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Exclusivo. Ricardo dos Santos: “Não estamos à procura de dinheiro. Queremos que o público saiba que os polícias, aqui, mentem”

O atleta português diz que a polícia não pediu desculpa porque se o fizesse estava a reconhecer culpa na conduta que teve com ele e com a sua família

Alexandra Simões de Abreu

JUERGEN MATTIS/EPA

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Ricardo dos Santos vai manter a queixa e já tem um advogado a tratar do assunto, apesar de Cressida Dick, comissária da Polícia Metropolitana de Londres, ter afirmado perante uma comissão independente do governo inglês que um dos agentes desta força policial pediu desculpa a Bianca Williams, companheira do português, pela "angústia que claramente lhe foi causada". A atleta, como já foi noticiado, foi algemada após uma operação policial em que o casal foi mandado parar quando seguia de carro para casa com o filho de apenas três meses.

O atleta afirma que “a polícia não reconheceu que cometeu um erro e continua a afirmar que tudo o que fizeram foi correto, o que não é verdade”. Garante que não está atrás de dinheiro, nem de indemnizações e que o seu principal objetivo é que a polícia “reconheça o ato de racismo que praticou e, sobretudo, mude a sua forma de atuação”. “Queremos que o público saiba que os policias aqui mentem, quando eles próprios sabem que estão errados e a mentir. Há muitas pessoas que sofrem o que nós sofremos e que não têm voz. Como nós temos, queremos mostrar que a forma como a policia atua não é correta e é racista. Não estamos atrás de dinheiro, apenas de justiça”, explicou ao Expresso.

Tudo aconteceu sábado passado: Ricardo dos Santos, recordista nacional dos 400 metros, preparava-se para ir para casa depois do treino, quando, devido ao trânsito e a cinco minutos do local, resolveu mudar o trajeto, com a mulher e o filho bebé no banco de trás, num percurso que acabou em 'perseguição' pela polícia. Os dois atletas acabaram imobilizados, com a polícia a justificar a ação, primeiro, alegando que o atleta teria entrado em contramão, e depois com uma busca para detetar drogas. Ricardo reafirma que nunca andou em sentido contrário e que o vai provar no processo que decorre da queixa apresentada contra a polícia.

Esta já não é a primeira vez que o atleta foi mandado parar e algemado. O próprio treinador de Ricardo, Linford Christie, um dos maiores nomes do atletismo britânico, campeão olímpico e mundial dos 100 metros, em 1992 e 1993, respetivamente, publicou no seu Instagram um vídeo do incidente, acusando a polícia de “abuso de poder”, acrescentando que foi o segundo incidente em dois meses.

“Nas últimas duas vezes estava sozinho e também me algemaram. Numa das vezes disseram que o carro era suspeito e na outra que eu estava a beber. Mas eu nunca bebi. E eles nem sequer fizeram o teste”. Desta vez, a polícia suspeitava do uso de drogas, mas também não fez qualquer exame, com o atleta a sublinhar que “dizem qualquer coisa para justificar a ação deles; têm de arranjar uma desculpa para mandar parar”.

No passado sábado Ricardo diz que viu o carro da polícia atrás dele, mas que não tinha as luzes ligadas. “Só parei junto de casa, a própria lei diz que só deves parar quando achas que é seguro e foi isso que eu fiz. Antes disso não me mandaram parar nem acenderam as luzes. Eu parei porque cheguei a casa”.

Sobre o facto de haver problemas no bairro residencial de Maida Vale, Ricardo garante que na zona onde vive não há problemas, que “é mais uma mentira da polícia, porque as confusões surgem numa zona a cinco minutos daquela onde vivo”.

Em jeito de conclusão o atleta de origem angolana diz: “Queremos que o sistema mude, porque a forma como eles nos tratam não é justa. Vamos provar que não fizemos nada de errado. Aliás, se estivesse a conduzir em sentido contrário ou algo parecido eu ia ser multado, ficar sem carta e carro e era preso. Nada disso aconteceu. Alguém está a mentir e sei que não sou eu.”

O incidente não afetou a preparação dos atletas, uma vez que tanto Ricardo como Bianca, também velocista, fazem questão de “não levar os problemas para a pista”. No próximo ano, Ricardo quer estar presente nos campeonatos da Europa e do Mundo de pista coberta, mas o principal objetivo são os Jogos Olímpicos, no Japão.