Tribuna Expresso

Perfil

Atualidade

“Maradona foi morto. Julgamento e castigo aos responsáveis. Sabemos onde eles moram, onde estão, vão pagar”: um movimento popular em curso

A morte de Diego Maradona desassossegou a sociedade Argentina. Os que acreditam que o astro morreu por negligência organizam-se e manifestam-se, clamando por justiça, apontando o dedo a assessores, médicos e amigos que consideram de ocasião. A família do deus futebolístico também se alinha e o movimento popular cresce nas ruas de Buenos Aires. Esta é a reportagem de uma comoção

Márcio Resende, em Buenos Aires (Argentina)

SOPA Images

Partilhar

Cerca de duas mil pessoas participaram da manifestação que impunha faixas sob o lema “Justiça por Diego. (Ele) Não morreu: foi morto. Julgamento e castigo aos responsáveis”. Mas também a exibiram e anunciaram o segundo lema da marcha que já proferiu a sua sentença: “Que a condenação seja também social”.

“Estou aqui para que a justiça pela morte de Diego Armando Maradona seja feita. Ele foi assassinado. Não morreu naturalmente. Mataram o Maradona. Deixaram que ele morresse. Foi abandono. Não deram a atenção da que ele precisava. Ele servia mais morto do que vivo”, explica ao Expresso Diego Atencio (37), cujo nome é uma homenagem do pai ao máximo ídolo do futebol argentino.

Diego ergue um cartaz que anuncia “Morte a Morla”, em referência ao advogado Matías Morla, agente e amigo de Maradona, responsável por todos os contratos e por cada decisão sobre Maradona tanto financeira quanto de saúde. Morla ficou como administrador da marca comercial Maradona no mundo. “A condenação deve ser social. Deve haver justiça social. As pessoas não deveriam deixá-los tranquilos nenhum desses assassinos pois assassinaram o maior que tínhamos”, acusa Diego.

A concentração popular aconteceu no emblemático Obelisco do centro de Buenos Aires, onde tradicionalmente os adeptos se reúnem para demonstrar a sua paixão como no campeonato mundial de 1986 conquistado por Maradona e mais dez jogadores ou como no dia último 25 de novembro, quando a morte de Maradona deixou esta área mais triste.

“Estou aqui pelo Diego, para que justiça seja feita. Essa gente mantinha-o trancado, dopado, abandonado. Quero que paguem porque foi homicídio. Fica claro nos áudios. Tudo está vindo à luz”, conta ao Expresso Maximiliano Ruiz (36).

Áudios expõem os suspeitos

Nos áudios aos quais Maximiliano se refere, a saúde de Maradona aparece depois do interesse financeiro dos envolvidos. Também confabulavam para que a família ficasse distante e não pudesse retirar-lhes o cuidado médico sobre Maradona.

“Que a Gianinna (filha de Maradona) não o leve. Se ele for para a casa da Gianinna, nós vamos perdê-lo. Disso depende o trabalho de todos. Se eu conseguir esquivar essa, há dinheiro para todos”, diz o assistente de Maradona e cunhado de Matias Morla, Maximiliano Pomargo, num diálogo com o médico de Maradona, Leopoldo Luque, revelando um plano para evitar que Maradona seja cuidado pela filha.

Por enquanto, a lista dos sete investigados pela Justiça inclui o próprio médico pessoal de Maradona, Leopoldo Luque, a psiquiatra Agustina Cosachov e o psicólogo Carlos Díaz, além de uma médica coordenadora, de um coordenador de enfermeiros e dois enfermeiros.

Mas a família e os adeptos também apontam contra o advogado Matías Morla, quem também aparece na enxurrada de áudios de WhatsApp que a Justiça obteve dos telemóveis dos indiciados e que foram, em parte, divulgados pela imprensa argentina.

Este é Dieguito Fernando, filho de Maradona, um dos presentes na manifestação
1 / 7

Este é Dieguito Fernando, filho de Maradona, um dos presentes na manifestação

Anadolu Agency

Populares a pedirem a cabeça de Morla, assessor e advogado de Maradona que tinha como responsabilidade gerir os bens do astro
2 / 7

Populares a pedirem a cabeça de Morla, assessor e advogado de Maradona que tinha como responsabilidade gerir os bens do astro

SOPA Images

Veronica Ojeda, ex-mulher de Diego Maradona. “Ele não morreu, eles mataram-no”
3 / 7

Veronica Ojeda, ex-mulher de Diego Maradona. “Ele não morreu, eles mataram-no”

SOPA Images

Manifestantes nas ruas de Buenos Aires
4 / 7

Manifestantes nas ruas de Buenos Aires

SOPA Images

Gritos de revolta pela morte de Maradona
5 / 7

Gritos de revolta pela morte de Maradona

RONALDO SCHEMIDT

Claudia Villafane (à direita), ex-mulher de Diego Maradona, e as filhas Giannina Maradona (ao centro) e Dalma Maradona (à esquerda)
6 / 7

Claudia Villafane (à direita), ex-mulher de Diego Maradona, e as filhas Giannina Maradona (ao centro) e Dalma Maradona (à esquerda)

RONALDO SCHEMIDT

Um cartaz que contextualiza a manifestação
7 / 7

Um cartaz que contextualiza a manifestação

Marcos Brindicci

Justiça social imediata

Mas, independentemente, dos tempos e dos resultados da Justiça, os 'maradonianos' já proferiram a sua sentença e pretendem tornar impossível o sossego dos investigados. “Não vamos deixar essa gente descansar. Vamos buscá-los onde estiverem. Não vamos parar. Este é o povo, o povo do Diego. Em última instância, nós vamos fazer justiça”, avisa Maximiliano, esclarecendo, no entanto, que não se trata de violência. “Sabemos onde moram. Onde estão. Seriam manifestações na porta da casa para que os vizinhos saibam. Vão pagar aqui. Mais cedo ou mais tarde, vão pagar”, sentencia.

O advogado Matias Morla já indicou que pretende deixar o país.

“Esperemos que não consigam deixar a Argentina, mas há maradonianos pelo mundo todo. Não vamos deixar que descansem nem em Chipre nem em Madagascar. Estamos no mundo inteiro”, adverte Maximiliano, apontando a sua devoção através de 11 tatuagens de Maradona pelo corpo.

Pablo Lezcano (39), por sua vez, não deixa claro até onde pode ir a "justiça social".

"Os culpados devem pagar, mas eu não os quero só presos. Eu quero encontrar os culpados pessoalmente, cara a cara, para eu fazer justiça porque eles me tiraram o que eu mais amava no mundo", diz Pablo ao Expresso num misto de raiva e dor. "Eu assisto aos vídeos do Maradona todos os dias. E todos os dias eu choro. Passaram-se poucos meses, mas, para mim, isso vai durar a vida toda. As pessoas me perguntam porque eu me auto-inflijo esse sofrimento. É porque me tiraram a pessoa com quem eu me criei", desabafa. "Desde a minha infância, não quis saber do super-homem ou do homem-aranha. O meu super-herói era Maradona. Eu tenho um filho, mas Maradona me deu mais alegria do que qualquer outro na vida. Não me importa o que Maradona fez com a vida dele. Importa o que ele fez com a minha", descreve, emocionado, enquanto exibe uma tatuagem de Maradona no peito.

Não é a primeira vez que o Expresso encontra Pablo durante uma reportagem. Em 2008, quando Maradona ganhou o posto de diretor técnico da seleção argentina, Pablo Lezcano foi entrevistado durante uma reportagem sobre a Igreja Maradoniana da qual Pablo é membro.

Investigação judicial

Na segunda-feira (10 de março), começou a funcionar uma comissão médica, criada pela Justiça, que, nas próximas duas a três semanas, vai avaliar se o atendimento a Maradona foi deficiente. São vinte peritos, metade oficiais, metade indicados pelas partes. O resultado da perícia pode levar os indiciados à acusação de "homicídio culposo" (sem intenção).

"Acreditamos em homicídio doloso (com intenção); não culposo. O que foi revelado, através dos áudios, é apenas 1 ou 2% de todas as provas contundentes do processo. Há muitas evidências de como roubaram Maradona e de como deixaram que ele morresse. É o suficiente para irem todos presos. São assinaturas falsificadas, histórias clínicas adulteradas", garante o advogado Mario Baudry, representante de Diego Fernando (08), filho de Maradona com Verónica Ojeda, de quem o advogado é namorado. Todos presentes na marcha.

Também participaram da marcha Dalma e Gianinna, filhas de Maradona com a sua primeira esposa, Claudia Villafañe, também presente. Levavam uma bandeira na qual se lia: "Condenação social e justiça para os culpados", resumindo as duas instâncias paralelas.

Uma multidão correu até as três. Todos queriam estar perto. As três tiveram de correr e refugiar-se num hotel tamanha a quantidade de gente que os guarda-costas não conseguiram conter.

Diego Armando Maradona (60) morreu no passado 25 de novembro como consequência de um "edema agudo de pulmão secundário a uma insuficiência cardíaca crónica aguda". No seu coração também havia uma "miocardiopatia dilatada". O exame toxicológico revelou ausência de álcool e de drogas ilegais, apesar de, nos áudios, aparecer que os enfermeiros davam regularmente álcool e maconha para se livrarem do comportamento próprio de um dependente químico.