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Tim Sparv e agora as equipas da liga sueca - como o futebol nórdico se está a revoltar com a violação dos direitos humanos no Catar

Esta quarta-feira, treinadores e organizadores da liga sueca recusaram enviar jogadores para um campo de treinos da federação do país que habitualmente se realiza em janeiro no Catar. Dias antes havia sido Tim Sparv, capitão da seleção finlandesa, que numa carta aberta criticou o atropelo aos direitos humanos no país do Médio Oriente. Em março passado, a Noruega foi a primeira seleção a pedir mais atenção para os trabalhadores migrantes e para as vítimas da falta de condições de trabalho nos estádios que vão receber o Mundial de 2022. Há quem no mundo do futebol já não queria ficar calado

Lídia Paralta Gomes

JORGE GUERRERO/Getty

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Desde 2019 que a federação sueca de futebol (SvFF) organiza um campo de treinos no Catar durante o mês de janeiro, aproveitando o período de defeso do campeonato do país e o inverno rigoroso para trabalhar com alguns jovens promissores em temperaturas mais amenas.

Mas em janeiro de 2022, esse campo de treinos não vai acontecer. Ou, pelo menos, não vai acontecer no Catar.

Numa declaração no seu site oficial, a SvFF anunciou que após uma reunião com os treinadores da Allsvenskan, a principal divisão da Suécia, e com os representantes da liga, ficou “expressa a opinião unânime que o estágio não deve acontecer em Doha nos próximos anos”. E tudo devido às pobres estatísticas em matéria de direitos humanos que o país do Médio Oriente que vai organizar o Mundial de 2022 apresenta.

Os treinadores não querem ir ao Catar, a liga também não e a federação sueca não teve outro remédio senão ouvir. Sem o acordo dos clubes, não há jogadores dispensados para a seleção. A SvFF garante estar à procura de alternativas para organizar o estágio, sublinhando na declaração que, mesmo antes de começar a organizar o campo no Catar, há dois anos, já há muito trabalhava “em mudanças positivas relacionadas com os direitos humanos e a situação dos trabalhadores migrantes” no país. E diz que esse trabalho vai continuar.

Mas é possível que não se possa ir lá apenas com palavras e diplomacia, daí o futebol sueco ter passado à ação, por mais simbólica que seja. Porque os números importam e causam arrepios na espinha: de acordo com dados analisados pelo jornal “The Guardian” e publicados em fevereiro de 2020, mais de 6.500 trabalhadores de países como a Índia, o Paquistão, Nepal, Bangladesh ou Sri Lanka morreram nos últimos dez anos na construção de infra-estruturas relacionadas com o Mundial de futebol.

Em março desde ano, no arranque da qualificação para o evento, jogadores da Noruega exibiram t-shirts com mensagens de apoio aos direitos humanos. A Alemanha seguiu-lhes o exemplo e Toni Kroos, médio do Real Madrid, falou publicamente das suas preocupações quanto às condições de trabalho dos migrantes que à força de braços estão a erguer os locais onde os futebolistas irão jogar em dezembro de 2022. O Molde, clube da I divisão norueguesa, apelou mesmo ao boicote do Mundial.

Parece assim vir dos países nórdicos e do norte da Europa a maior franja de desagrado, protesto e ação contra um Mundial que já seria atípico por se disputar no inverno do hemisfério norte. Isso será o menor dos problemas comparando com o fechar de olhos da FIFA a questões bem mais básicas do que proteger jogadores de futebol do calor arábico. E já são os próprios jogadores a não quererem mais ficar calados.

Dias antes da decisão do futebol sueco de virar as costas ao Catar, Tim Sparv, capitão da seleção da Finlândia, publicou uma carta aberta no site “The Players’ Tribune”, lembrando a todos que é preciso continuar a falar do Catar e dos atropelos aos direitos humanos no país.

“Mantenham a discussão acesa. Continuem a dar o vosso apoio aos trabalhadores migrantes. Escrevam, tuítem Publiquem comunicados. Ergam a voz. Ponham mais pressão no Catar e na FIFA”, escreve o médio do HJK Helsinki, num apelo dirigido a jogadores, dirigentes, federações, adeptos e jornalistas.

No texto, Sparv explica que nos últimos dois anos e meio tem procurado saber mais sobre o panorama do Catar, uma viagem pessoal que começou depois do seu colega de seleção Riku Riski se ter recusado a participar num estágio com a Finlândia no pequeno estado do Golfo Pérsico, por razões éticas.

Daí para cá, com a ajuda da FIFPRO, que representa milhares de jogadores por todo o globo, Sparv tem reunido informações sobre as leis de trabalho do Catar e chegou mesmo à fala com vários trabalhadores, que o colocaram a par das violações de direitos humanos a que são tantas vezes sujeitos.

“Não sou um especialista, mas enquanto capitão da Finlândia eu sei que em breve poderei estar a jogar em estádios que custaram a vida a trabalhadores”, sublinha o jogador.

De acordo com a Amnistia Internacional, há 1,7 milhões de trabalhadores migrantes no Catar. Nos últimos 10 anos, muitos acorreram ao país do Médio Oriente em busca de trabalho nas infra-estruturas que vão servir de apoio ao Mundial, não só nos novos estádios mas também em vias de comunicação ou hospitais.

Muitos trabalham em condições sub-humanas, com a Amnistia Internacional a denunciar situações de passaportes confiscados e ameaças dos empregadores, além da falta de condições de segurança nos locais de trabalho e alojamentos sobrelotados.