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Reuniões ignoradas, reuniões sem decisões, reuniões sem voz de comando: como a preparação da festa do Sporting correu mal do início ao fim

Antes de o Sporting se sagrar oficialmente campeão nacional de futebol, houve muitos e-mails trocados entre várias entidades públicas - clube, Câmara de Lisboa, DGS, PSP, Ministério da Administração Interna - que ajudaram pouco a que um plano para a noite decisiva fosse delineado. Reuniões presenciais foram duas mas também inconclusivas: o Sporting levou a cabo o seu plano e no dia decisivo a PSP não estava preparada. Eis uma cronologia de como tudo se passou

Tiago Soares

Jose Fernandes

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Os números são do relatório da Inspeção-Geral da Administração Interna sobre a noite em que o Sporting se tornou campeão nacional de futebol: entre as 21h e as 24h, a PSP efetuou 178 disparos de armas de menor letalidade junto ao Estádio de Alvalade, a maioria contra pessoas; depois, no Marquês de Pombal, entre as 24h e 4h12 do dia seguinte, foram efetuados 439 disparos do mesmo tipo. Nestes dois locais, o INEM registou 70 feridos no total - quatro deles polícias -, a que se juntam 21 agentes feridos contabilizados pela própria PSP.

A noite de violência de 11 de maio teve muitos petardos, insultos e grades deitadas ao chão, mas começou a desenhar-se muito antes disso: em março, quando o Sporting tentou pela primeira vez contactar o Governo para preparar os festejos do título. Mas não obteve resposta. Esta é uma cronologia dos eventos que ajudam a explicar tudo o que correu mal antes e depois do apito final.

E-mails, reuniões e nenhumas decisões: a (falta de) preparação dos festejos

  1. Março: o Sporting contacta pela primeira vez o gabinete do Secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna com o objetivo de começar a preparar os festejos do título. O clube não recebe resposta.

  2. Abril: a Câmara de Lisboa (CML) convoca um responsável da PSP para uma reunião “preparatória” sobre os festejos do Sporting. Esse responsável, cujo nome não é identificado no relatório, recusa participar na reunião.

  3. 3 de maio: a oito dias do jogo, a CML envia um email à PSP a colocar-se à disposição para “apoiar a ação” da polícia no dia do jogo.

  4. 6 de maio: o Sporting contacta a Secretaria de Estado Adjunta e da Administração Interna com o objetivo de “marcar uma reunião preparatória” sobre os festejos do clube.

  5. Primeira reunião. A 6 de maio, reúnem-se na CML responsáveis da autarquia, do Sporting, da DGS, do Comando Metropolitano da PSP de Lisboa (COMETLIS) e da Polícia Municipal. O COMETILIS afirma que garantiria a segurança de qualquer evento, mas alerta para os perigos de ajuntamentos, tendo em conta a situação sanitária no país. Pela mesma razão, a DGS opõe-se a qualquer festejo na via pública. Não é tomada qualquer decisão definitiva.

  6. Segunda reunião. A 7 de maio, MAI, PSP, CML, DGS e Sporting reúnem-se nas instalações do Ministério. O Sporting apresenta pela primeira vez o plano: um primeiro momento dentro do estádio, com acesso restrito; e depois um cortejo da equipa desde Alvalade até ao Marquês de Pombal. A PSP manifesta-se contra esta ideia e apresenta uma alternativa: a realização das comemorações no interior do estádio. Outra entidade não identificada no relatório dá a ideia de as comemorações aconteceram numa “área controlada de acesso condicionado a adeptos” no Marquês de Pombal, mas a PSP mostra-se contra a ideia de um cortejo. A reunião é suspensa sem qualquer decisão final. Não parecia haver "ninguém na reunião empossado de autoridade para definir uma trajetória", escreve o IGAI no relatório.

  7. 7 de maio. A Juventude Leonina envia um email à CML a comunicar a intenção de fazer uma “manifestação” no dia do jogo. A CML reencaminha o email para o COMETILIS, a PSP e o MAI.

  8. 9 de maio. Um responsável policial não identificado recebe do Sporting a “notícia informal” “de que haveria autorização para a realização do cortejo”. Há ordem para o COMETILIS se preparar.

  9. 10 de maio. A Direção Nacional da PSP dá ao MAI três cenários para a realização dos festejos: no interior do estádio, num “recinto improvisado” no Marquês de Pombal, através de um desfile na via pública. Nesse dia, o COMETILIS começa a preparar um plano de ação - um dia antes do jogo.

  10. 10 de maio. Às 22h30, a secretaria de Estado envia um e-mail às forças de segurança para prepararem tudo e garantirem a segurança nas comemorações. Em anexo segue um ofício assinado pelo ministro Eduardo Cabrita que aceitava a solução da autarquia e do clube para a festa do título. Solução essa que a PSP e a DGS desaconselhavam.

Petardos, feridos e descoordenação policial: o dia do jogo

  1. 12h. COMETILIS contacta a Juve Leo para comunicar que iria existir um perímetro de segurança em redor do local da manifestação. Diz também que não será possível ter no local o veículo para transmitir o jogo de futebol.

  2. 14h. À hora de início da “manifestação” da Juve Leo, o dispositivo de segurança planeado pelo COMETILIS ainda não está montado. Às 16h, a Unidade Metropolitana de Informações Desportivas do COMETLIS chega ao estádio de Alvalade e verifica que já estão lá estacionados dois veículos pesados, contratados pela Juve Leo e pela Diretiva Ultra XXI, que são posteriormente estacionados na rua professor Moniz Pereira, junto às sedes das associações.

  3. 15h26. Registo pela primeira vez de petardos nas imediações do estádio, que se vão repetindo durante a tarde.

  4. 16h19. A PSP dá ordem aos responsáveis do externato O Poeta para que as crianças fossem recolhidas pelos progenitores o mais rapidamente possível.

  5. 17h57. Divulgado o trajeto da equipa do Sporting pela cidade após o jogo, em caso de vitória.

  6. 18h35. É comunicado à polícia que um petardo foi lançado para o interior de uma farmácia perto do estádio.

  7. 19h. É acionado o Posto de Comando Táctico no Marquês de Pombal.

  8. 20h30. Início do jogo entre Sporting e Boavista. Quatro minutos depois, um grupo de adeptos entra pela porta 5 do estádio, o que obriga a uma grande motivação de polícias. 10 minutos depois disso, um grande número de objetos pirotécnicos é deflagrado junto das sedes das claques.

  9. 21h01. Registo do primeiro ferido da noite: uma mulher é atingida por objetos pirotécnicos junto ao estádio e recebe tratamento hospitalar.

  10. 21h07. Golo do Sporting. Os petardos intensificam-se.

  11. 21h18. Um minuto depois do final da primeira parte, são arremessadas pedras e garrafas de vidro à polícia por parte de adeptos que se encontram junto às sedes das claques. O Corpo de Intervenção é chamado, numa altura em que há cerca de 3000 pessoas nas imediações do estádio.

  12. 21h34. Um homem é ferido no rosto com gravidade após o rebentamento de um petardo junto às sedes das claques. Dois minutos depois, o Corpo de Intervenção pede reforços. Polícias destacados para o Marquês de Pombal, naquela hora “praticamente sem adeptos”, deslocam-se para o estádio.

  13. 22h. INEM regista 18 feridos. Marquês de Pombal está “pouco ocupado” e “tranquilo”. Dois minutos depois, as grades são colocadas no local.

  14. 22h05. A PSP diz à comunicação social que a saída do autocarro da equipa no final do jogo estaria em avaliação, tendo em conta as ocorrências registadas em redor do estádio.

  15. 22h21. Termina o jogo de futebol. O Marquês de Pombal começa a ficar mais preenchido.

  16. 22h27. Rebenta pirotecnia em várias zonas próximas do Marquês de Pombal.

  17. 22h55. A polícia coloca-se junto às grades para impedir que adeptos presentes no Marquês de Pombal violassem o perímetro estabelecido.

  18. 00h. Para impedir as sucessivas tentativas de violação do perímetro, a polícia usa várias vezes gás neutralizante, “que se revelou ineficaz.” Cinco minutos depois, objetos pirotécnicos e outros começam a ser arremessados contra os agentes. Esta situação repete-se de forma contínua durante a hora seguinte.

  19. 01h58. A equipa do Sporting sai do estádio no autocarro.

  20. 02h00. A Polícia começa a fazer uso de bastões para conter “a agressividade dos adeptos”.

  21. 02h45. Estão cerca de 10 mil pessoas no Marquês de Pombal. Continuam a ser derrubadas grades junto à estátua.

  22. 03h50. Uma criança de 13 anos é atingida na cabeça por disparo da polícia.

  23. 03h57. Os jogadores chegam ao Marquês de Pombal. Dez minutos depois abandonam o local em direção ao Saldanha.