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“Não aceitemos o abuso como parte do desporto”: o boicote de futebolistas e clubes ingleses (e aliados) às redes sociais contra os insultos

Clubes e ligas anunciaram boicote de quatro dias às redes sociais. Há outras modalidades a alinhar nesta iniciativa, como por exemplo os pilotos de Fórmula 1 que estão a correr em Portugal. “O desporto tem o poder para nos unir. Não aceitemos o abuso como parte do desporto, mas, em vez disso, vamos ser os que fazem a diferença para as futuras gerações”, escreveu o campeão do mundo, Lewis Hamilton

Hugo Tavares da Silva

Alex Livesey

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"Não era eu. Não desfrutava. Adoro o jogo e o treino, mas a pressão das partidas superava-me. Levei muito tempo a analisar e a tomar a decisão. Eu tentei desfrutar dos jogos, tentei muitas vezes, mas não consegui. Há muito tempo que tenho medo de jogar e não posso apagar isso. Após os jogos entrava nas redes sociais e via o que as pessoas diziam: 90% das vezes não havia nada, mas apareciam sempre dois ou três comentários negativos depois de um jogo mau e ficava a pensar neles..."

Este é um lado da história. É o lado de Ted Smith, um rapaz que chegou a vestir a camisola das seleções jovens de Inglaterra e que esteve no radar de José Mourinho para o Tottenham, mas que optou por encerrar a carreira aos 24 anos. Lembramos a história de Smith porque o futebol inglês pôs em marcha um boicote às redes sociais de quatro dias.

Noutra história mais recente, Ian Wright, outrora lenda do Arsenal, conta ao amigo Alan Shearer, outro ex-super avançado do campeonato inglês, que naquela manhã recebera uma mensagem “horrível”, tão grave que Shearer admite que nem sequer seria capaz de ler.

A mesma mensagem acabava com um esclarecedor “Black Lives Don’t Matter [as vidas negras não importam]”. “Isto é recorrente simplesmente porque não há consequências para as ações das pessoas”, alerta Wright. “Vê-se cada vez mais nas redes sociais”, admite Shearer, lenda do Blackburn e do Newcastle, antes de referir que ninguém chegaria ao pé de Wright na rua e lhe diria algo assim, com aquela linguagem “nojenta”.

O boicote foi a resposta que futebolistas, clubes, ligas masculina e feminina e até meios de comunicação optaram por levar avante devido ao abuso discriminatório contínuo recebido online pelos futebolistas. Os casos mais mediáticos dos últimos tempos transpiravam racismo por todos os lados, com ataques racistas contra Trent Alexander-Arnold, Naby Keïta e Sadio Mané, futebolistas do Liverpool, depois da derrota contra o Real Madrid, no início do mês de abril.

Mais recentemente, o defesa do Aston Villa, Tyrone Mings, foi atacado e publicou a mensagem nas redes sociais. "Mais um dia na vida das redes sociais sem filtro", escreveu então Mings. "Por favor, não tenham pena de nós, estejam lado a lado na luta pela mudança."

“É simplesmente inaceitável que pessoas do futebol inglês, e da sociedade em geral, continuem a ser sujeitas a abusos discriminatórios online no dia a dia, sem consequências reais para os perpetradores”, disse Edleen John, o diretor das Relações Internacionais da Federação Inglesa de Futebol.

A federação e ligas escocesas confirmaram nas últimas horas a participação nesta campanha. A UEFA apoiou a intervenção na quinta-feira e apelou a jogadores, clubes e associações nacionais “a apresentarem queixas formais sempre que jogadores, treinadores, árbitros ou funcionários sejam vítimas de tweets ou mensagens inaceitáveis", conta a Sky Sports, que alinhou no mesmo boicote.

A FIFA fez um comunicado a condenar os insultos e as ofensas discriminatórias e anunciou o apoio à iniciativa. Afinal, este é um comportamento que “não tem lugar no futebol ou na sociedade”, pode ler-se num tweet da FIFA.

E o organismo que rege o futebol mundial acrescentou: "Acreditamos que as autoridades e as empresas das redes sociais devem tomar medidas reais e eficazes para pôr fim a estas práticas abomináveis, porque está sempre a piorar e é preciso fazer algo - e fazê-lo rapidamente - para pôr fim a isto".

Mas este assunto, como acontece muitas vezes no desporto, qual veículo de mudanças na sociedade, alastrou a outras modalidades. O râguebi e o críquete ingleses também alinharam neste combate contra o insulto e a discriminação online.

Os pilotos de Fórmula 1, a correr este fim de semana em Portugal, idem. Lewis Hamilton, o único piloto negro no paddock e atual campeão do mundo, é um deles. “Por solidariedade à comunidade do futebol, vou desaparecer nos meus canais das redes sociais neste fim de semana. Não há lugar na nossa sociedade para qualquer tipo de abuso, online ou não, e há demasiado tempo que tem sido fácil alguns publicarem ódio atrás de ecrãs", escreveu Hamilton. E lembrou: “O desporto tem o poder para nos unir. Não aceitemos o abuso como parte do desporto, mas, em vez disso, vamos ser os que fazem a diferença para as futuras gerações.”

O boicote começou na sexta-feira, às 15h, e prolonga-se até segunda-feira, quando faltar um minuto para a meia-noite. Por cá, até meio da tarde deste sábado e entre os principais clubes de futebol, o Sporting anunciou ter aderido à iniciativa, à semelhança da Federação Portuguesa de Futebol.

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