Tribuna Expresso

Perfil

Atualidade

André Ventura diz que futebol não se mistura com política. Estes senhores e estas senhoras discordam

O deputado do Chega, André Ventura, que se deu a conhecer como comentador de futebol, recomendou a Ricardo Quaresma que não se metesse na política, mantendo os pés assentes na relva e naquilo que sabe fazer. Porém, não faltam exemplos de futebolistas com posições políticas ao longo da história do jogo, de ambos os lados do espectro ideológico

Carlos Luís Ramalhão

Partilhar

Há dias, o deputado do Chega, André Ventura, que se deu a conhecer como comentador de futebol, recomendou a Ricardo Quaresma que não se metesse na política, mantendo os pés assentes na relva e naquilo que sabe fazer. Isso aconteceu depois de uma crítica do futebolista de etnia cigana ao político da direita. Ventura tinha proposto um tratamento específico para a comunidade cigana no confinamento devido ao novo coronavírus. Quaresma, entre críticas e aplausos, recordou um futebolista internacional português que ousou ser político num jogo com a seleção de Espanha e Artur Quaresma, falecido em 2011, foi resgatado ao esquecimento.

Erradamente, Ricardo Quaresma referiu-se ao antigo jogador do Belenenses como seu tio-avô, lapso entretanto corrigido pelo ex-jogador do Sporting e do FC Porto: “O Artur Quaresma não é da minha família mas é irmão de todos nós”. O que Quaresma – Ricardo – fez foi lembrar ao país que há lugar no futebol para pessoas com pensamento político.

Nada de novo, como prova a alusão a Quaresma – Artur – que, efetivamente, a 30 de Janeiro de 1938, frente à Espanha, num jogo marcado para demonstrar a amizade entre os ditadores Salazar e Franco, se recusou a fazer a saudação romana tradicional dos regimes fascistas. Não foi o único, diga-se. Na equipa nacional, os outros belenenses, Simões e Amaro, cerraram os punhos durante a cerimónia dos hinos nacionais. A revista “Stadium”, de 2 de fevereiro do mesmo ano, publica uma fotografia do “incidente” com alguns retoques de censura. O resultado foi a prisão pela PIDE, como o próprio Artur Quaresma lembrou, numa entrevista em 2004, ao “Record”:

"Fomos à PIDE e eles ficaram. Eu, deixando o braço em baixo, disse que me esquecera de o levantar. Não houve mais problemas porque o Belenenses moveu influências. Nunca fui político, mas embirrava com aquelas coisas do fascismo. O Barreiro era foco de comunistas opositores ao regime e eu era amigo de muitos. Mas fiz aquilo sem premeditação, foi um ato natural."

Nem todos serão aplaudidos pela maioria, sendo a política coisa da subjetividade mas há, na história do desporto-rei, muitos exemplos de consciência política. Nesse campo, como na relva, joga-se pela esquerda, pela direita e pelo centro. Alguns há que chegam a usar a sua liberdade para atentar contra a dos outros, mas todos eles têm uma coisa em comum: capacidade crítica para além das quatro linhas.

O alemão vermelho

Bongarts

O alemão Paul Breitner notabilizou-se em campo ao serviço do Bayern de Munique, do Real Madrid e da seleção da RFA (Alemanha Ocidental). Campeão do mundo em 1974, Breitner era um grande defensor da Alemanha unida. Era conhecido pelos adeptos pela atitude “revolucionária”, com opiniões fortes que não calava sobre questões políticas e sociais, num tempo em que o Muro de Berlim ainda estava de pé.

O talentoso defesa e médio chegou a ser visto com o “Pequeno Livro Vermelho” de Mao Zedong debaixo do braço, a caminho dos treinos. Os fãs, que lhe admiravam os cabelos longos e a barba farta, desiludiram-se quando, em 1982, Breitner aceitou um contrato publicitário com uma marca de cosméticos. O jogador recebeu 150.000 marcos para desfazer a barba e recomendar os produtos da marca.

Sócrates Brasileiro

picture alliance

Séculos depois do filósofo grego e décadas antes do líder do PS português, Sócrates era nome de craque no Brasil e no mundo inteiro. Era também nome de médico e de homem com ideias próprias. O “Dr. Sócrates” como lhe chamavam (não só pelo diploma em medicina) jogou pelo seu país em dois mundiais (1982 e 1986) e tornou-se um dos maiores ídolos do Corinthians. Nessa altura, liderou também a chamada “democracia corinthiana”.

O movimento reivindicava mais liberdade para os jogadores e uma maior influência nas decisões administrativas do clube. Com a ajuda do homem do calcanhar inconfundível, os jogadores do “Timão” de São Paulo conseguiram participar na escolha do presidente, para além de ganharem outros privilégios até então inexistentes.

Na década seguinte, Sócrates enfrentou os desafios da ditadura militar e acabou por ir jogar para a Fiorentina, afirmando que teria ficado no Brasil caso os seus compatriotas tivessem o direito de eleger os seus líderes.

O baixinho e o Super Mário

Mark Kolbe

No mesmo país, mais recentemente, dois ex-jogadores decidiram experimentar outros relvados, mais institucionais. Em 2010, Romário foi eleito deputado pelo Partido Socialista Brasileiro. Fez campanha contra a realização do Mundial de 2014 no Brasil, por exemplo. Em 2014, mudou-se para o senado, onde permanece.

Um velho conhecido do futebol português também experimentou a política ativa, embora sem o mesmo sucesso de Romário. Mário Jardel, antigo goleador de FC Porto e Sporting, foi eleito deputado estadual pelo PSD brasileiro, em 2014, mas acabou por ser afastado um ano depois, acusado de peculato, falsificação de documentos ou organização criminosa, entre outros.

O filósofo

David Rogers

Lilian Thuram é outro exemplo de um ex-futebolista com uma posição forte na defesa de várias causas. Embaixador da UNICEF, o francês destaca-se também pelo combate ao racismo e pelas intervenções a favor dos mais desfavorecidos.

Em 2005, quando ainda jogava, tomou uma posição contra Nicolas Sarkozy, então ministro do Interior. O político conservador referira-se aos jovens como “escumalha”. No ano seguinte, 80 pessoas, recentemente expulsas por Sarkozy de um apartamento onde viviam ilegalmente, foram convidadas por Thuram para assistirem ao jogo entre França e Itália.

O antigo jogador de Mónaco, Juventus ou Barcelona participou em manifestações a favor da legalização do casamento entre pessoas do mesmo género e da adoção de crianças por casais homossexuais.

Fascista mas não racista

ANDREAS SOLARO

Do outro lado do espetro político, Paolo Di Canio notabilizou-se pelas atitudes controversas, tanto em Itália como no Reino Unido, onde passou grande parte da carreira como futebolista. Em 2005, o italiano assumia-se como “fascista, mas não racista”. Ficaram famosas as saudações romanas aos adeptos da Lazio. A razão? “Dá-me uma sensação de pertença ao meu povo.”

Di Canio não teve problemas em expressar a sua admiração pelo ditador Benito Mussolini, considerando-o “basicamente um homem de princípios e ética”, como refere na autobiografia de 2001.

Em 2013, ao ser contratado como treinador do Sunderland, levou à demissão o vice-presidente do clube, David Milliband, conhecido membro do Partido Trabalhista e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido.

Os bad boys

Mark Leech/Offside

Em épocas diferentes, mas também em Inglaterra, Eric Cantona e Joey Barton marcaram pelas suas posições vincadas, nem sempre bem recebidas. O primeiro é, ainda hoje, um dos maiores ídolos da história do Manchester United, mesmo depois da controvérsia gerada pelo pontapé num adepto do Crystal Palace, num jogo entre as duas equipas.

Conhecido pelas frases enigmáticas em conferências de imprensa radicalmente diferentes das da maioria dos seus colegas, previa-se-lhe mais intervenção finda a carreira de jogador. Em 2010, Cantona apelou a uma revolução social contra os bancos e encorajou os clientes a retirarem todo o seu dinheiro das instituições financeiras. Em 2012, “Deus”, como é conhecido entre os Red Devils, recolheu assinaturas em solidariedade com a organização de apoio aos sem-abrigo Emmaus e pediu a libertação do futebolista palestiniano Mahmoud Sarsak, preso sem julgamento, em Israel.

O inglês Joey Barton varia um pouco mais as suas posições. Fã do Twitter, os seus comentários citam Nietzsche, George Orwell ou Morrissey, entre muitos outros. Paul Hayward, do “The Daily Telegraph”, escreveu que Barton “é talentoso a fazer com que o observemos a oscilar entre os extremos ‘pensador’ e ‘rufia’”.

O antigo jogador do Manchester City era conhecido pela atitude violenta em campo. Em 2006, Mike Whaley, do “Manchester Evening News” referiu-se-lhe como “o jogador mais sujo da Premier League”.

As suas opiniões variam entre o apoio aos direitos dos homossexuais e à ideia de “privatização da religião”.

O bolsonarista

Miguel Schincariol

Mais controverso do que nunca, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro tem no jogador Felipe Melo um dos mais fervorosos apoiantes. O futebolista do Palmeiras fez questão de dedicar o golo frente à Chapecoense, em 2019, ao líder da nação.

O scotsman

Handout

Mais discreto nas suas posições políticas mas nem por isso menos ativo, Sir Alex Ferguson, antigo jogador e multipremiado treinador do futebol britânico, assume-se como “socialista”. Na verdade, “Fergie”, como é carinhosamente tratado pelos adeptos do Manchester United, é um dos maiores contribuintes privados do Partido Trabalhista. O escocês é também abertamente a favor da permanência da Escócia no Reino Unido.

O independentista

Michael Regan

O também treinador Pep Guardiola nunca escondeu as suas ideias, particularmente no que diz respeito à posição Catalunha face ao centralismo espanhol. O técnico do Manchester City apoia a independência daquela província espanhola, apesar de ter sido 47 vezes internacional pela seleção de Espanha, enquanto jogador. Em 2015, Guardiola colaborou com a coligação pró-independência Junts pel Sí na eleição regional desse ano.

As anti-Trump

Al Bello

Também no futebol feminino e a nível coletivo se faz política. Ao longo dos últimos anos, as jogadoras da seleção americana têm-se envolvido numa luta legal contra a federação do seu país, alegando discriminação de género. O termo de comparação é a sua equivalente no masculino, com muito menos resultados práticos e cheques mais chorudos. Lembre-se que a seleção feminina dos EUA é a atual tetracampeã mundial.

Em 2016, cinco jogadoras da equipa americana processaram a U.S. Soccer Federation. Hope Solo, Carli Lloyd, Alex Morgan, Megan Rapinoe e Becky Sawuerbrunn apoiaram-se na Comissão para a Igualdade de Oportunidades no Emprego para dar visibilidade à sua situação.

Em 2019, antes de defrontar a França nas meias-finais do Mundial, a capitã da equipa, Megan Rapinoe, disse que não iria “à m**** da Casa Branca” caso a seleção fosse campeã do mundo. Os comentários sexistas e misóginos do presidente Trump levaram à tomada de posição da jogadora do OL Reign. A resposta não se fez esperar e Donald Trump recomendou a Rapinoe que “ganhasse primeiro e falasse depois” e que se limitasse a “fazer o seu trabalho”.

A jogadora seguiu o conselho e, com as colegas, venceu o campeonato do mundo pela quarta vez. Já em 2016, Megan tinha-se ajoelhado durante a cerimónia do hino em protesto contra a brutalidade policial nos EUA.