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Mbappé fez uma chamada para o espaço: “É uma loucura, não consigo acreditar nos meus olhos. Como é estar aí?"

“É como uma montanha-russa mas 10 mil vezes mais poderosa”, respondeu-lhe do outro lado o astronauta da Agência Espacial Europeia Thomas Pesquet. Durante 20 minutos futebolista e astronauta, que revelou envelhecer 10 anos de vida por seis meses no espaço, trocaram ideias sobre as suas vidas profissionais e o resultado é maravilhoso: “Jogar um jogo de futebol no espaço deve ser muito fixe"

Hugo Tavares da Silva

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De um lado uma confusão de fios, uma bola a flutuar ao lado de um homem, do outro um rapaz com uma mente irrequieta sentado num sofá. Thomas Pesquet, astronauta francês da Agência Espacial Europeia, bateu umas bolas com o maravilhado Kylian Mbappé, futebolista do PSG e da seleção francesa.

O sorriso de menino não enganava. Mbappé estava fascinado por ver Pesquet a levitar como por magia. Soltou uma gargalhada quando viu uma bola do Euro2020 e uma bandeira francesa lá atrás, naquela floresta eletrónica que daria cabo de qualquer mortal vulgar.

Depois de um “welcome to the space station”, Thomas Pesquet, de 43 anos, disse não saber muito bem onde andavam naquela altura. “Damos a volta à Terra a cada 90 minutos. Às vezes perdemos noção do Continente que estamos a sobrevoar.”

Kylian ajeitava-se na cadeira, olhos abertos, empolgado, coçando o queixo. A seguir disse que era “incrível” ver tais imagens. “É uma loucura, é uma loucura. Não consigo acreditar nos meus olhos, é a primeira vez que vejo. Estou muito impressionado. Tenho tantas perguntas, nem sei por onde começar. Como é estar no espaço?”, ia mostrando o lado da criança entusiasmada que mora debaixo da carcaça do super futebolista, habituado a carregar aos ombros o sonho de milhões.

“É como uma montanha-russa mas 10 mil vezes mais poderosa”, respondeu Pesquet. “As acelerações, a vibração, é como estar num míssil que te envia para o espaço, por isso é fantástico. Assim que chegas ao espaço, é tudo calmo de repente, tudo flutua à tua volta. Podes voar, é como um sonho. É como a carreira de um futebolista: sempre que sonhas com algo, tens de trabalhar para isso”, desabafa, garantindo um “sim” com a cabeça por parte do jogador de futebol. “Somos como vocês, mas não levantamos troféus e não aparecemos na TV.”

Kylian Mbappé mostra-se interessado então pela comunicação a bordo, algo que é tão importante numa equipa de futebol. Por ali, na Agência Espacial Europeia, fala-se inglês e um pouco de russo. O ping-pong ia misturando sempre a vida espacial e a vida de futebolista.

A missão de Pesquet é de seis meses, já passou um, por isso o astronauta fez a comparação com os estágios, as grandes competições e o isolamento de que são alvo as seleções. Treina-se muito para trabalhar no espaço, tenta-se limitar ao máximo o aleatório e o imprevisível, sendo que venha o que vier têm de estar preparados e, lá está, a comunicação será sempre chave.

FRANCK FIFE

A saúde e o monitoramento a que estão sujeitos diariamente aterram no menu da conversa. O astronauta queria perceber o peso das estatísticas e dos dados no futebol, algo que o seduz, admite. Mbappé diz que é uma realidade que é omnipresente, está em tudo.

A carreira está sempre em risco, assim como a vida, declara o homem que não sabe bem onde está no espaço. Dá muito valor ao trabalho nos bastidores e a perseverança de cada um, usando um exemplo curioso para mostrar como existe muita repetição e trabalho invisível: “O livre direto do Roberto Carlos” à França, há muitos anos, que descreveu uma trajetória que mais parecia bruxaria. Ambos imitaram com a mão o arco que a bola fez. Ao cientista, claro, intriga mais o “aspeto aerodinâmico" do que a beleza do golo.

O jogador do PSG, decisivo no Campeonato do Mundo conquistado pela seleção francesa em 2018, confirma que o trabalho árduo envolvido é imenso. “Sais de casa muito jovem, todos temos aquele sonho. Depois há muito trabalho e muito sacrifício. Há o elemento sorte, de conhecer as pessoas certas no momento certo, de fazer boas exibições no momento certo, que te vai levar para outro nível. É um trabalho difícil”, admite.

Depois de Pesquet monopolizar um pouco as questões, tornando outra vez Mbappé um futebolista que responde a perguntas, o jovem de 22 anos voltou a pegar na bola: “O que fazes no espaço? O que procuram? Já descobriram coisas? É também importante para mim, tenho muitas perguntas”.

Thomas ri-se e conta-lhe que estão a fazer várias experiências em simultâneo. E revela que há um fenómeno interessante: passar seis meses no espaço equivale a 10 anos de envelhecimento, algo que é reversível. Mbappé abriu os olhos. Em que medida, então, se desenrola o envelhecimento? “Artérias, circulação coronária, a vista, perder massa muscular, perdes músculos porque não os usas, atrofias um pouco… Por isso fazemos desporto todo os dias”, revela Pesquet, dando conta de um “acelerador de envelhecimento” que representa o espaço.

E descansa o jovem craque: “Quando volto à Terra, volto à forma, é um pouco como recuperar de uma lesão. Os cientistas adoram porque veem o que acontece com as células, ADN, etc… E pensam que podem ser capazes de perceber a chave do envelhecimento.” Mbappe aproveita a deixa: “Temos de descobrir rápido, que vou ser velho brevemente e preciso de saber, ok?”, diz, soltando uma gargalhada. “Tens tempo”, dá troco o astronauta.

Thomas Pesquet num simulador, em 2016

Thomas Pesquet num simulador, em 2016

Bill Ingalls/NASA

O velocista Kylian, um dos jogadores mais rápidos do planeta, ia sofrer com o ralenti com que se passa tudo no espaço, sentencia um elemento da UEFA, responsável pela ponte entre o estágio da seleção e a estação espacial. “Tentei jogar futebol com os meus companheiros, mas jogar assim não é bom. Zero gravidade levanta a bola. Mesmo para chutar, para tudo, dúvido, Kylian, que fosses feliz aqui. Não sei se queres ir ao espaço, mas sei que não vais jogar futebol aqui”, atira Thomas, mexendo a bola para os olhos compreenderem os caprichos da senhora.

No, no, sem futebol. O futebol não é tudo na vida, seria uma experiência incrível. Continuo a ver a bola a mexer-se, não encontro palavras”, diz o menino enamorado, que ouve do outro lado que um pontapé de bicicleta fica mais fácil naquele contexto. “Jogar um jogo de futebol no espaço deve ser muito fixe”, não resiste Mbappé.

O último tema mais sumarento prendeu-se com as lideranças na estação ou num balneário. Thomas, que lançou o tema, deixou uma reflexão interessante: “Às vezes são superestrelas nos clubes e depois têm um papel diferente na seleção, há egos…”.

Mbappé ouviu com atenção e respondeu: “Joguei no Mónaco, PSG e França e tive a oportunidade de jogar com grandes personagens. Ser capitão é um trabalho a tempo inteiro. Tens de estar pronto para encontrar soluções para cada problema, cada situação”, vai dizendo, com uma colocação de voz e desembaraço de quem sabe do que fala, foi assim desde o início da conversa. “Estás ocupado mesmo quando as coisas correm bem. Tens de fazer as coisas bem, tens de apoiar os teus rapazes. Nunca se escolhe um capitão por sorte. Sendo na vida ou no futebol, nao te tornas capitão por acaso”, garante.

São avisados que o tempo está a esgotar-se, os discursos de despedida embrulham-se um no outro porque a ligação chega com atraso, e isso diverte Kylian. Até que acertam e dizem adeus. No fim, Thomas Pesquet flutua, talvez para desligar a chamada.

“É uma loucura! Ele voa, han!”, suspira Kylian Mbappé. Quantos adeptos de futebol dizem o mesmo nos estádios quando o veem jogar?