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Paulo, a testemunha que viu o carro passar por cima de Marco Ficini: “Atropelou um deles. Saíram duas pessoas do veículo mas o condutor não”

Depoimento de morador revela que o condutor do Renault Clio que matou adepto italiano não saiu do carro. Ouvidos quatro arguidos e dez testemunhas no primeiro dia do julgamento do caso de homicídio junto ao Estádio da Luz

Hugo Franco

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Paulo (nome fictício) mora junto ao Estádio da Luz e diz já estar habituado aos desacatos antes e depois dos jogos grandes que envolvem o Benfica. Mas naquela madrugada de 22 de abril de 2017, na véspera de mais um dérbi, dirigiu-se à varanda do seu apartamento porque ouviu mais gritos do que era normal. "Vi uma série de pessoas a correr, uns estavam a fugir de outros, aos gritos", contou esta testemunha ao coletivo de juízes presidido por Francisco Henriques, no primeiro dia de julgamento do homicídio do adepto italiano do Sporting Marco Ficini.

Foi na sequência daquele cenário confuso junto à rotunda Cosme Damião, que acabou por assistir ao atropelamento fatal. "Um carro veio de frente para umas pessoas que estavam a pé e atropelou um deles que não conseguiu esquivar-se. O carro passou por cima dessa pessoa e parou um pouco mais à frente. Saíram duas pessoas do interior do veículo mas o condutor não."

Ainda de acordo com esta testemunha, as duas pessoas não ficaram ali por muito tempo. "Alguém gritou: 'Eles vêm aí, eles vêm aí!'. As duas pessoas meteram-se novamente no carro e foram-se embora do local", recorda Paulo.

Nos instantes seguintes, um outro carro que vinha atrás do Clio parou no local e ficou imobilizado com os quatro piscas acionados. Terão sido os únicos a ficarem ao lado do corpo do jovem italiano. "O resto das pessoas que lá estavam fugiram para todos os lados", lembra.

Esta testemunha desceu do prédio em direção à rua já quando a polícia e a emergência médica se encontrava no local. E chegou a estar a "cinco, seis metros" próximo do corpo do italiano. "O corpo ficou voltado para baixo. Nunca lhe vi a cara", concluiu.

Outra testemunha, Patrícia, foi momentaneamente impedida de passar pelo local onde se encontrava a claque do Benfica "de cara tapada, com gorros e paus". Ia no carro ao lado do marido depois de saírem do cinema no Centro Comercial Colombo. Quando os No Name Boys perceberam que se encontrava uma mulher no interior da viatura deixaram-nos seguir. "Ouvi-os dizer: 'Deixem passar, não são eles'", relata.

Já em casa, situada perto do local dos confrontos, viu tochas verdes a sair de um carro em direção ao estádio do Benfica. Na sequência, apercebeu-se de um outro grupo a dirigir-se ao carro. "Suspeitei que eram do Benfica. e os do carro do Sporting já que abanaram o veículo com agressividade."

Paulo e Patrícia fora duas das dez testemunhas neste primeiro dia de julgamento do caso do homicídio e rixa entre claques que foram ouvidas da parte da tarde desta terça-feira no Campus da Justiça.

Da parte da manhã, quatro arguidos prestaram declarações mas os restantes, entre eles o alegado homicida, Luís Pina, mantiveram-se em silêncio. Há 21 acusados no caso, sendo nove dos No Name Boys e doze da Juventude Leonina.

O juiz presidente do caso Francisco Henriques dispensou os arguidos das próximas sessões. Estes só terão de estar presentes nas alegações finais do julgamento. Se da parte da manhã a segurança no tribunal era visível, à tarde acabou por ser mais discreta. Isto porque grande parte dos arguidos já não se encontrava na sala a seguir à hora de almoço.

Um dos poucos que ficou a assistir a todo o julgamento foi precisamente o alegado homicida Luís Pina.

As duas próximas sessões do julgamento estão agendadas para os dias 11 e 18 de fevereiro.

*Artigo alterado às 18h37