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A história da fotografia: Emma e Lola vão saber quem é Maradona pelos olhos do pai (que até jogou à bola com Ele)

Um cruzamento entre desconhecidos num bairro de Buenos Aires deu corpo a uma fotografia que navegou pelo Twitter e teve milhares de gostos e partilhas. Lucho, Emma, Lola e Agustina são os protagonistas desta história. Diego é a luz que a ilumina

Hugo Tavares da Silva

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No dia em que Maradona decidiu ser deus noutro mundo, Luciano Garzo, ou Lucho, colocou uma camisola especial na varanda de casa. A pequenina Emma, uma das filhas e gémea de Lola, quis saber porquê - Lola estava a dormir em casa mãe (são pais separados). “Depois de lhe dizer quem era, contei-lhe à minha maneira que tinha morrido e que por isso estava ali a camisola”, começa a contar à Tribuna Expresso. “Às 10 da noite saiu toda a gente para a rua, para aplaudir e cantar por Maradona. Nós fizemos o mesmo. Depois continuei a contar-lhe e fomos dormir…”.

Era quarta-feira.

Na manhã seguinte, Lucho ficou de ir buscar Lola, a outra filha. Emma vestiu uma camisola da Argentina e pediu ao pai para levar outra para a irmã gémea. Queria que Lola se vestisse igual, à Argentina, e que soubesse a história de Diego. “Queria que cantássemos as canções os três.” Uns metros depois de saírem de casa da mãe, Lucho continuou a falar-lhes de Diego Armando Maradona, o herói do povo. “Elas estão numa etapa em que pedem sempre que lhes conte uma história. Queriam a história de Maradona.” E as palavras foram-lhe saindo da boca, tentando explicar quem era o homem que foi mais do que os homens, e lá foram construindo o puzzle divino, num qualquer bairro de Buenos Aires.

Por esta altura, em simultâneo, Agustina Larrea levantou-se e preparava-se para ir cedo para o jornal onde trabalha. As cerimónias privadas começaram na quarta-feira à noite, com família e amigos próximos do ex-futebolista, por isso na manhã seguinte o povo começou a deslocar-se até à Casa do Governo para se despedir do ídolo máximo daquela nação. “Acordei, tomei o pequeno-almoço, via tudo aquilo com muita tristeza porque de alguma maneira sentíamos que o que aconteceu no dia anterior era real. Percebemos que o que parecia um pesadelo era certo, Diego Maradona estava a ser velado na Casa do Governo”, começa a contar à Tribuna Expresso.

“Depois, a caminho do meu trabalho, ia a caminhar aqui pelo meu bairro -- vivo em Buenos Aires, num bairro chamado Villa Crespo -- e cruzei-me com eles (Lucho e filhas). Vi-os de frente, vi as suas caras, entendi que ele ia a falar com elas, mas senti muito pudor em perguntar-lhes algo ou em cumprimentá-los, então segui e, muito emocionada, virei-me e tirei essa fotografia de costas. Depois continuei em direção ao meu trabalho, a chorar, pareceu-me muito comovente…”

Lucho, que é fanático pela seleção argentina (e nem falemos de D10S), tropeçaria depois na fotografia no Twitter. "O que é Maradona? É uma pessoa ir na rua e tirar uma fotografia a um rapaz que não conhece, com as suas filhas, enquanto ele lhes conta quem foi Diego Armando Maradona. E esse rapaz sou eu e esta é provavelmente a melhor foto que terei com as minhas filhas em muito tempo", escreveu Lucho naquela rede social.

Agustina, de 38 anos, não é exatamente a maior apaixonada por futebol mas tirou aquela fotografia. Porquê? “Eles, de alguma maneira, representam o futuro, as novas gerações. As filhas de Lucho não viram jogar Maradona nem o conheciam, são muito pequenas. Mas através do relato do seu pai vão entender a dimensão de uma figura como Maradona. A mim passou-me algo parecido: não sou especialmente futeboleira, mas sempre me impactou muito a figura de Maradona, assim como para a minha família, o meu avô, os meus pais e os meus irmãos, então sinto que vi Maradona a vida toda pelos olhos deles. Um pouco o que vai acontecer com as filhas de Lucho. Sempre me interessou Maradona como personagem pública, que, para além de ser excelente nos campos, teve também um olhar sobre a Argentina. Era um fervoroso amante do seu pais, sempre me pareceu interessante.”

Este argentino, de 29 anos, diz que não deu conta da fotografia naturalmente. “Mas no outro dia vi no Twitter. Há muito tempo que não ia lá, mas com a morte de Maradona voltei a abrir para ver vídeos e essas coisas que as pessoas metem. Uma seguidora marcou-me e perguntou se era eu com as minhas filhas na foto... Era eu efetivamente. Depois pude falar com a Agustina.”

Lucho, que já foi jornalista de desporto, é agora fotógrafo e trabalha sobretudo em conteúdos audiovisuais. Na voz dele, que chega por áudios no WhatsApp, Lucho vai ganhando luz, ânimo, nota-se que está alegre a recordar algumas histórias. Da primeira nem se podia lembrar. Uma vez os pais estavam a jantar num restaurante e perto estava Diego Maradona. O pai de Lucho esperou que o génio acabasse de jantar e foi lá pedir-lhe um autógrafo, que era a selfie da altura. Maradona chegou a dar colo a Lucho, que o conta com uma ternura juvenil. “Maradona teve-me nos braços uns segundos antes de assinar o autógrafo que ainda tenho guardado com dedicatória [risos]. O meu pai estava louco de felicidade.”

Mas a história das histórias aconteceu em 2014, no Brasil, quando estava por lá a cobrir o Campeonato do Mundo. O irmão do cunhado era produtor do “De zurda”, um programa que contava com Maradona e Victor Hugo Morales, o homem que fez o relato mais mítico deste desporto (vs. Inglaterra, 86).

Estavam lá a comentar o torneio. Numa certa manhã, em dia de folga de jogos, Lucho estava numa praia qualquer a apanhar sol, a descansar os ossos. “À uma da tarde ele ligou-me para ir já já, que o Maradona ia jogar”, conta. Como lhe faltavam umas botas, porque só contava jogar na praia, Lucho pediu umas a um colega peruano. “Ele emprestou e apanhei um autocarro, uma viagem de duas horas e meia, e cheguei lá…”

Em vez de um relvado espetacular, esperava-o a ele e ao ídolo um campo de terra. A equipa de produção do tal programa “De zurda” chegava para fazer duas equipas. Maradona tinha a sua. “Foi uma espécie de torneio interminável. Jogavam-se jogos de 10 minutos ou dois golos, ou algo assim, iam rodando as equipas.” Lucho não estava em nenhuma equipa, mas os olhos estavam saciados. “A equipa do Maradona ganhava sempre. Ele, com problemas de joelhos, tinha um nível incrível. Cansou-se de fazer golos de livre directo, tenho tudo filmado por sorte.”

Até que o seu fado mudou.

A equipa do cunhado de Lucho voltou a ser chamada para o centro do universo. “Ele disse para eu jogar por ele. Joguei contra Maradona. Obviamente que lhe fiz uma marcação pessoal, segui-o por todo o campo. Tirei-lhe um golo em cima da linha. Essa é a história da minha vida de longe, não tenho um momento de felicidade maior... Terminou o jogo, apertámos as mãos como se faz com um amigo quando se acaba de jogar futebol. Tirámos todos uma fotografia, apareço abaixo de Maradona. Tirei também uma selfie com ele. Saiu muito mal mas pelo menos tenho-a.”

Lucho em baixo de Diego

Lucho em baixo de Diego

D.R.

Foi a última vez que o viu pessoalmente. Mas o que representa o “10” para ele, afinal? “Resta recordá-lo como o que é. Para nós, é a bandeira, a identidade do argentino. Maradona é a Argentina feita pessoa porque representa os nossos valores, tudo de bom e tudo de mau que tem a nossa sociedade. Não deixo de reconhecer que Maradona cometeu muitos erros na sua vida, é o mesmo que acontece com muita gente no nosso país. Todos cometemos erros e temos acertos. Nenhum de nós fez feliz um povo como ele fez…”

Ninguém fez o povo tão feliz, a frase que tantos repetem. E um dia Lola e Emma vão aprender isso. Como uma tradição importante, como uma maneira de ser argentino, com tudo o que significa amar Diego, tal como ensinara a Lucho o seu pai, que lhe ofereceu a camisola do Itália 90. Foi a primeira de todas.

“A Argentina, por estes dias, é pura comoção, está toda a gente emocionada, muito mobilizada", acrescenta Agustina Larrea. "Foi-se o maior ídolo popular que este país deu, então são momentos de muita mobilização, de muita coisa triste e, de vez em quando, de alguns momentos de alegria, recordação e emoção. Num primeiro momento, ao meio dia de quarta-feira, houve nas ruas de Buenos Aires, que são sempre ruidosas e cheias de gente, um silêncio muito chamativo, as pessoas não podiam acreditar na notícia. Por outro lado, com o decorrer das horas, as pessoas começaram a ir para a Plaza de Mayo. São dias de muita dor. Começam também as memórias lindas, a televisão a passar os melhores golos, as melhores histórias, as melhores frases. Todos, coletivamente, tratam de fazer o seu luto.”