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Rali de Portugal: o ansiado regresso a Arganil

A grande novidade da 35ª edição do Rali de Portugal é o retorno às serras do Centro, regressando, ainda que com modificações, os troços de Lousã, Góis e Arganil

Rui Cardoso

Massimo Bettiol

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Foram precisos 17 anos para o Rali de Portugal voltar a Arganil. À hora a que acabo de escrever esta crónica não é ainda claro a que ponto a ronda de Arganil alterou a classificação saída do shake down de Baltar, quinta-feira, dia 30, à hora de almoço, ou seja se Neuville, Tanak e Ogier (por esta ordem) continuam, ou não, a dominar as operações.

Na próxima crónica abordarei as incidências finais do primeiro dia a sério desta 35ª edição do Rali de Portugal. Para já vou contar-vos como era o velho troço de Arganil nos tempos de Markku Alen, Hannu Mikkola ou Carlos Sainz. Para os que se lembram, servirá para matar saudades. Para os outros dará uma ideia, ainda que sumária, de como era “o outro” rali.

De noite e com 40 km

Em primeiro lugar a classificativa era muito mais comprida, tendo à volta de 40 km, coisa hoje impensável à luz dos regulamentos. Em segundo lugar, pelo menos uma das passagens era feita de noite. Serra fora, ao longo do traçado, havia centenas de fogueiras pontilhando a directriz por onde os carros haveriam de passar. As particularidades da acústica de altitude davam a ilusão do clamor de um exército da antiguidade, acampado antes de uma grande batalha.

O cruzamento da Selada das Eiras era uma inevitabilidade. A diferença de um ano para o outro, era se os carros vinham de baixo, do mosteiro de Folques, ou da curva de nível, atravessando em frente e bordejando a serra até outro ponto famoso do troço, já mais perto do final, a famosa Casa do PPD (uma ruína com pinturas daquele partido, desenhadas nos primeiros tempos da democracia).

Na maior parte do traçado, a escassa largura da pista fazia com que a cada atravessadela – e não eram poucas – os carros mais compridos passassem com a frente ou com a traseira suspensas no vazio, arrancando longos aplausos à multidão.

Alvorada com Sainz

Nem tudo se passava nas cumeadas. Do lado de Góis, uma das variantes fazia os carros descerem a serra até ao Colmeal, para depois a tornarem a subir. De madrugada o frio era siberiano e os espectadores abrigavam-se nos carros, tentando dormir uns minutos. O ronco de motores começava a ouvir-se ao longe e isso era o sinal para as portas se abrirem e toda a gente começar a correr para a beira da estrada. Segundos depois o clarão de uma bateria de projectores iluminava a multidão e lá vinha o primeiro classificado, daquela vez era Carlos Sainz, que logo desaparecia após um pronunciado gancho entre casas.

O meu camarada de trabalho António Catarino que há décadas faz na rádio (neste caso na TSF) a cobertura do rali garantiu-me que o novo troço de Arganil é muito diferente do antigo, sendo construído à base da colagem de diferentes estradões, às vezes usados noutras provas. Já o troço de Góis que precede o de Arganil “é muito parecido com o que sempre foi”, começando a subir perto dos bombeiros, conforme me explicou Nuno Rodrigues da Silva, um dos mais antigos navegadores em actividade (faz este ano equipa com António Dias num Skoda Fabia R5).

Lousã sem descida de Cacilhas

O troço da Lousã, o primeiro desta ronda serrana, é que nada tem a ver com o antigo, uma vez que o estradão dos Serviços Florestais que descia do alto da serra para a povoação de Cacilhas foi parcialmente asfaltado. Adeus às imagens arrepiantes da derradeira travagem antes do asfalto, com os discos dos travões do Audi Quattro de Michele Mouton à beira da incandescência e os pilotos do pelotão traseiro perdendo velocidade como podiam e sabiam, forçando os carros a escorregarem lateralmente no limite do capotanço e “pendurando-se” no travão de mão para apontarem ao alcatrão.

Eram outros tempos, de facto, mas a boa notícia é que o rali voltou à Lousã e a Arganil, esperemos que para ficar.