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Liga. Os três grandes pagam 20 vezes mais do que os outros: como se reduzem salários? E estarão eles a pensar nisso? “É prematuro”

Em alguns campeonatos europeus, clubes, jogadores e federações discutem, por imposição ou voluntariamente, a redução de salários dos atletas como forma de enfrentar a crise que, inevitavelmente, afetará o futebol. E em Portugal? A Tribuna Expresso perguntou a FC Porto, Benfica, Sporting e Braga o que acham eles de um eventual corte. Que, a ter lugar, terá de ser contextualizado num campeonato profundamente assimétrico, de forma a evitar que isto agrave

Pedro Candeias

João Girão

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Milhares de kits de despiste, de máscaras, de batas, alguns ventiladores e outros aparelhos têm sido angariados e comprados para doação e distribuição. Por clubes de futebol, por futebolistas e até por agentes de futebolistas. É a solidariedade futebolística contra a pandemia e a sociedade agradece.

Por outro lado, um punhado de jogadores tem-se chegado à frente para, voluntariamente, entregar parte do salário por diversos motivos: para dar o exemplo ou para impedir que os seus clubes despeçam colaboradores ou para despedimentos primários aconteçam, como ao grande Pär Zetterberg. Na Alemanha, Borussia de Dortmund e o Bayern de Munique são os exemplos mais flagrantes.

Mas - e por outro lado ainda - há clubes que propõem eles próprios uma redução salarial aos atletas para enfrentar a pandemia. Em Espanha e Itália o assunto tem sido debatido, com polémica, pois há uma questão chamada lei laboral a ser esclarecida. No Barcelona, diz-se que os capitães estão contra e estão revoltados; em Itália, o presidente da federação está a pensar no mesmo e é possível que os clubes tenham de alinhar.

Bom, e em Portugal?

À falta de uma deliberação do Governo, da Liga, que organiza os campeonatos profissionais, ou da UEFA, que manda basicamente em tudo, os clubes mantêm-se mais ou menos na expetativa. A Tribuna Expresso questionou oficialmente FC Porto, Benfica, Sporting e Braga sobre o tema, e as respostas são inconclusivas, pois “ainda é prematuro decidir seja o que for”.

O FC Porto, cujas dificuldades financeiras são públicas, é, ainda assim, o que admite uma revisão salarial no futuro. “Os salários deste mês serão pagos normalmente, depois a situação será reavaliada, mediante a evolução desta crise”, diz fonte do clube que lidera a I Liga, com um ponto de avanço sobre o Benfica. Os encarnados fecham-se: “Neste momento, seria prematuro ter já uma posição e o clube nada tem a dizer, para já, sobre este assunto”.

O Sporting, por sua vez, garante “estar a estudar todas as alternativas, mas esse tipo de medidas de ajuste, alinhadas com o mercado, passam por um entendimento coordenado com os outros clubes”. Finalmente, o Braga, garante que “vai respeitar os contratos e qualquer alteração a isto tem de ser alcançada conjuntamente entre Liga e Sindicato dos Jogadores”.

Dito assim, dos quatro, é possível que seja o FC Porto a assumir, primeiro, uma posição individual. Apesar de a UEFA ter estendido o prazo de apresentação de resultados no âmbito do Fair Play Financeiro, as finanças dos dragões são o que são e exigem contenção de custos.

Já Benfica, Sporting e Braga esperam por um momento coletivo, coordenado entre todos ou imposto por alguém acima, para alterar o status quo. A questão é: como se reduzem salários num campeonato que,comparativamente, não paga assim tão bem? E, sobretudo, como evitar que as assimetrias rebentem com as carreiras de alguns futebolistas?

A Liga assimétrica

Há tempos, Desportivo das Aves e Boavista assumiram terem salários em atraso, problema que ambos os clubes da I Liga iriam resolver, prometeram eles. Bernardeau, futebolista dos avenses, garantiu publicamente que não recebera um tostão em 2020. Estes são dois episódios de uma Liga profissional que permite diferenças brutais entre os que lideram e os que estão a meio e fundo da tabela.

Segundo a consultora especializada Sport Intelligence, em 2018 os clubes da riquíssima Premier League pagavam em média 3.379,520 milhões de euros por mês e ninguém gastava tanto no futebol; a Liga Portuguesa era, digamos, a 15.ª mais gastadora, com uns modestíssimos 307 mil euros por mês, em média. Nesse mesmo ano, as SAD dos três grandes apresentaram os seguintes custos com o pessoal: 6,6 milhões de euros/mês no FC Porto, 6,2 milhões de euros/mês no Sporting e 5,7 milhões de euros/mês no Benfica.

Por outros números: o FC Porto pagou quase 20 vezes mais do que a média dos clubes portugueses.

Ora, o desafio que se coloca é precisamente este: como baixar salários justamente, em bloco, quando as diferenças estão neste ponto? Como é que se faz isto num contexto de profundo desequilíbrio, já denunciado ao Expresso pelo presidente da Liga, Pedro Proença?

Ninguém diz, para já. "A Liga constituiu a comissão de acompanhamento com o Sindicato de Jogadores e, em breve, serão discutidos todos os temas laborais. Entretanto, a Liga estará na expectativa de perceber as orientações laborais, emanadas pelo governo, que podem ser acomodadas pelos clubes do futebol profissional", respondeu a Liga à Tribuna Expresso.