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Assim se vê a força do TT

De duas ou quatro rodas mas sempre a fundo, cinco equipas de topo do todo-o-terrno português juntaram-se perto do Cercal para matar saudades da competição. Desta vez não houve público mas para a próxima talvez haja

Rui Cardoso

Cinco formas diferentes de fazer TT

RICARDO OLIVEIRA/@World

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Uma destas manhãs saiu a sorte grande a quem circulava na N261 entre o Cercal e a Mimosa, perto do lugar de Bicos. Os automobilistas foram brindados com um verdadeiro concentrado de TT. Em rápida sucessão mas sempre levantando uma poeirada infernal viram passar numa herdade, a poucos metros da estrada, uma pick-up 4x4, um carro de ralis, um SSV (também conhecido por buggy ou “aranhiço”), um quad e uma mota, todos descrevendo a mesma sucessão de curvas apertadas em piso pedregoso e escorregadio.

Que fazia toda esta gente no Baixo Alentejo num dia quente em que as pessoas dotadas de algum senso estavam na praia ou debaixo de uma sombra? Era o reencontro de uma série de pilotos de primeira linha com o todo-o-terreno competitivo, a pouco dias do recomeço das provas oficiais.

“Já para aqui tinha vindo treinar e achei que era o sítio ideal para recomeçar”, explica João Ramos, piloto da Toyota. “Depois pus-me a pensar, lembrei-me de uma coisa que tinha feito há dois anos com o Armindo Araújo em Baltar e pareceu-me que seria mais divertido juntar pilotos, representando de alguma forma as diferentes variantes da competição TT, dos ralis às duas rodas”. Desta forma nascia o X-Day, nome de uma iniciativa que pode ter vindo para ficar.

Corrida de campeões

À dupla João Ramos/Victor Jesus em Toyota Hi-Lux (campeões nacionais TT 2018), juntaram-se Ricardo Teodósio/José Teixeira (campeões nacionais de ralis 2019 em Skoda Fabia), João Monteiro/Manuel Pereira (com três primeiros lugares em SSV em provas nacionais), João Vale (vencedor em quad de um título em Espanha,) e Diogo Vieira (campeão nacional de enduro, elite 1 2018).

A moto e a pick-up, cada qual por seu caminho

A moto e a pick-up, cada qual por seu caminho

RICARDO OLIVEIRA/@World

Um lote de respeito que, uma vez aberta a pista, não tardou em mostrar as suas habilidades. Querer comparar veículos tão diferentes, ainda que no mesmo percurso, tem tanto sentido como aquela cena das paginais iniciais de “Viagens na Minha Terra” quando os campinos e os pescadores questionam os viajantes ilustrados para saber o que tem mais valor: enfrentar os touros bravos ou as ondas do mar…

Cinco variantes do verbo acelerar

A pick-up Toyota (uma modelo especial com motor a gasolina de mais de 300 cv e chassis tubular, feito na África do Sul) é espectáculo garantido: o motor sempre a roncar, a traseira a girar de um lado para o outro, dando a ilusão de que, por muito larga que seja, a pista pode não chegar.

O Skoda Fabia de ralis, com menos umas centenas de quilos mas muito menos altura ao solo, sofre mais no mau piso mas quando se insere nas curvas fá-lo com uma eficiência deslumbrante e, em pondo os cavalos no chão, esfuma-se num ápice.

O SSV, no caso um Can Am, é tão leve e ágil que parece que não está a andar nada de especial mas isso é pura ilusão. Só o longo curso da sua suspensão impede que voe ainda mais nas lombas.

O Quad, além de ser uma fábrica de pó na proporção inversa do seu tamanho, é uma máquina infernal em TT, capaz de passar absolutamente por todo o lado e de o fazer depressa. Ao ponto de um dos fotógrafos, ao querer fazer uma imagem mais próxima, ter tido de fazer uma finta ao veículo conduzido por João Vale, digna do redondel de uma praça de touros e não menos arriscada.

João Ramos, campeão Nacional de TT 2018

João Ramos, campeão Nacional de TT 2018

RICARDO OLIVEIRA/@World

Finalmente a moto que, como costumava dizer Pedro Villas-Boas, um dos primeiros portugueses a ir ao Dakar “é o veículo TT por excelência” e, pelo que se viu com a Yamaha de Diogo Vieira, ao contrário dos veículos de quatro rodas, tem sempre pista de sobra para desenhar a trajectória ideal.

Público, o grande ausente

Pesem embora as restrições aos ajuntamentos, decorrentes da emergência sanitária, a longo prazo não há desporto sem público. E isso é ainda mais verdade para o TT e os ralis, capazes de arrastarem multidões para os sítios mais inóspitos.

Esse é um dos problemas que a modalidade vai enfrentar. “Uma equipa consegue garantir que os seus elementos cumpram as normas sanitárias mas para o público isso não é possível. Tudo depende, mais que da fiscalização, do bom senso dos espectadores”, alerta João Ramos.

Depois, há o lado económico. O desporto motorizado é necessariamente caro e para as equipas da frente ainda o é mais. Estando à vista as consequências económicas da pandemia, realizar quatro provas do Nacional de TT até ao fim do ano, é algo com que João Ramos não concorda. Até porque, “havendo empresas a reduzir facturação e a despedir ou suspender pessoal, com que cara lhes vamos pedir dinheiro para correr?”

As dificuldades em angariar patrocínios “podem afastar equipas de topo da luta pela vitória, distorcendo a competitividade. E o calendário é tão apertado que, entre a Baja do Pinhal e a de Reguengos só há nove dias úteis para recuperar o carro. Eventuais intervenções mecânicas mais complicadas, ou são impossíveis, ou implicam custos exponenciais de mão-de-obra”.

Por esta razão, Ramos defendeu que “este ano não devia haver campeão e se devia organizar um calendário com menos provas que desse tempo para preparar a próxima época como deve ser”.

Seja como for, os espectadores estavam com saudades do TT e os pilotos também. “Já que não podemos, por enquanto, ter as pessoas aqui, ao menos que se divirtam vendo os nossos treinos virtualmente, seja através dos media, seja nos canais da internet”, diz João Ramos. E acrescenta: “Temos que nos reinventar. Há uns anos abri o Street Stage do Rali em Braga com a pick-up e foi um delírio. Se um dia for preciso fazer como os americanos e saltar por cima de camiões também não é nada que não se arranje…”

Os pilotos. Da esquerda para a direita Diogo Vieira, João Ramos/Vitor Jesus, Ricardo Teodósio/José Teixeira, João Monteiro/Manuel Pereira e João Vale
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Os pilotos. Da esquerda para a direita Diogo Vieira, João Ramos/Vitor Jesus, Ricardo Teodósio/José Teixeira, João Monteiro/Manuel Pereira e João Vale

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Início do salto da pick-up Hi-Lux
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Início do salto da pick-up Hi-Lux

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A Hi-Lux começa a levantar voo
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A Hi-Lux começa a levantar voo

RIcardo Oliveira/@World

Um voo de Hi-Lux que parece picado
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Um voo de Hi-Lux que parece picado

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E uma aterragem feliz para a Hi-Lux
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E uma aterragem feliz para a Hi-Lux

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Diogo Vieira, ou um ás pelos ares
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Diogo Vieira, ou um ás pelos ares

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O SSV a fazer das suas
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O SSV a fazer das suas

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Se os carros de ralis voam em Fafe porque não hão-de fazê-lo no Alentejo?
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Se os carros de ralis voam em Fafe porque não hão-de fazê-lo no Alentejo?

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Bailado entre um fotógrafo atrevido e um quad cheio de pressa
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Bailado entre um fotógrafo atrevido e um quad cheio de pressa

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Um passageiro clandestino no carro de Ricardo Teodósio
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Um passageiro clandestino no carro de Ricardo Teodósio

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As cinco equipas alinhadas como numa grelha de partida
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As cinco equipas alinhadas como numa grelha de partida

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