Tribuna Expresso

Perfil

Atualidade

Caíram estátuas, caíram bandeiras. Agora, a morte de George Floyd pode fazer finalmente cair o nome dos Washington Redskins

Há décadas que a equipa da NFL é pressionada para mudar de nome, por usar um termo considerado ofensivo pelos Americanos Nativos. O ressurgir em força dos movimentos sociais nos Estados Unidos, após a morte do afro-americano, vítima de brutalidade policial, juntou agora os patrocinadores e acionistas da equipa à opinião pública. Os proprietários dos Redskins anunciaram que vão, para já, rever a utilização da alcunha, mas o processo já não parece ter retorno

Lídia Paralta Gomes

Will Newton/Getty

Partilhar

Os acontecimentos traumáticos são muitas vezes catalisadores de mudança social e a trágica morte de George Floyd, vítima de brutalidade policial, em Minneapolis, uniu milhares de vozes e caras por todo o planeta, juntos pelo fim da discriminação racial. O caminho é longo, mas as manifestações pela justiça social que percorreram os Estados Unidos já levaram a ações concretas, como a retirada de estátuas de líderes dos estados confederados ou a revisão da bandeira do Mississippi, precisamente por até hoje ainda conter símbolos ligados à confederação. A bandeira da confederação, associada ao racismo e à escravatura, foi também proibida nas corridas de NASCAR, competição cuja popularidade reside essencialmente no sul dos Estados Unidos.

E é neste terreno propício ao debate sobre os direitos sociais e racismo sistémico nos Estados Unidos que uma das questões mais discutidas nas últimas décadas na NFL poderá finalmente ter resolução. Pela primeira vez, os proprietários dos Washington Redskins abriram a porta a uma possível mudança de nome - "Redskin" ("pele-vermelha") é um termo considerado racista e estigmatizante para os Americanos Nativos - com as pressões a chegarem agora não só do público, como dos próprios acionistas e patrocinadores da equipa da capital norte-americana.

A discussão chega também numa altura em que a NFL muda o discurso acerca da questão racial: depois de ostracizar Colin Kaepernick por se ajoelhar durante o hino nacional, em protesto contra o racismo e violência policial, a liga de futebol americano desculpou-se após a morte de George Floyd, incentivando os jogadores a protestarem pela justiça social.

Desde os anos 80 que o nome dos Redskins é discutido nos Estados Unidos, com os protestos a subirem de tom durante a época de 1991, quando a equipa de Washington DC foi campeã do Super Bowl. No início do século, várias ações em tribunal acabaram sem efeito, tal como nova onda de protestos em 2013, quando centenas de elementos da comunidade de Americanos Nativos concertou manifestações durante os jogos fora da equipa. Nesse mesmo ano, o então presidente Barack Obama defendeu a mudança de nome dos Redskins e um ano depois um grupo de 50 senadores, todos democratas, enviou uma carta à NFL a mostrar desagrado pelo facto da liga continuar a permitir a utilização de um termo considerado ofensivo.

Está nas mãos deste homem, Dan Snyder, mudar a história dos Redskins

Está nas mãos deste homem, Dan Snyder, mudar a história dos Redskins

Timothy T Ludwig/Getty

Não só nenhuma das pressões políticas surtiu efeito, como Dan Snyder, dono dos Redskins desde 1999, sublinhou então em entrevista ao jornal "USA Today", com palavras fortes, que nada iria mudar a história da equipa. "Nunca vamos mudar de nome. É assim de simples. NUNCA - podem escrever com letras grandes", disse o proprietário. E o jornal escreveu.

Sete anos depois, o NUNCA poderá tornar-se num AGORA, mas só a pressão do dinheiro parece ter deixado Snyder encostado à parede. A FedEx, um dos principais patrocinadores da equipa, que dá nome ao estádio e cujo proprietário é dono de 10% das ações dos Redskins, foi a primeira grande corporação a defender a mudança de nome. Seguiram-se a Nike, que retirou todos os produtos dos Redskins da sua loja on-line - de acordo com o portal "The Athletic", estes só voltarão caso a equipa mude definitivamente de nome - e a última grande empresa a manifestar-se a favor de da mudança foi a PepsiCo.

Face ao cerco, no final da última semana os Redskins anunciaram em comunicado que vão "iniciar uma revisão do nome da equipa". Um primeiro passo, que pode não ser definitivo, embora o "USA Today", citando fontes dentro da cúpula dos Redskins, avance que o processo já não tem por onde parar.

Corrigir a história

A história dos Redskins começa no início dos anos 30 ainda em Boston, quando tinham o nome de Braves. Em 1933, ganharam a alcunha de Redskins, que mantiveram quando a equipa se mudou para Washington DC. Nessa altura, o fundador e dono dos Redskins era George Preston Marshall, defensor da segregação racial e o último proprietário da NFL a permitir negros na equipa. Tal só aconteceu em 1962 e por pressão do governo. A estátua de Marshall foi entretanto retirada das imediações do antigo estádio dos Redskins.

Os novos proprietários têm agora uma oportunidade de ficar do lado certo da história. Roger Goodell, comissário da NFL e que ainda há dois anos frisou que não iria pressionar Dan Snyder a mudar o nome da equipa, reagiu rapidamente à formalizada intenção de Snyder rever a utilização do termo "Redskins", sublinhando, em comunicado, o "passo importante" que está a ser dado pela formação de Washington. O treinador principal dos Redskins, Ron Rivera, defendeu também a mudança de nome e ao "Washington Post" frisou que seria "fantástico" se tal acontecesse já antes do início da época de 2020.

A única figura de relevo que se manifestou contra esta decisão histórica? The one and only Donald Trump, que no seu inflamado e habitual estilo, utilizou o Twitter para acusar não só os Redskins como os Cleveland Indians, da liga de basebol e que também poderão estar perto de deixar de utilizar a nomenclatura, de ceder ao "politicamente correto".