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Fundo de Resolução manda Novo Banco acelerar auditoria a créditos da Promovalor, de Vieira

Além do atraso de quase dois anos, o Novo Banco encontrou um novo obstáculo na averiguação aos créditos à Promovalor: selecionou a PwC, auditora do Benfica, para auditar esses empréstimos. Só que como há um potencial conflito de interesses, vai ter de ir à procura de alternativa

Diogo Cavaleiro

Armando Franca

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O Fundo de Resolução quer que o Novo Banco acelere a auditoria especial aos créditos à Promovalor, de Luís Filipe Vieira, e já deu conta disso à instituição financeira. Um aviso deixado depois de o banco enfrentar problemas na seleção de quem será a entidade responsável por esse trabalho. E um dos obstáculos é precisamente o facto de a primeira auditora escolhida ser a entidade que audita as contas do Benfica.

“O Fundo de Resolução considera muito importante que a auditoria em causa seja realizada e concluída com a brevidade possível, pelo que já transmitiu ao Novo Banco que importa acelerar os trabalhos nesse sentido”, revela, em respostas ao Expresso, o veículo que funciona junto do Banco de Portugal e que está responsável por cobrir perdas no conjunto de ativos problemáticos do banco, como o da Promovalor.

A Promovalor é o grupo económico de Vieira que terá causado perdas de 225 milhões de euros ao Novo Banco, de acordo com a citação que o Correio da Manhã fez da versão confidencial da auditoria especial da Deloitte à instituição financeira. Este grupo chegou a acordo com o Novo Banco para a reestruturação da dívida no fim de 2017, sendo que posteriormente os ativos foram transferidos para um fundo, o FIAE, da Capital Criaivo (C2), que tem Nuno Gaioso Ribeiro, administrador do Benfica, como CEO. Os ativos que a Promovalor tinha em Portugal e Moçambique foram integrados no FIAE em dezembro de 2018, mas os do Brasil somente em dezembro de 2019.

António Ramalho defendeu, na sua audição desta semana na comissão de Orçamento e Finanças, que não houve nenhum aumento de exposição perante o devedor. O que aconteceu, disse, foi a entrada de ativos no fundo que não tinham sido anteriormente transferidos, e que isso até permitiu aumentar as garantias: “é uma reestruturação que aumenta a capacidade de recuperação, com garantias reais sobre dois ativos situados fora de Portugal”.

Separar duas auditorias

A explicação não foi suficiente para o acionista minoritário do banco, que já foi chamado a colocar 3 mil milhões de euros do escudo de €3,89 mil milhões que pode ter de utilizar para capitalizar o Novo Banco. Como assumiu o presidente Luís Máximo dos Santos no Parlamento, o Fundo de Resolução teve dúvidas sobre a forma como decorria a ligação do banco à Promovalor e solicitou uma auditoria específica a esta exposição, em dezembro de 2018.

Ao Expresso, o Fundo de Resolução explica que tinha dois objetivos: uma parte de auditoria à concessão e recuperação dos créditos; e uma outra parcela de auditoria independente sobre a operação de reestruturação, para “obter uma opinião sobre os seus méritos, sobre o plano de negócios do fundo que foi constituído, e sobre as expetativas de recuperabilidade associadas”.

A gestão liderada por António Ramalho incluiu a primeira parte na auditoria já em curso pela Deloitte, que estava a realizar esse exercício por conta da legislação da transparência na banca (obriga a que seja feita uma auditoria especial quando há entrada de dinheiro dos contribuintes, como tem acontecido no Novo Banco, documento que foi conhecido nas últimas semanas). Mas ficou a faltar a segunda parte: a dos méritos desta recuperação.

O Novo Banco decidiu que deveria esperar pela auditoria da Deloitte até avançar com a segunda – o que atrasou este trabalho por quase dois anos.

Luís Máximo dos Santos é vice-governador do Banco de Portugal, presidente do Fundo de Resolução e do Fundo de Garantia de Depósitos. Quer rapidez na auditoria à exposição do Novo Banco à Promovalor

Luís Máximo dos Santos é vice-governador do Banco de Portugal, presidente do Fundo de Resolução e do Fundo de Garantia de Depósitos. Quer rapidez na auditoria à exposição do Novo Banco à Promovalor

Alberto Frias

Banco seleciona auditora do Benfica para auditar créditos a Vieira

Sendo assim, só agora estão a ser iniciados os trabalhos. E com dificuldades. A PwC foi a auditora mais bem qualificada para realizar esta auditoria. Só que a seleção tem um problema: é a PwC que audita as contas da SAD do Benfica, presidida por Luís Filipe Vieira.

Esse potencial conflito de interesses obrigou a uma mudança de planos. O Novo Banco não comenta, mas o Fundo de Resolução assume que “tomou conhecimento das diligências promovidas pelo Novo Banco para dar resposta ao seu pedido e concorda que não é adequado, dadas as concretas circunstâncias, que a análise seja realizada pela PwC”. “Isso mesmo foi transmitido pelo Fundo de Resolução ao Novo Banco”, continua a entidade liderada por Luís Máximo dos Santos.

“De acordo com as nossas regras profissionais e de confidencialidade, não comentamos os trabalhos que realizamos para os nossos clientes, assim como as propostas apresentadas”, respondeu a PwC ao Expresso.

Gestão de António Ramalho escolheu PwC para auditar créditos à Promovalor. Só que PwC é auditora do Benfica. É preciso uma outra escolha

Gestão de António Ramalho escolheu PwC para auditar créditos à Promovalor. Só que PwC é auditora do Benfica. É preciso uma outra escolha

Alberto frias

Procura de nova auditora

Por tudo isto, é preciso encontrar outra auditora. O Jornal Económico lembra hoje que há um problema na selecção: o Novo Banco não vai poder escolher uma das outras grandes auditoras, as designadas “Big Four” da auditoria. Primeiro, porque a KPMG foi a auditora do BES (e até condenada por esse trabalho pelo Banco de Portugal, agora em discussão no tribunal), e depois porque a EY é a atual auditora do Novo Banco. Já a Deloitte realizou a outra parte da auditoria. A publicação adianta que a escolha terá de ser entre a Baker Tilly, a BDO e a Mazars.

É neste contexto que o Fundo de Resolução pede rapidez, mesmo compreendendo que a auditoria especial que a Deloitte realizou, à luz da legislação da transparência da banca, “exigiu uma enorme disponibilidade e trabalho da parte dos serviços do Novo Banco, que se concentrou nesses esforços”.

Não ficará por aqui: no Parlamento prepara-se uma comissão de inquérito ao Novo Banco e à atual gestão da instituição.