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Se é verdade que Mourinho nunca perdeu por completo o seu toque de Midas, também é verdade que esse toque se foi transformando em maldição

O clube britânico Tottenham despediu o treinador argentino Mauricio Pochettino e contratou José Mourinho. A pergunta mais importante a fazer neste momento não é o que espera o Tottenham de Mourinho, mas o que quer Mourinho deste novo desafio. Texto de Bruno Vieira Amaral

Bruno Vieira Amaral

Carl Recine

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Mauricio Pochettino esteve cinco anos à frente do Tottenham e não ganhou um único título. Zero. Bola. Nem uma Taça de Inglaterra. Nem uma Taça da Liga. Como diria José Mourinho na sua fase transalpina, “zero tituli”. O melhor que conseguiu foi um segundo lugar na Premier League. Chegou a uma final da Liga dos Campeões, um feito incrível para um clube que nunca tinha chegado a tais patamares, mas perdeu-a para o Liverpool de Klopp. No entanto, apesar do deserto de títulos, poucos serão insensatos ao ponto de argumentar que a passagem do treinador argentino pelo banco do Tottenham foi um insucesso.

O clube, gerido com mão de ferro por David Levy, investiu pouco, em comparação com os rivais, e a equipa jogava muito. A construção do novo estádio não atirou o Tottenham para o lodo do meio da tabela. Os jogadores foram valorizados, alguns foram vendidos e, entre os que ficaram, alguns tornaram-se estrelas mundiais. O estilo de futebol entusiasmava os adeptos e essa qualidade compensava a amarga falta de títulos. Pochettino era idolatrado pelos seus e respeitado pelos adversários.

Até que, nos últimos meses, as coisas mudaram. Apesar de todas as suas virtudes, Poch, como é conhecido em Inglaterra, chegou ao fim da estrada. Ao contrário do vizinho Arsenal, que prolongou a aposta em Arsène Wenger durante anos graças aos títulos conquistados há mais de uma década, no Tottenham o seguro de vida do treinador era limitado. E, no futebol, gratidão e despedimento não se excluem mutuamente. Sem a almofada dos títulos, Poch dependia, mais do que qualquer outro treinador na Premier League, da imposição de um estilo de jogo, de uma ideia. Esgotada a ideia, cansados os jogadores, cansado também o treinador, a saída era inevitável. Adiós, Poch! Olá, Mourinho!

Mourinho? Uma leitura apressada da escolha dir-nos-á que, farta do futebol atrativo mas estéril em conquistas de Poch, a direção do Tottenham resolveu apostar no treinador disponível que oferece mais garantias de troféus. À exceção de União de Leiria e Benfica, no dealbar da carreira, Mourinho deixou mais recheadas as vitrinas de todos os clubes por onde passou. Os seus vinte e cinco troféus, campeonatos em quatro ligas diferentes e duas Ligas dos Campeões em dois clubes não podem ser subestimados.

Mas também não se pode comparar uma Liga dos Campeões pelo Inter ou pelo Porto aos três troféus que ganhou na triste passagem por Manchester. Mesmo o terceiro título com o Chelsea não teve o encanto avassalador do bicampeonato fechado em 2006. É que entre 2004, quando Mourinho irrompeu no futebol mundial e inaugurou a nova era do treinador-estrela, e 2019, muita coisa mudou no desporto-rei. Aconteceu o Barcelona de Guardiola, a Espanha do tiki-taka, o fulminante Bayern de Heynckes acompanhado da Alemanha dos 7-1, o Liverpool de Klopp, o City do recorde de pontos, e se é verdade que Mourinho nunca perdeu por completo o seu toque de Midas, também é verdade que esse toque, tal como para o rei da Frígia que lhe deu o nome, se foi transformando em maldição.

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