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Bruno de Carvalho desaparece da acusação de Alcochete. Só um terramoto o condenará

Despacho da juíza indicia que vão ser estes os factos dados como provados no acórdão. Ou seja, que há 37 arguidos que vão ser condenados por planearem e executarem a invasão e agressão aos jogadores e técnicos do Sporting. E tanto Bruno de Carvalho, como Nuno 'Mustafá' Mendes e Bruno Jacinto foram retirados da equação pela juíza. MP já tinha pedido a absolvição de Bruno de Carvalho no tribunal de Monsanto

Hugo Franco e Rui Gustavo

Bruno de Carvalho, a ser revistado à entrada do Tribunal de Monsanto.

MÁRIO CRUZ/Lusa

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A juíza Sílvia Pires retirou todos os factos considerados não substanciais da acusação do caso da invasão da Academia do Sporting.

Uma das principais conclusões que se retira do despacho, a que o Expresso teve acesso, é que caem as acusações de que tinha sido alvo o ex-presidente do Sporting Bruno de Carvalho, algo que já tinha ficado implícito durante a fase de julgamento que se realizou no tribunal de Monsanto, em Lisboa, pouco antes da pandemia. O MP tinha já pedido a sua absolvição.

Também o líder da Juventude Leonina, Nuno 'Mustafá' Mendes, e o ex-oficial de ligação do Sporting com os adeptos, Bruno Jacinto, ficam agora mais próximos da absolvição.

Este despacho da juíza indicia que vão ser estes os factos dados como provados no acórdão. Ou seja, que há 37 arguidos que vão ser condenados por planearem e executarem a invasão e agressão aos jogadores e técnicos do Sporting. E tanto Bruno de Carvalho, como Nuno 'Mustafá' Mendes e Bruno Jacinto foram retirados da equação pela juíza.

Teoricamente o despacho não iliba totalmente o ex-presidente do Sporting mas em nenhum momento do documento a juíza refere a sua autoria moral no episódio de violência em Alcochete.

"A retirada da acusação de todos os meios de prova nela contidos (conversações nos grupos de WhatsApp, autos de apreensão, autos de exame, BTS das antenas que cobrem a área geográfica do Lidl do Montijo e da academia) acarreta, necessariamente, a tradução factual da mesma, bem como, atenta a prova produzida em sede de audiência de julgamento e a constante dos autos, resultaram concretizadas algumas condutas dos arguidos, várias, inclusive, emergentes das próprias declarações dos mesmos em sede de julgamento", pode ler-se no início do documento.

"Por outro lado, a forma de redação da acusação com alguma matéria repetida e sobreposta, misturando factos objectivos e elemento subjectivo dos vários tipos de ilícito, exige também que a mesma seja ordenada de forma cronológica."

O despacho inicia-se com o post polémico de Bruno de Carvalho, logo depois do jogo do Sporting contra o Atlético de Madrid. Nele, o ex-presidente leonino criticou a postura de alguns dos jogadores em Madrid, algo que viria a causar revolta no balneário contra o então dirigente máximo do Sporting.

No entanto, e apesar de sem referida a célebre reunião de Bruno de Carvalho com a claque na sede da Juventude Leonina, a 7 de abril de 2018, a juíza é omissa sobre a autoria moral do ataque ao centro de treinos de Alcochete a 15 de maio de 2018.

"Nesta reunião os presentes discutiram as publicações nas redes socias feitas pelo arguido Bruno de Carvalho, criticando a postura do presidente do clube em criticar publicamente os jogadores, bem como criticaram os resultados da equipa profissional de futebol e a falta de empenhamento dos jogadores, discutindo formas de apoio à equipa, como cânticos, tarjas e/ou uma visita à academia. No final da reunião o arguido Bruno de Carvalho disse “Façam o que quiserem e depois digam”.

A juíza é clara. A invasão foi preparada por 37 arguidos, "todos adeptos do SCP, [que] acordaram entre si e decidiram invadir a Academia do Sporting Clube de Portugal, em Alcochete, no dia 15/05/2018, no período da tarde, de forma a abordar os jogadores e o treinador da equipa profissional de futebol do SCP durante o treino e aí os intimidar, por palavras e actos, e agredir, assim os punindo pela sua atitude e falta do cumprimento dos objectivos da época".

O documento refere ainda que "os arguidos, sob a égide de um plano previamente gizado entre todos, em comunhão de esforços e de intentos, entraram, de rompante, pelo portão principal da Academia do Sporting".

Agressões e os seus protagonistas

Sílvia Pires enumera alguns dos principais episódios de violência no interior da Academia, já com os nomes de alguns dos suspeitos, alguns deles que confessaram os crimes de que eram acusados. "O arguido Ruben Marques, ao entrar no balneário, no corredor perto da “sala das botas”, avistou o jogador Bas Dost e desferiu-lhe um golpe com o cinto que tinha na mão (mais concretamente com a fivela do cinto), atingindo-o na cabeça e provocando-lhe uma ferida incisa e contusa na região frontal, com sangramento dessa zona do corpo, em consequência da qual este caiu ao solo. Já prostrado no solo, o jogador Bas Dost foi alvo de um número indeterminado de pontapés em várias partes do corpo, desferidos pelo arguido Rúben Marques e por outro dos arguidos."

Outro episódio que envolveu o jogador William de Carvalho também refere o nome de um dos arguidos. "O jogador William de Carvalho foi abordado por, pelo menos, três arguidos que o rodearam, um dos quais o arguido Miguel Ferrão que lhe agarrou no braço, torcendo-o atrás das costas, e os outros desferiram-lhe socos no peito e nas costas, causando-lhe dor, ao mesmo tempo que lhe diziam “não és digno de usar a camisola”, “tira a camisola”, “queres ir embora filho da puta, partimos-te a boca toda”.

Já nas agressões ao guarda-redes Rui Patrício não foi possível identificar os agressores que agiram de cara tapada. "Rui Patrício foi abordado, agarrado e empurrado por, pelo menos, quatro arguidos, que também lhe desferiram socos no peito e um deles agarrou-o num braço tentando torcê-lo, causando-lhe dor, ao mesmo tempo que lhe diziam “filho da puta”, “queres te ir embora, parto-te a boca toda”.

Na acusação formulada pela procuradora Cândida Vilar, de novembro de 2018, era referido que "Bruno Jacinto, Bruno de Carvalho e Nuno Mendes conheciam o plano delineado pelos restantes primeiros 41 arguidos e determinaram-nos à prática dos crimes de ameaça, ofensa à integridade física e sequestro." O MP escrevia então que estes três arguidos "nada fizeram para impedir a prática de tais atos violentos… tanto mais que durante as reuniões em que estiveram presentes criticaram sucessivamente os jogadores, potenciando um clima de violência".