Reportagem. Em Buenos Aires, os argentinos velaram Maradona, que amou furiosamente e só quis ser amado
Uma multidão passou a noite em vigília e festa na Praça de Maio à espera do melhor lugar para entrar no Palácio do Governo argentino para se despedir o ídolo. Antes, durante a madrugada, o corpo do ex-jogador atravessou a cidade enquanto as pessoas aplaudiam a caravana pelo caminho, assim como quando Maradona voltou campeão em 1986 ou vice, em 1990. Todos os estádios do país acenderam as luzes e as pessoas foram às janelas a aplaudir
26.11.2020 às 9h15
Tomas Cuesta
Partilhar
Durante a madrugada portenha, o corpo de Diego Armando Maradona chegou à Casa Rosada, o palácio do Governo, onde nesta quinta-feira uma multidão calculada em um milhão de pessoas pretenda despedir-se do maior ídolo do futebol argentino.
Os portões serão abertos às 6h (9h em Lisboa) e fechados às 16 horas (19 horas em Lisboa), embora não se tenha certeza se o horário não será estendido ou mesmo se haverá um segundo dia para a despedida popular.
"Tudo vai depender da decisão da família, de Claudia Villafañe (ex-esposa) e de Dalma e Giannina (filhas). Elas vão definir a duração do velório", anunciou o presidente Alberto Fernández.
O horário de abertura estava previsto para as oito, mas foi antecipado duas horas. Um movimento que poderia indicar que o objetivo da família é limitar o velório a apenas um dia.
picture alliance
Antes da abertura dos portões da Casa Rosada, durante a madrugada, a família velou o corpo em companhia dos amigos mais íntimos e de ex-técnicos e jogadores, como os campeões de 1986.
Buenos Aires não dormiu
Quando o cortejo fúnebre chegou, a multidão na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, explodiu em cânticos, gritos e fogos de artifício. Ao longo de toda a noite e madrugada, a Praça, transformada numa gigantesca arquibancada popular agitou bandeiras, faixas e gritos em torno de duas palavras repetidas incessantemente: Diego e Maradona.
Apesar de a Argentina ser um dos países com maior contágio e mortes por coronavírus do mundo, não houve distanciamento social e muitos não usaram a máscara obrigatória em Buenos Aires.
A previsão é que a fila para despedir Maradona se estenda por mais de um quilómetro num momento histórico só comparável às mortes de Carlos Gardel, Juan Domingo Perón ou Eva Duarte de Perón, a Evita.
"A morte de Maradona poderia ser comparada com a morte de Perón ou mesmo de Gardel. Sempre se imaginou que o funeral de Maradona geraria algo muito forte no país. Não sabemos o que vai acontecer neste período de pandemia, mas o funeral de Maradona é um fenómeno de massas. Estamos a falar dos grandes mitos populares argentinos", compara ao Expresso o sociólogo Pablo Alabarces, um dos fundadores da sociologia do desporto na América Latina e considerado um "maradoniano", dados os seus estudos sobre o fenómeno popular em torno do ex-jogador.
Antes de chegar à Casa Rosada, o corpo de Maradona foi da morte a uma casa funerária para a preparação final. O trajeto de 24 quilómetros foi acompanhado por uma esteira de torcedores. À medida que a caravana atravessava a capital argentina, as pessoas à beira de ruas e avenidas aplaudiam e emocionavam-se com a homenagem derradeira.
Foi o mesmo comportamento visto em 1986, quando a seleção argentina de futebol, liderada pelo capitão Maradona, voltou vitoriosa do México. Também quando a seleção retornou vice-campeã da Itália em 1990.
Estádios acesos e aplausos das janelas
Ao longo da noite, em pontos estratégicos e representativos da história de Maradona as pessoas deixaram oferendas e preces. Aconteceu, por exemplo, à porta do clube Argentinos Juniors, onde pequenos altares com velas, flores, fotos e bandeiras foram armados pelo acúmulo de homenagens.
O tradicional "D10s" por "Dios" em espanhol (Deus) e o número 10 de Maradona tornou-se "Ad10s" (Adeus).
Às dez da noite, o estádio onde Maradona se estreou em 1976 - e que hoje tem o seu nome - soltou fogos de artifício e abriu as portas para milhares de fãs que não paravam de cantar.
Todos os estádios da Argentina acenderam as luzes como se iluminassem o palco para mais um espetáculo do futebol comandado por Maradona.
Das janelas, as pessoas aplaudiam, assim como faziam nos primeiros meses da pandemia em homenagem ao pessoal de saúde.
O que Maradona esperava do seu funeral
Em 2005, no programa "La noche del 10" (A noite do 10) apresentado por Maradona, o jogador fez uma entrevista consigo mesmo, usando um sósia."
picture alliance
Se você tivesse que dizer umas palavras no cemitério ao Maradona, o que diria?", perguntou Maradona a si mesmo. "Obrigado por ter jogado futebol porque é o desporto que mais alegria me deu. Foi como tocar o céu com as mãos, graças a bola", respondeu o próprio Maradona, acrescentando: "Eu colocaria na lápide: Obrigado à bola".
"E o que você gostaria que a Claudia (ex-esposa) dissesse nessa despedida?", indagou Maradona a si mesmo. "Ainda que estejas morto, continuo a amar-te", respondeu Maradona. "E o que você gostaria que as suas filhas dissessem?", avançou Maradona a si mesmo. "Nós te amamos, pai", respondeu Maradona sobre o dia do seu próprio funeral.
Relacionados
- Atualidade
Alejandro Sabella internado depois de ficar "muito afetado" com a morte de Maradona
Antigo selecionador argentino foi internado depois de saber da morte de Diego Maradona
-
AtualidadeAdvogado de Maradona diz que houve negligência: "A ambulância demorou mais de meia-hora a chegar, o que foi uma idiotice criminosa"
Matías Morla diz que vai pedir que haja uma "investigação até às últimas consequências", sobre o que considera ter sido uma chegada tardia da assistência médica a Maradona
-
AtualidadeMaradona. “O movimento começou por volta das 11 horas. Chamaram o médico do condomínio”: relato da “dor profunda” dos argentinos
Um texto da Argentina, sobre os argentinos que sofrem aquele a quem chamaram Diós, no dia da sua partida
-
AtualidadeMaradona foi amado em vida. O mito virá com a morte: o texto para encerrar o dia em que deus nos olhou nos olhos pela última vez
A hora e a causa do óbito, o cortejo policial, as reações emocionais que cruzam gerações, as devoções dos clubes por onde passou, o elogio presidencial, o luto nacional, um jogo que não se realiza e uma realidade que mudou para sempre quando o coração de Maradona parou numa manhã, em Tigre, cidade a norte de Buenos Aires
- Atualidade
Deus não é eterno e omnipresente: é Maradona (o elogio possível)
Maradona não tem alguém a quem possa ser comparado, ninguém para fazer de Prost para que ele seja o Senna. Este é o elogio possível no dia da sua morte
- Futebol internacional
Morreu Diego Armando Maradona, mas ele viverá
El Pibe de Oro, o menino de ouro, morreu esta quarta-feira. Diego Armando Maradona foi dos melhores jogadores de futebol de sempre, possivelmente o melhor, com certeza o maior para muita gente. Ganhou o Mundial de 1986 e agigantou o Nápoles, de Itália, enquanto lá jogou. Tinha 60 anos e há pouco mais de duas semanas fora operado a um hematoma subdural na Argentina. Era atualmente treinador do Gimnasia de la Plata, clube dos arredores de Buenos Aires, e resumir-lhe a vida é apenas uma tentativa condenada ao falhanço
-
AtualidadeHá quem diga que usou a mão, mas ninguém sabe e Deus não conta: 1986, o ano que definiu Maradona
Pedro Boucherie Mendes escreve sobre um deus a cores num Portugal cinzentão que puxava pelo Brasil nos anos 80 até um pequeno barrilete cósmico rebentar com as leis não escritas do futebol