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Rui Santos sobre o Play Off: “O Rodolfo tem uma graça genuína e sempre se destacou pelos fatos ou pelas caneladas. Mas, ultimamente...”

A Tribuna Expresso fez três perguntas ao comentador da SIC Notícias a propósito do fim do programa Playoff, no qual participava, para a realização de um trabalho para o semanário Expresso, de 3 de agosto. Na íntegra, aqui vão as respostas

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Concorda com a ideia de toxicidade do Play Off?
O Play Off era um programa de sucesso na grelha da SIC, é preciso dizê-lo, mas ultimamente foram ultrapassados todos os limites. Quero lembrar que o Play Off teve como propósito, inicialmente, juntar três jogadores consagrados da mesma geração, no caso concreto António Oliveira (em representação do FC Porto), Toni (Benfica) e Manuel Fernandes (Sporting), que se me juntavam como autor e comentador do Tempo Extra, que durante anos ocupou aquela faixa da grelha aos domingos, à noite, com o João Abreu a moderar — e bem. A ideia era juntar o conhecimento e o saber prático de quem esteve ‘lá dentro’ durante anos com quem sempre trabalhou junto do futebol, desde 1976, que era o meu caso. A ideia, creio, resultou em cheio. Vi por lá passarem, entretanto, o João Alves, o António Simões, o Rodolfo, o Inácio (que substituiu por um tempo o Manuel Fernandes) e, mais recentemente, o Ricardo Rocha. O programa foi um sucesso, dizia, porque tornou-se possível combinar visões distintas do futebol, e portanto nunca esteve em causa a divergência de opiniões, que é sempre salutar e a SIC Notícias sempre foi um canal plural e um exemplo raro de igualar nesse aspecto. Nos últimos tempos, porém, passou a ser difícil a coexistência e o debate de ideias, porque o programa estava a ser dominado por uma estratégia de confronto premeditado e de cerceamento do tempo de intervenção de cada um dos participantes e passou a ser notória que essa estratégia era desenhada e fomentada de fora para dentro. O Playoff ficou infectado e perdeu-se a genuinidade do debate e até a química existente entre todos. O Playoff teve claramente dois ciclos: um virtuoso, respeitável e exemplar; e outro tortuoso, detestável e tóxico.

Como é estar num programa de adeptos, enquanto jornalista?
O caso do Playoff é muito particular porque não estávamos perante adeptos-adeptos; estávamos perante ex-profissionais-adeptos. A experiência foi, durante muito tempo, prazenteira e enriquecedora, com troca de saberes e experiências. Chegámos a ter, com todos reunidos, momentos de convívio muito interessantes e, independentemente do que o futuro reservar, quero guardar na memória o melhor desses momentos, entre gargalhadas e manifestações de simpatia e até de amizade. Eu já conhecia todos os participantes e cheguei-os a entrevistar, eu enquanto jornalista no terreno e eles (Oliveira, Rodolfo, Manuel Fernandes, Toni e João Alves) enquanto jogadores e treinadores e, portanto, foi um reencontro muito estimulante. A experiência ficará para sempre na memória e no coração.

Sentiu que os seus colegas de painel foram, alguma vez, pressionados por clubes?
Durante muito tempo — e essa foi a marca de sucesso do Playoff — estavam ali protagonistas do futebol basicamente a pensar pela sua cabeça. O Rodolfo é um caso muito particular: tem uma graça genuína e sempre gostou de se destacar, ou através das caneladas ou dos casacos (risos); enquanto foi ele, capaz de elogiar e criticar o FC Porto, capaz de elogiar e criticar o Benfica, o programa teve momentos altíssimos de animação, humor e análise. Ultimamente, porém, as coisas haviam mudado e ele é o próprio a reconhecer que ultrapassou muitas vezes os limites, em nome de um poder que não deve tomar conta das televisões. Lamento muito que o Playoff tenha acabado, até pela amizade que construí também com o Manel e o Ricardo, mas — não havendo culpados, individualmente — compreendo a decisão histórica da Direcção de Informação da SIC e espero que ela seja um contributo precioso para o processo de desintoxicação a que o futebol precisa de se submeter. Esse processo não estará, todavia, concluído, enquanto as Direcções de Comunicação dos clubes (a norte e a sul) não se convencerem de que o seu papel não é tutelar, controlar ou condicionar a opinião das pessoas, sejam adeptos ou não. O futebol está cheio de amarras e precisa de viver em liberdade. O futebol tem um papel importante na vida e nas televisões mas não ao ponto de nos fazerem de escravos.