do militar Tiago Mateus, ficaram no local à espera de reforços e quando estes chegaram partiram de imediato em perseguição das três viaturas que tinham fugido. Conseguiram apanhar os ocupantes do Renault e do Seat, que "não ofereceram resistência". O BMW fugiu "pela areia" e foi perseguido pelos reforços que entretanto chegaram. Tiago Mateus conta que soube da intercepção do BMW "pelo rádio".

Sílvia Peres pergunta ao militar se alguma vez a GNR tinha sido chamada a Alcochete. Tiago Mateus diz que não. "Só políciamento aos jogos, mais nada".

10h35: "Fechámos a estrada a seguir ao parque para que as cinco ou seis viaturas que lá estavam não pudessem fugir", diz Tiago Mateus. Como eram só três, pediram reforços ao comando de Setúbal. Um dos carros estacionados, um BMW x3, tenta fugir e abalroar o carro patrulha. O BMW acabou por fugir, tal como um Seat Ibiza e um Renault Mégane.

10h25: "'Demoram muito a chegar? Há jogadores a serem agredidos'. Foi este o teor da segunda chamada do comandante. Dei ordem ao condutor para seguir o mais depressa possível", conta o comandante Tiago Mateus. "Quando chegámos, vimos indivíduos encapuçados a correr e a sair da Academia. Fomos à entrada e disseram-nos que já não havia ninguém lá dentro. Um BMW X3 tentou abalroar o carro patrulha para fugir. E nós voltámos para trás para apanhar os que conseguíssemos".

10h20: A primeira testemunha vai começar a depor. Chama-se Tiago Mateus e era o comandante da patrulha de ocorrências da GNR de Alcochete. Foi o primeiro a chegar à Academia depois de uma invasão "de desconhecidos". Tiago Mateus estava na rua quando recebeu uma mensagem do comandante de posto a mandá-lo de urgência para a Academia do Sporting.

10h10: Nuno 'Mustafa' Mendes e Elton 'Aleluia' Camara chegam algemados à sala de audiências e são sentados à parte dos outros acusados. São os únicos presos preventivos do processo. Mustafa porque está acusado, entre outros crimes, de tráfico de droga; e Aleluia porque violou as regras da prisão domiciliária.

A sessão já está atrasada uma hora.

Nem Bruno de Carvalho, alegado mentor do ataque, nem Fernando Mendes, o homem que terá sido a faísca para a invasão, estão presentes. O primeiro por razões profissionais, o segundo por motivos de saúde.

9h30: Há um ligeiro atraso no início da sessão, uma vez que houve indicação de que os advogados teriam de ser revistados antes de entrar na sala, algo que todos recusaram.

Julgamento de Alcochete, dia II

A segunda sessão do julgamento dos 44 acusados de planearem e executarem a invasão da academia de Alcochete arranca hoje às 9h30. A Juíza Sílvia Rosa Pires marcou para a hoje a inquirição de seis militares da GNR que acorreram a Alcochete no momento da invasão.

Foi esta força militar que investigou o caso, facto que já levou a defesa dos arguidos a tentar anular todo o processo, uma vez que argumentam que, estando em causa crimes equiparados a terrorismo, deveria ter sido a Polícia Judiciária a investigar o caso.

Este argumento já foi recusado pelos tribunais superiores mas estará certamente em discussão durante o julgamento.

A Tribuna Expresso vai acompanhar a sessão de hoje ao minuto.

O principal arguido do processo, Bruno de Carvalho, pediu dispensa por não ter meio de transporte próprio e por ter de trabalhar duas horas de manhã e outras duas à tarde. A Juiza acedeu ao pedido.