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Justiça de Fafe

Reviravolta no penúltimo troço, com três acidentes a envolver pilotos de topo e Neuville da Hyundai a conseguir chegar ao segundo lugar. O primeiro é que não escapou a Tanak, da Toyota

Rui Cardoso

O Toyota de Kirs Meeke em Montim 2, antes do peão e da posterior desistência

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Os provérbios populares representam um saber ancestral mas não necessariamente coerente. Tanto nos ensinam que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, como que até ao lavar dos cestos é vindima.

Foi este segundo aforismo que acabou por se aplicar, como às vezes sucede no futebol, com os golos já no período de descontos. E fez jus à velha lenda sobre a justiça de Fafe, ou seja, à base de varapau. No penúltimo troço do rali – Fafe Montim 2 – um peão do britânico Kris Meeke (Toyota) permitira a Thierry Neuville da Hyundai subir ao segundo lugar. Na frente, o estónio Ott Tanak em Toyota, geria confortavelmente o avanço de 16 segundos para o seu rival belga e ia caminhando para uma vitória nesta edição do rali que, de resto, se começara a desenhar logo nos troços da Lousã e de Arganil.

Mas o mais insólito ainda estava para vir. Na última passagem em Fafe (Lameirinha), a Power Stage que dava pontos suplementares a quem se classificasse nos lugares pontuáveis, uma sucessão de três acidentes baralhou ainda mais a classificação, obrigou a interromper a prova e atrasou o apuramento final do vencedor.

O britânico Greensmith aterrou mal com o seu Ford depois do Salto da Pedra Sentada e deu cabo da viatura. Depois, o campeoníssimo Sebastien Loeb, deu uma traseirada das antigas e arrumou com o seu Hyundai. Finalmente, Kris Meeke, decidiu morrer (salvo seja) na praia e arrancou uma roda ao seu Toyota, com a tomada de tempo já não muito longe.

Principal beneficiado, outro Sebastian, o francês Ogier que, sem se dar por isso, acabou por trazer o seu Citroën para o terceiro lugar, abaixo de Tanak (Toyota) e Neuville (Hyundai).

Coração do rali

Com tantas emoções impróprias para cardíacos, Fafe é, de facto, o coração deste rali. São sucessivos troços serra fora mas sempre à vista da A7 e da sede do concelho. Há muitos acessos para o público, sendo o local mais frequentado a descida do Confurco perto da aldeia de Várzea Cova e não

muito longe de Cabeceiras de Basto. É aí que, depois do famoso Salto da Pedra Sentada, os carros descem um traçado muito escorregadio e sinuoso, entrando para a esquerda no asfalto, percorrendo uma centena de metros e fazendo um gancho à direita a subir, a caminho do Salto do Pereira e da tomada de tempo.

Aí há legiões de espectadores dos dois lados do troço e um ambiente de estádio de futebol, com cânticos em coro e estranhos concertos de música contemporânea tendo moto-serras e cornetas como instrumentos solistas. E já que de futebol se falou, uma das queixas mais ouvidas entre os espectadores tinha a ver com a circunstância de as televisões portuguesas, ao contrário das estrangeiras, darem poucas ou nenhumas imagens da prova, para não falar em transmissões em directo. “Se fosse para falar de bola e ter lá meia dúzia de morcões a espalhar ódio entre as pessoas, isso já transmitiam”. Este, em diversas versões, o desabafo mais frequentemente ouvido.

Miradouro de Montim

Do ponto de vista da paisagem e dos pontos para ver os carros, deixo uma recomendação especial para Fafe-Montim e um alerta: é para quem tenha boas pernas! Deixados os carros junto ao cemitério, é preciso subir uma pista empedrada e muito inclinada e, no final desta, junto às primeiras barreiras que delimitam o troço, atalhar à direita, monte acima, de penedo de granito em penedo de granito, até chegar a um ponto de observação extraordinário, um verdadeiro miradouro sobre o troço.

Ao longe, para norte, as eólicas na cumeada correspondente ao troço da Lameirinha e as nuvens de pó respectivas. Lá em baixo, uma abertura entre o arvoredo que permite ver a aproximação dos concorrentes e depois uma sucessão de curvas que termina com um gancho para a esquerda e uma subida.

Um regalo para a vista e um festival de condução, dado sobretudo por pilotos que já não tinham nada a perder, como Latvala no terceiro Toyota que ontem não completara a ronda de Vieira do Minho e Amarante.

Ainda na Toyota (que chegou a ter três carros nos três primeiros lugares), ao contrário do seu companheiro de equipa Ott Tanak que vinha a gerir o avanço sobre a concorrência, Kris Meeke, que há três anos ganhara o rali e que o ano passado escavacou completamente um Citroen em Amarante, coisa que precipitou o seu afastamento da equipa francesa, deu um festival de condução neste ponto, prelúdio do peão mais adiante que lhe haveria de valer, primeiro a queda para a terceira posição e, já na Power Stage, a desistência.

As duas equipas portuguesas da Hyundai (Armindo Araújo/ Luis Ramalho e Bruno Magalhães/Hugo Magalhães) dominaram as participações nacionais, assegurando a dobradinha.

Para o ano, se possível com menos pó e menos calor, há mais.