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Lukaku diz que o joelho no chão é insuficiente para combater o racismo e o abuso online: “Tenho de lutar, não estou a lutar só por mim”

Avançado do Chelsea quer estratégias "mais fortes", nomeadamente uma reunião entre governo, federação de futebol, empresas de redes sociais, como Facebook e Twitter, por exemplo, e os capitães e estrelas das equipas da Premier League. O objetivo é encontrar uma forma de estancar o abuso e os insultos que os jogadores recebem online

Hugo Tavares da Silva

Stephanie Meek - CameraSport

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A rotina de um gesto pode esvaziá-lo. Quando os futebolistas começaram a colocar o joelho no relvado, honrando e sensibilizando a luta contra a violência policial e racismo, sobretudo depois do caso George Floyd, o tema estava na ordem do dia, merecia algum debate. Agora, parece protocolar. É isto que temem alguns futebolistas.

Romelu Lukaku, recentemente regressado ao Chelsea, é um deles. Em entrevista à "CNN", o avançado diz que são necessárias “posições mais fortes” para combater o racismo e os abusos recebidos pelos atletas. Ele já pedira medidas mais importantes quando, em setembro de 2019, foi alvo de insultos racistas durante um Cagliari-Inter, nomeadamente sons de macaco.

Agora, muitos meses depois e regressado a Inglaterra, onde o assunto se mantém quentinho, principalmente depois dos ataques a futebolistas negros da seleção após o Euro 2020, Lukaku diz que o gesto é insuficiente. “Pois, nós ajoelhamos, as pessoas aplaudem, mas, no final de contas, às vezes depois do jogo vês outro insulto.”

E explicou porque admite deixar de ajoelhar e engrossar a voz: “Tenho de lutar, porque não estou a lutar só por mim. Estou a lutar pelo meu filho, pelos meus futuros filhos, pelo meu irmão, pelos outros jogadores todos e pelos seus filhos, por toda a gente”.

Uma das sugestões do futebolista passa por uma reunião entre governo, federação de futebol, empresas de redes sociais, como Facebook e Twitter, por exemplo, e os capitães e estrelas das equipas da Premier League. O objetivo é encontrar uma forma de estancar o abuso e os insultos que os jogadores recebem online.

As medidas a tomar, que são necessárias “já”, estender-se-iam ao futebol feminino, defendeu o belga. “Penso em todos nós juntos e em ter um encontro grande, e uma conferência e em falar sobre coisas que precisam de ser abordadas para proteger os jogadores, mas também para proteger os fãs e os jogadores jovens que querem ser futebolistas profissionais.”

Ainda esta semana, Marcos Alonso anunciou que ia deixar de colocar o joelho no chão antes dos jogos, pois acredita que essa mensagem está ultrapassada. “Está a perder força”, disse. O espanhol canhoto prefere outro caminho.

“Sou totalmente contra o racismo e contra qualquer forma de discriminação”, disse na terça-feira o ala do Chelsea, em declarações citadas pela BBC. “Prefiro apontar o meu dedo para o símbolo da camisola que diz ‘Não ao racismo’, tal como já se faz em outros desportos.”

Em agosto, foi publicado um trabalho da Professional Footballers’ Association (PFA) focado nos comentários racistas que os jogadores da Liga Inglesa com presença na rede social Twitter receberam ao longo da época passada. As conclusões foram alarmantes: entre os 400 perfis de jogadores analisados, observou-se que 176 (44%) deles receberam conteúdo abusivo.

Mais: concluiu-se também que os comentários tinham quatro alvos em específico. Isto é, quatro futebolistas receberam um total de 20% desse conteúdo. A PFA optou por não revelar o nome dos futebolistas, de forma a não desencadear outra situação semelhante.

O assunto é recorrente. Em fevereiro, o jornal “Daily Mail” deu conta de que os principais dirigentes do futebol inglês iam ou estariam a pressionar empresas como Twitter e Instagram para implementarem medidas de combate ao abuso online. Em particular, exigiam que todas as contas fossem verificadas para que os culpados sejam identificáveis.

Na altura, observaram-se os insultos a futebolistas como Marcus Rashford, Reece James, Anthony Martial, Axel Tuanzebe e Romaine Sawyers.