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Como as AFN 24 Horas de Fronteira se podem ganhar ou perder durante as longas horas de condução noturna

Rui Cardoso

Assim se anda de noite, até deslizando sobre a água.

Paulo Maria/ACP Motrosport

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Na crónica anterior tinha prometido falar da concussão nocturna e, portanto, aqui vai. Mais de metade das AFN 24 Horas de Fronteira, grosso modo das cinco e meia da tarde às sete da manhã, é feita à luz do farol e tudo se transforma: a pista, a forma de conduzir e os objectivos da prova organizada pelo ACP Motorsport.

Quando peguei no volante para o primeiro período de condução nocturnas do nosso Nissan Patrol GR nº 26 pouco passava das 11 da noite. A primeira surpresa desagradável veio de uma série de barulhos na traseira do carro, sinal de que a carroçaria e o chassis podiam estar num processo de dissociação semelhante ao que envolve a Catalunha e o Estado central espanhol…

E o pior é que mesmo após várias voltas não era fácil de descobrir a razão pela qual o carro batia à passagem por alguns lugares: valas, buracos, desníveis? Mesmo com a ajuda de três projectores de tecnologia led (os faróis de origem nestas condições servem para pouco mais que enfeitar) era difícil de perceber e assim foi até o sol raiar e nos começar a mostrar as asneiras que andávamos a fazer.

Uma pista cheia de gente

A segunda surpresa teve a ver com a quantidade de concorrentes em pista. Habitualmente a esta hora o terródromo de Fronteira é um sonho: guiamos no meio do escuro e da solidão total, só quebrada ocasionalmente pela passagem de um concorrente mais rápido. Este ano toda a gente resolveu ir para a pista àquela hora. Era tanto farol que a certa altura disse à minha pendura: “Para onde vai tanto gajo? Irão para as Docas?”

À preocupação de evitar buracos e pedras nem sempre muito visíveis passou a juntar-se a ultrapassagem dos “aviões” isto é dos concorrentes que disputam os primeiros lugares e que, circulando muito mais depressa, podem aparecer a disputar connosco a entrada num ponto estreito ou numa curva muito trilhada. Há sítios onde sair da trajectória ideal envolve perigo ou risco de furo, quando não de estragos irreparáveis na suspensão.

E aí se prova que a física associada a uma prova deste tipo não é a clássica mas a quântica: um carro pode parecer passar por dois sítios ao mesmo tempo, tal como dois objectos em movimento podem momentaneamente partilhar a mesma localização. Com efeitos sonoros em vernáculo luso, é claro.

De passagem uma saudação especial os pilotos dos automóveis clássicos de tracção às duas, desde um Citroen Ax Proto a uma Renault 4 para quem o meu Patrol mesmo em andamento moderado aparecia como um Ferrari e que me facilitaram sempre a vida.

Entretanto o nevoeiro descia para dar mais emoção, complicando ainda mais a visibilidade nas zonas mais baixas, nomeadamente nas linhas de água. A travessia das zonas com lama deixava o pára-brisas em estado de imundície total.

Desenrascanço luso

Só no segundo turno de condução por volta das três da manhã a pista voltou a um estado próximo do normal, ou seja possibilitando fazer um quarto ou terço de volta em estado de tranquilidade total. Entretanto íamos mostrando que o engenho e a arte de que Camões falava não desapareceram no século XVI: uma passagem debaixo de umas ramadas baixas para dar passagem a um “avião” arrancou o suporte de tejadilho com os números de prova e as respectivas luzes e foi preciso improvisar.

Do fundo da box saiu um suporte em cartão e à falta de fios eléctricos, desaparecidos no nada, amarrou-se uma lanterna de pilhas de cada lado...

Mesmo ultrapassados 15 ou 20 vezes por volta não esmorecemos porque nestas coisas o que interessa não é a quantidade de vezes que somos deitados ao chão mas sim a quantidade de vezes que nos levantamos prontos para outra. As voltas foram-se somando e antes que o galo cantasse a espantar os últimos espectros das trevas já tínhamos amealhado voltas mais que suficientes para ficamos classificados: ou seja da ordem da meia centena, isto desde que cumpríssemos a última volta, claro está.

Voltei ao volante às 11 da manhã e disse à companheira de equipa: “de noite andámos a fugir aos aviões, agora, além disso, vamos começar a fazer fintas aos buracos”. Estes, postos em evidência pelos raios solares, começaram a ser fintados com a agilidade que o estado decrépito da mecânica ainda ia permitindo.

E uma vez mais se comprovou que nas corridas de automóveis quem ganha não é necessariamente quem anda mais depressa, faz mais ultrapassagens ou faz a volta mais rápida. A nossa resistência nocturna valeu-nos, pela primeira vez em 21 anos de participações a vitória na nossa categoria.

Vitória luso-francesa

Por seu lado, a corrida brilhante feita por Alexandre Andrade em Nissan AC Proto valeu uma merecida vitória à equipa luso-francesa, a mesma que há um ano lhes fugira a poucos minutos do fim por problemas mecânicos.

A seu lado no pódio uma equipa da Letónia em Mitsubishi Pajero e em terceiro lugar a equipa francesa de Gilles Billaut em Foquet Proto. A melhor euipa portuguesa foi a de Jorge Silva que ficou em sexto lugar da geral com uma Toyota Hi-Lux. A melhor equipa feminina foi a que incluía Ligia Albuquerque e companheiras de equipa espanholas, francesas e italianas em Propulsion Stenbok.

Para o ano virá aí a 22ª edição desta movimentada corrida de resistência.