Tribuna Expresso

Perfil

PUBLICIDADE
Atualidade

No Name Boys. Tribunal declara-se incompetente para fazer a instrução do caso

Tribunal de Lisboa considera que deve ser o Tribunal de Cascais a realizar a instrução do caso das agressões praticadas por elementos da claque do Benfica, uma vez que o crime mais grave ocorreu naquele concelho

Hugo Franco e Rui Gustavo

CARLOS COSTA

Partilhar

O Tribunal de judicial de Lisboa declarou-se territorialmente incompetente para avançar com a fase de instrução do caso das agressões dos No Name Boys a adeptos rivais, uma vez que os atos de violência mais graves ocorreram fora de Lisboa. "Da leitura do despacho de acusação resulta, que os factos consubstanciadores do crime mais grave (homicídio qualificado na forma tentada) ocorreram em São João do Estoril, Cascais", pode ler-se no despacho a que o Expresso teve acesso.

Desta forma, o tribunal considera que deve ser o Tribunal de Cascais a avançar com esta fase do processo. "Declaro a incompetência territorial deste tribunal para proceder à instrução requerida, sendo competente para este fim o Tribunal da comarca de Lisboa-Oeste – Juízo de Instrução Criminal de Cascais onde se terá consumado o crime com a moldura penal mais grave, de entre os descritos no despacho de acusação."

O episódio mais grave teve como vítima João A., membro da Juventude Leonina, na tarde de 26 de maio de 2020.

João A. regressava a casa, em São João do Estoril, quando foi atacado de súbito por um grupo de mais de vinte homens disfarçados com capuzes, lenços e balaclavas. De acordo com a descrição que o Ministério Público apresentou em tribunal, o homem foi imediatamente atingido com uma martelada na cabeça, caiu e depois levou com “inúmeras marteladas na cabeça”, socos e pontapés. Um suspeito que a polícia não conseguiu identificar esfaqueou-o três vezes: num braço, numa perna e no peito. O último golpe perfurou-lhe o pulmão esquerdo. Outro suspeito partiu-lhe o indicador da mão direita. E alguém gritou: “Vais morrer, filho da puta. Benfica! No Name Boys! No Name Boys!”

Mesmo assim, a vítima conseguiu levantar-se e fugir e desviar-se do martelo que lhe atiraram à cabeça, mas seria de novo apanhado pelos agressores, que voltaram a agredi-lo. Nesse momento, um agente da PSP que ia a passar no local gritou “Polícia!”, e os suspeitos dispersaram em três carros. João A. foi internado de urgência no Hospital de Santa Maria e sujeito a duas intervenções cirúrgicas. Sobreviveu ao ataque e foi capaz de identificar cinco dos suspeitos, todos membros do subgrupo de casuals da claque No Name Boys. Foram detidos pela PSP na Operação Sem Rosto.

Em dezembro do ano passado, o Ministério Público acusou 36 homens e uma mulher de 261 crimes, entre eles de homicídio qualificado na forma tentada, atentado à segurança de transporte rodoviário, dano, coação, roubo, ofensa à integridade física qualificada, detenção de arma proibida e furto qualificado. Em causa estão 11 incidentes violentos protagonizados pelos No Name Boys em dois anos (de 2018 a 2020) dos quais resultaram mais de 20 vítimas (atletas, polícias e adeptos de clubes rivais).

Nos últimos anos, têm sido alguns os episódios a envolver os No Name Boys, nomeadamente, o grupo casuals, mais radical, que se caracteriza, diz o MP, "pela violência física que exerce sobre adeptos de claques de clubes rivais." Recordem-se o apedrejamento que deixou Weigl e Zivkovic feridos, agressões a adeptos do Sporting, em Alvalade, e o esfaqueamento de um outro adepto também do Sporting, no Estoril, e os graffitis em tons ameaçadores nas casas de alguns jogadores do SLB, como Pizzi, e do antigo treinador da equipa, Bruno Lage.