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Joguei quatro vezes contra Maradona. E esta é a história que tenho para vos contar (por Carlos Xavier)

O antigo médio português recorda momentos geniais de Diego, que fazia possível o impossível, porque era um génio inigualável que foi pouco protegido e mal aconselhado. E lembra também o coração grande do argentino que hoje parou

Carlos Xavier (Depoimento recolhido por Lídia Paralta Gomes)

D.R. Três médios, dois homens, um só deus

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Joguei quatro vezes contra o Maradona. Duas no Sporting e depois quando estava na Real Sociedad. No primeiro jogo, em Alvalade, fui substituído e minutos depois ele entrou. Ele disse que só entrava quando eu saísse [risos]. Então eu tive de sair. Acabei por não estar em campo com ele, mas estive no mesmo jogo, fiz parte da mesma ficha de jogo, portanto... já é bom ter estado lá a vê-lo ao vivo. Em Nápoles não jogo, fico no banco mas deu para perceber toda a sua genialidade e movimentação a jogar. E já era uma altura em que ele já estava a acabar a carreira no Nápoles. Depois vai para o Sevilha. Foi para a festa.

Recordo-me que essa eliminatória com o Sporting para a UEFA já foi numa fase em que ele já estava para sair do Nápoles. Em Alvalade ficou no banco, porque estava um bocado gordito, mas todo o estádio gritava pelo nome dele e ele teve de entrar, obviamente. Mesmo assim tinha um toque de bola... tudo o que ele fazia com a bola era de génio, era admirável. No segundo jogo, no San Paolo, o ambiente era tremendo. Ele era um deus para eles. Era e vai continuar a ser. Tanto que até tem um igreja no nome dele, o Maradona virou religião.

Há um episódio engraçado, quando eu estava em Espanha. Fomos jogar a Sevilha e cruzamo-nos quase a entrar em campo, ele sempre muito simpático, a rir-se para toda a gente, dizia 'olá', 'boa tarde' a todos. E eu aproveitei e disse-lhe: 'Diego, já tenho uma camisola tua do Nápoles mas gostava de ter outra'. E ele: 'Sim senhor, não há problema, no final trocamos'. Tive sorte, fui logo o primeiro a pedir. Mas durante o jogo o Bilardo, treinador argentino do Sevilha, tirou-o e ele até sair do campo veio a chamar-lhe os nomes todos possíveis e imaginários. E eu pensei: 'A camisola lá foi'. Acaba a jogo e ele apareceu com a camisola na mão para me dar. Nunca mais me esqueci desse pormenor dele. Ele tinha um coração tremendo.

A camisola que tenho dele do Nápoles tem uma história curiosa. Ele em Alvalade jogou com o número 16, porque não foi titular e os jogadores titulares usavam do 1 ao 11 e não havia nomes nas camisolas. E eu, macaco, troquei de camisola com o número 10, que nesse dia era o Massimo Mauro. Em todo o caso, o número 10 tenho-o eu!

Ele podia ser um génio, mas tinha esse lado humano fantástico. Depois mais tarde, no futebol de praia, joguei contra a seleção argentina, que tinha vários colegas dele e todos diziam que um coração como o dele mais ninguém tinha. Para mim, era o meu ídolo. Era o número 1. Eu tinha dois ídolos: o Jordão em Portugal e lá fora era o Maradona. Na altura não havia melhor que ele, era impossível. Era um génio, fazia tudo bem feito e tudo o que fazia parecia fácil. E não era nada fácil.

Eu costumo dizer que até os inimigos do Maradona gostavam dele. É pena ele não ter nascido nesta altura. Hoje os jogadores são muito mais protegidos, resguardados e aconselhados.”