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Duarte Gomes e as críticas ao quarto árbitro do PSG-Basaksehir: “A pressão de quem está em campo é gigante, o escrutínio é milimétrico”

O antigo árbitro português apresentou-nos ao lado humano, tantas vezes negligenciado, de quem entra em campo, referindo o exemplo de Sebastian Coltescu, o quarto árbitro do jogo entre o PSG e o Istambul Basaksehir

Carlos Luís Ramalhão

Anadolu Agency

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Todos sabemos que um árbitro, tal como os outros indivíduos mais ou menos talentosos que se espalham sobre um relvado na hora da bola rolar, é um ser humano. São pessoas com vida própria, que coincide em muitos aspetos com a nossa. Há uma diferença fundamental: a pressão.

Do ser humano que teve um comportamento criticável num jogo em que, não sendo juiz principal, tinha de dar um bom exemplo, sabíamos apenas que era romeno e alegadamente racista. Condenámos-lhe a atitude e exigimos mão pesada para a castigar. De facto, não era para menos. Mas…

Segundo Duarte Gomes, Contescu tem “uma história de vida pesada”. Em 2007, foi despromovido pela FIFA. “Segundo fontes credíveis, tentou o suicídio duas vezes,” diz-nos Duarte Gomes. O juiz romeno admitiu publicamente que passou por uma depressão profunda. A vida pessoal não ajudava. Um “casamento anulado perto do dia da cerimónia e a morte do pai e da mãe, ambos com cancro, num curto espaço de tempo” foram situações infelizes, que nos podem emocionar por simpatia, embora não desculpem a atitude que tomou.

Falamos então dessa coisa chamada pressão, a ameaça de um tornado que paira sempre sobre as cabeças dos intervenientes num jogo de futebol. E não se julgue que isso acontece apenas num PSG – Istambul ou num Benfica – Sporting. Há pressão nas distritais.

Numa publicação, Duarte Gomes refletiu sobre isso e foi buscar a parte pessoal “apenas para lançar uma reflexão maior: a relativa à saúde mental de árbitros, atletas e treinadores”. “A pressão de quem está em campo é gigante, o escrutínio a que estão sujeitos é milimétrico, a necessidade de triunfar, acertar e progredir, enorme,” afirma o antigo árbitro.

Em declarações à Tribuna Expresso, Duarte Gomes admite que, ao longo da sua carreira, houve sempre pressão. “Ela faz parte do jogo, sobretudo em alta competição,” disse. A gestão desse incómodo passa por “converter todo esse sufoco exterior em motivação. Em boa energia”.

“No pós-jogo, na ressaca de jogos que correram mal (…) a angústia é grande,” admite o agora comentador televisivo. “Há demasiada emoção em torno desta indústria e as respostas às emoções dos árbitros são, por princípio, destrutivas e intolerantes,” admite Gomes. “É uma profissão ingrata e obriga a um jogo de cintura tremenda que nem todos têm.”

Para o antigo árbitro internacional, “a melhor forma de lidar com isso é procurar criar, por si, uma estrutura mental forte e impenetrável, capaz de resistir ao insulto, ao dia seguinte, ao circo mediático que se levanta”. Regressando ao ambiente pessoal que envolve o ser humano, Gomes lembra que “a família é fundamental”. “Se a estrutura psicológica for ou estiver momentaneamente mais frágil, o ideal é recorrer a aconselhamento especializado”

Quanto ao comportamento do árbitro romeno no jogo de Paris, Duarte Gomes não tem dúvidas: “Não pode haver atenuantes para situações graves, em alta competição. Isso não quer dizer que não erramos (eu errei e todos cometem excessos pontuais), quer apenas dizer que temos que estar preparados para assumir as consequências dessas falhas”.

O ex-árbitro lembra que “a mensagem que o futebol projeta para o exterior, para os jovens de todo o mundo, é enorme. Qualquer sinal é tido como referência e nós queremos que elas sejam boas, positivas. Quando não são, devem ser sancionadas em conformidade. Isso significa analisar a dimensão do que aconteceu e agir de acordo com ela, com justiça, sem facilitar e sem ceder à esquizofrenia social”. No final, Duarte Gomes aconselha: “Não se devem destruir carreiras por antecipação”.

O 4.º árbitro do PSG-Basaksehir terá chamado "negro" a um treinador-adjunto. Os jogadores saíram de campo e o jogo foi adiado

A meio da primeira parte do PSG-Basaksehir, da última jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões, o treinador-adjunto da equipa turca, Pierre Webó, foi expulso e o jogo foi suspenso porque, logo a seguir, todos os jogadores se terão recusado a continuar. A razão: o quarto árbitro terá, alegadamente, dirigido um insulto racista ao técnico camaronês e as duas equipas decidiram fazer algo em relação a isso. A UEFA vai analisar o incidente e o jogo será retomado esta quarta-feira, às 17h55, com uma nova equipa de arbitragem