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Julgamento do caso Jogo Duplo põe a nu as máfias das apostas ilegais

Acórdão é conhecido esta sexta-feira. O Ministério Público pede penas de prisão efetivas para seis dos 27 suspeitos, entre eles atletas do Oriental, Oliveirense, Penafiel e Académico de Viseu

Hugo Franco

Entre os 27 acusados da Operação Jogo Duplo existem vários jogadores mas também treinadores, empresários e um clube

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Depois de dois adiamentos, o acórdão do julgamento do caso Jogo Duplo vai ser lido esta sexta-feira, 31 de janeiro, às 14h, no Campus da Justiça. Em tribunal estão antigos jogadores do Oriental, Oliveirense, Penafiel e Académico de Viseu e ainda dirigentes, empresários e pessoas ligadas ao negócio das apostas desportivas. São 27 arguidos suspeitos de viciação de resultados em jogos de futebol na II Liga.

O caso remonta a 2015 e 2016, quando um grupo de atletas e dirigentes da II Liga terá sido aliciado por empresários malaios para fabricarem resultados. Há vídeos no YouTube que revelam exibições risíveis de alguns destes arguidos. O Ministério Público pede penas de prisão efetivas para seis dos 27 suspeitos, entre eles atletas do Oriental, Oliveirense, Penafiel e Académico de Viseu. Os procuradores não têm dúvidas de que Carlos Silva, Gustavo Oliveira e Rui Dolores formaram "a cúpula da organização criminosa" em Portugal, e que eram estes três arguidos que mantinham os "contactos com os investidores malaios, que traziam o dinheiro para Portugal", para obter lucros com "apostas fraudulentas e manipulação de resultados".

Em causa estão crimes de associação criminosa em competição desportiva, corrupção ativa e passiva em competição desportiva e apostas desportivas à cota de base territorial fraudulentas. O Oriental, um dos clubes mais afetados no caso, quer ser indemnizado em mais de um milhão de euros pelos danos causados pelas apostas ilegais.

O clube acabou por descer de divisão devido aos maus resultados.

Algumas defesas pediram a nulidade das escutas telefónicas, o principal meio de prova na investigação, alegando que foram retiradas por um técnico especialista adjunto e não por um técnico superior, como manda a lei. Pedem por isso a absolvição dos arguidos e recusam pagar qualquer indemnização ao clube lisboeta.

O caso é, aparentemente, a ponta do icebergue no negócio ilegal das apostas desportivas. As autoridades estão "mais do que nunca" atentas ao fenómeno do match fixing, principalmente depois do estrondo causado pelo Jogo Duplo, em 2016. E os alvos são os clubes mais pequenos das distritais.

Nos últimos três anos, vários empresários chineses e sul-americanos, nomeadamente da Argentina, têm entrado com dinheiro em sociedades anónimas desportivas e feito parte de administrações de coletividades amadoras. "É uma espécie de mundo fantasma. Dado serem clubes de pequena dimensão passam facilmente despercebidos às autoridades. Ao contrário do que acontece nos emblemas das principais ligas", salienta Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol.

Este dirigente está especialmente atento a clubes que alinham em campeonatos das associações de Lisboa, do Porto e de Setúbal. De acordo com dados consultados pelo Expresso, cerca de dez emblemas ficaram nas mãos de empresários oriundos destes países nos últimos anos. Alguns clubes militam há décadas nas distritais, outros no Campeonato de Portugal (a antiga terceira divisão), todos longe dos holofotes.

Um destes empresários detém pelo menos dois clubes numa destas ligas secundárias. A compra e venda de jogadores passa quase exclusivamente pelo mercado asiático e basta olhar para a fotografia do plantel principal para perceber que os atletas portugueses estão em franca minoria. Um outro clube conheceu um resultado estranho, uma derrota por 10 a 0, pouco tempo após a aquisição da SAD por um grupo sul-americano. Também há dois casos de investidores argentinos que não passaram mais de duas temporadas em Portugal, tendo deixado o país no final da última época.

"Estes estrangeiros usam um testa de ferro português e procuram clubes que mais ninguém quer, sobretudo em países pequenos como Portugal.
Clubes que nunca deram lucros nem benefícios aos seus dirigentes", lembra Evangelista.

Obter "lucros astronómicos" no mercado asiático das apostas é, de acordo com várias fontes ouvidas pelo Expresso, o objetivo secreto destes empresários, que publicamente garantem que o seu interesse é apostar em novos jogadores e vendê-los a clubes grandes, portugueses e estrangeiros.

Na China ou na Malásia, os dois exemplos mais citados pelas fontes contactadas pelo Expresso, é possível fazerem-se apostas em campeonatos amadores, em jogos não oficiais e até em partidas que não se sabe bem se se realizaram. De qualquer ponto do planeta. Portugal conta no currículo com um destes jogos fantasmas: no verão de 2014, a Liga Espanhola denunciou um falso amigável entre a equipa do Freamunde e a espanhola Ponferradina. Calendarizado para a pré-época, o jogo, que nunca foi disputado, constava nos boletins das casas de apostas. "O nosso receio é que este tipo de corrupção nas ligas secundárias venha a contaminar os campeonatos profissionais, de baixo para cima", adverte Joaquim Evangelista.