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As (velo)cidades e as serras

Quase dúzia e meia de anos depois o Rali de Portugal regressa a Arganil e o primeiro dia de prova não podia ter sido mais animado

Rui Cardoso

NurPhoto

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Se alguém ontem me dissesse que na ronda de Arganil os três primeiros lugares seriam ocupados por três carros da mesma equipa eu responderia que isso era tão provável como acertar no euromilhões. Mas a verdade é que assim foi: três Toyotas (Tanak, Latvalla e Meeke), beneficiando dos problemas matinais dos Hyundai de Loeb e Neuville.

A manhã também não foi auspiciosa para este vosso repórter. A tentativa de aceder à zona do troço de Góis reservada aos media resultou mal devido a um entupimento geral dos acessos causada por dezenas de viaturas mal estacionadas e pela ausência de policiamento local.

Uma segunda tentativa através de uma pista inclinada e escorregadia, em princípio só acessível a viaturas 4x4, não correu melhor, já que o nosso Citroen C5 Air CRoss, depois de ter trepado com honra e pundonor as primeiras rampas, ficou plantado, quando tive que tirar gás devido a uma série de carros abandonados a esmo à entrada de um gancho.

Por aqui se prova que em terrenos mais complicados o chamado Grip Control que equipa algumas viaturas 4x2 como esta é como o tremoço: entretém mas pode não satisfazer. A justiça cósmica fez com que os responsáveis indirectos pelo nosso atascanço – um grupo de estónios, tão simpáticos como etilizados – acabassem por nos ajudar, à força de empurrões, a fazer inversão de marcha e regressar a Celavisa.

Vistas largas

Com a etapa da manhã comprometida, restava tentar no troço de Arganil uma outra zona com estacionamento e acessos reservados aos media que, essa sim, por as pistas serem mais largas e haver maior presença da GNR, resultou em pleno.

E foi aí, perto de Pai das Donas, numa zona com uma visibilidade extraordinária, infelizmente ampliada pelos efeitos dos incêndios, que vimos a segunda passagem em plena tranquilidade. Imagine o leitor: os concorrentes vislumbram-se ao longe abordando uma pista sinuosa a descer do outro lado do monte; vão-se aproximando de nós e passam paralelos à zona espectáculo, onde os melhores pilotos nos brindavam com espectaculares, criativas e ousadas abordagens de dois ganchos sucessivos a subir.

Aí deu para perceber que nem Loeb nem Neuville tinham deitado a toalha ao chão, pois passaram literalmente a voar baixo, de resto, como os três Toyota da frente. Único senão, devido à mudança de vento, um monumental banho de pó, repetido de dois em dois minutos à passagem dos carros.

Presença de público bastante razoável – alguns tinham chegado às quatro da manhã e deixado os carros a 2 km – e pautada pelo civismo: dava gosto ver as pessoas a trazerem sacos de garrafas e latas de cerveja para as zonas de reciclagem. Uma marca deste rali a que voltarei na crónica de amanhã.