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Só quatro arguidos quebraram o silêncio no julgamento de atropelamento de adepto do Sporting

Juventude Leonina e No Name Boys estão separados na sala de audiências no Campus da Justiça. Há três adeptos envolvidos no ataque de Alcochete e um que já foi alvo de um mandado de captura internacional

Hugo Franco e Rui Gustavo

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Os desacatos entre claques de há quase dois anos no Campus da Justiça, no final de um debate instrutório do caso do homicídio do adepto italiano Marco Ficini, obrigaram a medidas de segurança reforçadas em redor e no interior do tribunal no primeiro dia do julgamento do processo.

Tal como o Expresso havia anunciado, na sala de audiências os arguidos foram separados por cores clubísticas: do lado esquerdo ficaram os da Juventude Leonina, enquanto do lado direito sentaram-se os dos No Name Boys. Como faltaram três adeptos verde-e-brancos, houve um empate: nove de cada lado.

Nos No Name Boys, Luís Pina, acusado de atropelar mortalmente Ficini em abril de 2017, antes do dérbi entre o Benfica e o Sporting, não quis prestar declarações. E só um elemento falou ao coletivo de juízes presidido por Francisco Henriques, para dizer que não esteve presente na hora do acontecimento trágico ocorrido na rotunda Cosme Damião, junto ao Estádio da Luz.

Do lado da Juventude Leonina, três arguidos decidiram prestar declarações, quebrando o muro de silêncio dos restantes. Mas a maior curiosidade esteve na presença na sala de Alano Silva, o luso-angolano, braço direito de Nuno "Mustafá" Mendes, e que foi alvo de um mandado de detenção internacional no âmbito do caso da invasão de Alcochete. O suspeito não foi detido pela GNR e conseguiu fugir para Angola, país de onde é natural. Acabou por não ser arrolado na lista de arguidos do caso mas foi aberta uma certidão autónoma pelo Ministério Público para que Alano Silva seja acusado e julgado em Angola. Várias fontes revelam ao Expresso que o mandado de detenção de Alano Silva foi cumprido naquele país.

Há outros três membros da Juventude Leonina que estão a ser julgados neste processo que são arguidos no caso de Alcochete (Valter Semedo, Ricardo Neves e Miguel Ferrão). Só o último compareceu nesta primeira sessão de julgamento.

Os três elementos da claque leonina que decidiram falar têm o mesmo advogado, Manuel Cabaço, e estavam na mesma carrinha BMW que se dirigiu em fila naquela noite para as imediações do Estádio da Luz. "Fomos lá ripostar contra o lançamento de tochas em Alvalade por parte dos No Name", confessou Ivo, que guiava a carrinha. Uma versão corroborada pelos colegas.

Todos contaram ao coletivo de juízes que a intenção era só lançarem tochas em território encarnado "por represálias" e não entrar em confrontos físicos.

No relato, contam que entraram em pânico quando estavam em marcha lenta na rotunda Cosme Damião depois de verem um carro a acelerar em direção a eles. "Não sabíamos se eram adeptos do Benfica, mas fomos logo para dentro do carro", conta outro elemento da claque leonina.

Os três garantiram que não viram Marco Ficini ser atropelado nem assistiram a qualquer tipo de cena de violência. E que só souberam da morte do italiano no dia seguinte "pelas notícias".

Carlos Melo Alves, que defende o alegado homicida Luís Pina, foi um dos advogados que mais fez perguntas aos três membros da Juventude Leonina. Sobretudo sobre o embate traseiro "com muita violência" de que o BMW foi alvo quando estavam ainda em pára-arranca naquela rotunda. "Não vimos quem nos bateu. Só queríamos era sair dali para fora", contou um dos arguidos.