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Como detetar e identificar talento (de Félix a Dodô): o futebol continua, mas agora só online

Enquanto a pandemia nos mantiver em casa, não há futebol nem para adeptos, nem para jogadores, nem para treinadores. Mas há, ainda assim, tempo para discutir e refletir sobre o jogo, através de formações online, como aquela a que a Tribuna Expresso assistiu, em que participaram José Laranjeira, ex-scout do Sporting e do Rio Ave, José Boto, diretor desportivo do Shakhtar Donetsk, e Blessing Lumueno, treinador dos juniores do Estoril

Mariana Cabral

Gualter Fatia

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A meio da formação sobre "deteção e identificação de talentos", surgiu, entre a quase centena de formandos que iam vendo e ouvindo os palestrantes através do Zoom, uma voz inesperada, bem conhecida de quem segue o futebol português de perto: "Primeiro, gostaria de vos agradecer por este dia de partilha. Temos de aproveitar esta situação, dentro do possível, para estudarmos e refletirmos, para ficarmos com o copo mais cheio, profissionalmente e na vida".

As palavras de Renato Paiva, treinador da equipa B do Benfica, ecoam naquilo que é agora o dia-a-dia de quem vive do (para o?) futebol: não pode ir ao balneário, muito menos ao campo, mas pode, mesmo em casa, ir alimentando a mente através de formações online, como a que decorreu na terça-feira ao final do dia.

"Notámos um aumento muito grande na procura, em comparação com as formações presenciais, porque as pessoas estão em casa e com mais tempo disponível", diz à Tribuna Expresso Liliana Fernandes, que criou a empresa Sportrail em outubro de 2016 "para dar resposta às necessidades de formação dos treinadores portugueses", depois de identificada "uma lacuna no mercado da formação contínua em Portugal".

Habitualmente, as formações de futebol da Sportrail são realizadas presencialmente, mas o confinamento de grande parte da população portuguesa (e até mundial) obrigou a empresa a adaptar-se. "Tivemos de nos reorganizar rapidamente, porque tivemos que cancelar todas as formações presenciais que estavam previstas para março e abril, com os consequentes prejuízos económicos derivados de compromissos já assumidos e também do cancelamento de inscrições", explica.

As inscrições são agora feitas apenas para formações online, como a que foi conduzida por José Laranjeira, ex-scout do Sporting e do Rio Ave, com a colaboração de José Boto, diretor desportivo do Shakhtar Donetsk, e de Blessing Lumueno, treinador dos juniores do Estoril Praia (e cronista da Tribuna Expresso), com o objetivo de refletir sobre a procura do talento no futebol, tanto na formação como em seniores.

"O talento potencial pode existir antes do treino, mas o talento real só existe depois disso - não é uma oposição, são ambos importantes, o que nos leva a concluir que só o treino valida o talento", explicou José Laranjeira, acrescentando que há estratégias para fomentá-lo - como a que o Estoril Praia utiliza. "Os miúdos às vezes jogam sozinhos, até entre escalões diferentes, sem os treinadores a darem indicações táticas, para estimular a liberdade", exemplificou Blessing Lumueno, notando que as horas de prática do futebol de rua já não existem, mas podem tentar ser replicadas de outra forma pelos clubes.

Para José Boto, também "tem de ser preocupação dos treinadores desenvolver o talento dos jogadores", já que, se hoje se diz que muitos dos jovens estão a ser "formatados", então é porque os treinadores assim o querem. "Não é o meu caso, nem o do Shakhtar, onde posso dizer que queremos jogadores criativos, que saibam resolver os problemas do jogo sozinhos", explicou o ex-diretor do departamento de scouting do Benfica.

O diretor desportivo do Shakhtar Donetsk defendeu também uma maior preparação dos jovens "para as exigências do futebol profissional", já que muitas vezes "não há paciência" para deixá-los crescer. "É uma falha muito grande dos clubes, que querem logo um rendimento imediato. Depois há pressão dos adeptos e da imprensa e são logo flops, sem se perceber qual é o projeto desportivo para o jogador", explicou.

Gualter Fatia

Boto exemplificou com o caso de Dodô, jovem brasileiro que foi contratado pelo Shakhtar ao Coritiba, em 2017. "Sabíamos que não ia chegar e jogar logo. Esteve seis meses connosco a adaptar-se, o Paulo [Fonseca, então treinador dos ucranianos] reconhecia-lhe potencial, mas ainda não estava à altura para jogar. Então procurámos o empréstimo com determinadas condições: queríamos que ele aprendesse com um treinador que lhe ensinasse o que era a nossa forma de jogar, por isso é que o emprestámos ao Vitória [de Guimarães], naquela altura treinado pelo Luís Castro", contou.

Esta época, já com 21 anos, Dodô regressou à Ucrânia. "Agora joga, já vai à seleção do Brasil e já podíamos ter multiplicado por 20 o valor que pagámos por ele. Tivemos de agarrar nele e ter um projeto, é isto que os clubes devem fazer. Um jogador de 20 anos nunca é um flop", sentenciou.

O scout José Laranjeira também apontou os exemplos de Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Ricardo e Pizzi, jogadores cuja mais-valia é hoje indiscutível, mas que não foram consensuais durante a sua formação - e inclusivamente só começaram a integrar as seleções nacionais já no escalão de sub-19.

"É preciso muita ponderação e muita paciência na formação", aconselhou, com a concordância, novamente, do formando Renato Paiva (entre outros formandos ilustres estavam Pedro Alves, diretor desportivo da SAD do Estoril Praia, e Carlos Silva, diretor do scouting do Farense): "O homem é o homem e o seu contexto. Sabemos como é a 'campionite' e o resultadismo na formação, nem que seja para dizer que se ganhou em sub-8. Eu fui o felizardo que recebeu o João Félix no Benfica e durante dois anos quase não me lembro de vê-lo na seleção, e lembro-me bem de quem jogava no lugar dele. E agora é ver onde ele está".