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“O que aconteceu a Marega é inaceitável. Estas formas de discriminação acontecem há anos, encapotadas pelo fanatismo clubístico”

Abel Xavier diz estar solidário com Marega e que “esta infiltração de racismo que gravita na sociedade de forma encapotada e silenciosa tem que ser atacada de maneira convincente”. O ex-selecionador de Moçambique sublinha ser da responsabilidade de todos “identificar essas pessoas e denunciá-las”, mas que não se pode generalizar porque Portugal é um país de inclusão”

Depoimento recolhido por Alexandra Simões de Abreu

António Pedro Ferreira

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Antes de mais quero dizer que aquilo que aconteceu com o Marega é inaceitável. Estou solidário com ele e com todos os que são vítimas de outras formas de discriminação. Recordo, aliás, que há uns anos fui embaixador contra o racismo, xenofobia e discriminação, mas acima de tudo pelo direito de igualdade de trato. Fui um jogador irreverente que ficou refém de uma determinada "marca" quando pintei o cabelo. E tive "n" situações com presidentes de clubes em que a primeira coisa que me diziam é que tinha de cortar e mudar a cor do cabelo. Muitas vezes recusei porque não tenho de necessariamente de mudar a minha cor de cabelo para jogar. Mantive-me fiel à minha imagem e várias vezes fui castigado por isso. Isto para dizer que sou contra qualquer forma de discriminação, seja ela racial, de género ou qualquer outra.

No futebol existe a dúvida que tem a ver com o fanatismo clubístico que muitas vezes pode ser expressado desta forma, para ferir onde faz doer mais às pessoas, neste caso no Marega. Mas o clima de ódio, fomentado também nas redes socais, faz com que essas pessoas se infiltrem no futebol. E todas as instituições, não só as desportivas, devem criar mecanismos de fiscalização e identificação dessas pessoas. Este é um problema de cidadania. Esta infiltração de racismo que existe e gravita na sociedade de forma encapotada e silenciosa tem que ser atacada de maneira convincente. E é da responsabilidade de todos identificar essas pessoas e denunciá-las. Nós próprios podemos fazer parte desta fiscalização porque o adepto que está ao lado e que não está de acordo tem o dever cívico de denunciar o que se está a passar. Temos de trabalhar melhor na fiscalização e identificação dessas pessoas e levá-las à justiça a diferentes níveis.

A arbitragem também tem de melhorar nesse sentido. O árbitro devia ter parado o jogo, porque ele é importante para assegurar a pacificação do jogo. Até porque o Marega se sai de campo levaria o segundo amarelo por um incidente externo ao jogo, o que não seria justo.

Estes atos de racismo acontecem há muitos anos encapotados pelo fanatismo clubístico e a atitude do Marega veio criar e muito bem esta noção de dano. Mas atenção, não acho que se deva generalizar. Este é um assunto delicado, não se pode generalizar um país inteiro, como não podemos arrastar todos os vitorianos. Só faltava dizer que o V. Guimarães é um clube racista. Não pode haver esse arrastamento e fazermos essa conotação ao país.

Portugal é multiracial e deve ser entendido como tal. Somos integrados com mais ou menos dificuldade, mas é um país de inclusão. Infelizmente existem pessoas que têm outro tipo de formação e intenções que devem ser identificadas e levadas à justiça porque estamos a falar de um crime. O racismo como outras formas de discriminação é crime.

Este é um momento de reflexão, não é de generalização.

Há 20 anos fui um dos primeiros jogadores negros a jogar no Everton, um clube que não tinha adeptos negros, ao contrário do Liverpool que sempre foi um clube multiracial. Mas houve no Everton uma evolução da compreensão e da luta que foi feita para haver integração, tornando-se um clube aberto e multiracial como os outros clubes. Aliás, é bom não esquecer que o futebol é um mercado livre e todas as equipas têm diferentes nacionalidades, culturas e religiões.