Tribuna Expresso

Perfil

Atualidade

1021 dias depois, começa o julgamento do homicídio de Marco Ficini. Arguidos vão estar separados em tribunal pelas cores clubísticas

O julgamento do homicídio de adepto italiano ligado à claque sportinguista inicia-se esta terça-feira, 1021 dias depois do crime. Em tribunal vão estar 22 membros dos No Name Boys e da Juventude Leonina. Juiz deu ordens para haver segurança reforçada no Campus da Justiça

Hugo Franco e Rui Gustavo

Imagens publicadas nas redes sociais do local onde Marco Ficini foi assassinado

D.R.

Partilhar

O início do julgamento do homicídio do adepto italiano Marco Ficini por um adepto da claque do Benfica No Name Boys já esteve marcado por três ocasiões. E foi sendo adiado por diferentes motivos. Esta terça-feira, irá finalmente começar, no Campus da Justiça, em Lisboa, quando passaram 1021 dias do crime.

Francisco Henriques, o juiz que irá presidir ao julgamento, deu ordens para haver segurança reforçada no Campus da Justiça, apurou o Expresso junto de fonte judicial. Isto porque vão estar a ser julgados 22 elementos dos No Name Boys e da Juventude Leonina, claques dos principais clubes de Lisboa. Foi escolhida uma sala com condições especiais para os arguidos estarem separados consoante a cor clubística: de um lado os adeptos do Benfica e do outro os do Sporting.

Há razões para esta divisão. Durante o final de uma das sessões do debate instrutório do caso, em março de 2018, adeptos das duas claques envolveram-se em confrontos, obrigando à intervenção da polícia, que chegou a fazer uma detenção no Campus da Justiça.

A libertação do principal suspeito do homicídio — ao fim de dez meses de prisão, por não ter sido proferida decisão instrutória nesse prazo — e, antes disso, a entrega do alegado homicida na Polícia Judiciária em direto pelas televisões, depois de cinco dias em parte incerta, foram outros dois episódios que causaram polémica no caso.

As três sessões já marcadas do julgamento (4, 11 e 18 de fevereiro) vão permitir uma melhor compreensão deste homicídio, que ocorreu na madrugada de 20 de abril de 2017 junto ao Estádio da Luz e que começou na véspera de um Sporting-Benfica.

Luís Pina é acusado pelo homicídio de Marco Ficini e por outros quatro homicídios na forma tentada. O Ministério Público acusou mais 21 adeptos dos dois clubes (doze do Sporting e nove do Benfica) por participação em rixa.

A madrugada de guerrilha

Nessa madrugada antes do dérbi, vários membros dos No Name Boys dirigiram-se ao Alvalade XXI e lançaram um petardo na direção do topo sul do estádio. Fugiram de imediato para a Luz e prepararam-se para a reação da Juventude Leonina.

A claque encarnada montou uma espécie de operação stop nas imediações da Luz, junto à rotunda Cosme Damião, fazendo parar vários automobilistas e só os deixando passar depois de “se terem certificado que no veículo não seguiam adeptos sportinguistas”.

Às 2h30, uma caravana de carros de adeptos leoninos, “que levavam consigo barras de metal com o intuito de as poderem vir a usar como armas”, dirigiu-se para o estádio da Luz. Pararam os carros e saíram para a estrada.

Nessa altura, Luís Pina, adepto do Benfica, entrou num Renault Clio e dirigiu-se na direção dos rivais do Sporting. Foi seguido a pé por dez colegas da claque encarnada. Ao aproximar-se da rotunda, guinou o carro para a direita e tentou atropelar quatro sportinguistas. E só não os atingiu “porque os mesmos se conseguiram desviar”.

O carro foi rodeado por membros da Juventude Leonina, apedrejado e amolgado com barras de ferro. Foi também atingido com um petardo.

Luís Pina saiu do carro mas acabou por regressar ao veículo quando se apercebeu que os rivais já estavam em fuga perante a aproximação dos adeptos encarnados.

Acelerou novamente o Clio na direção de um adepto e acabou por atropelar Marco Ficini, que se tinha atrasado, arrastando o corpo por “15 metros” e só o tendo imobilizado depois “de ter passado completamente por cima do corpo da vítima”. De acordo com o Ministério Público, Luís Pina abriu a porta do carro, certificou-se de que o italiano já não se mexia e arrancou.

A vítima, Marco Ficini, tinha 41 anos e havia viajado de Florença para ver o dérbi, juntamente com mais adeptos italianos da Fiorentina. Não resistiu ao convite para a guerra da Segunda Circular.

Agiu em “legítima defesa”

Para a defesa de Luís Pina, o Ministério Público (MP) não valorizou o facto de os adeptos do Sporting terem tentado agredir Luís Pina com barras de ferro. “O meu constituinte agiu em legítima defesa”, afirmou Carlos Melo Alves ao Expresso em 2017. “O MP diz que ele vinha enfrentar os adeptos do Sporting. Pergunto: ia enfrentá-los sozinho? É um absurdo”. O advogado não tem dúvidas de que o DIAP de Lisboa fez uma interpretação “no mínimo subjetiva”, considerando que a acusação é “incoerente”.

Argumentos que repetiu no debate instrutório do caso. O advogado sustentou em tribunal ter-se tratado de um acidente, e não de um ato intencional para matar. Segundo Carlos Melo Alves, Marco Ficini caiu ao chão quando foi atropelado e estava sob o efeito de cocaína nesse momento, conforme indicaram os exames realizados.